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Historia Da Bossa Nova

Historia Da Bossa Nova

O que todo mundo precisa saber sobre a bossa nova

Entendendo a historia da bossa nova

A bossa nova nasceu no final dos anos 50, num período específico da história do Rio de Janeiro. Não foi um movimento pensado em estúdio. Foi um grupo de jovens músicos que se encontrou em apartamentos perto da praia de Ipanema e Botafogo, tocando violão numa versão mais suave da música popular brasileira. Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto e outros estiveram envolvidos. O que diferenciava esse som era técnico, não filosófico. O violão de João Gilberto tinha um dedilhado que mesclava batidas na tabela com notas de baixo, criando uma linha rítmica autônoma. A harmonia trazia extensões de nona, onzava e duodécima vindas do jazz norte-americano, mas aplicada de forma orgânica, sem virtuosismo. A voz entrava por cima como se estivesse conversando, quase sussurrada. Eu comecei a tocar violão em meados dos anos 90, aprendendo alguns dos clássicos pela internet. O problema prático que encontrei logo foi com "Garota de Ipanema". A partitura padrão encontrada em sites de cifra mostra o acorde na mão esquerda, mas a execução real do violão demanda independência entre o polegar e os dedos indicador e médio. A maioria dos iniciantes faz uma coisa errada: toca o acompanhamento como se fosse uma valsa ou bolero. O resultado soa artificial e perde a pulsação sincopada que define o estilo.

A correção que funcionei foi estudar a gravação original de 1962, do álbum "Getz/Gilberto", prestando atenção especificamente ao padrão do baixo. O polegar toca as notas 1, 5 e 7 do acorde em tempos irregulares. Depois de praticar isso deitar com metrônomo a 60 BPM por duas semanas, a coisa desbloqueou. Demora. Não tem atalho.

Contexto histórico e fatores que moldaram o som

A bossa nova não apareceu do nada. Ela recebeu influência direta do modo como o saxofonista e arranjador Charlie Byrd apresentou o samba nos Estados Unidos, a partir de 1957. Antes disso, o jazz americano via o samba como algo exótico e rítmico, focado na percussão. Byrd mostrou que o samba tinha uma textura harmônica rica o suficiente para ser explorada dentro do contexto do cool jazz. Stan Getz ouviu isso e ficou interessado. Paralelamente, no Brasil, o cinema novo de Glauber Rocha e a geração de jovens intelectuais paulistas e cariocas estavam buscando uma linguagem moderna que rompesse com o nacionalismo folclórico dos anos anteriores. A bossa nova se encaixou nesse clima. Era moderna, urbana e cosmopolita. Há um detalhe que pouca gente leva em conta. A bossa nova não substituiu o samba de escola de origem. Ela coexistiu com ele. O samba continuava vivo no carnaval e nas rodas de rua. A bossa era música de apartamento, de barzinho, de discos de vinil. Dois mundos. Isso explica por que algumas pessoas têm uma visão romantizada do gênero e outra o despreza completamente. Ambas estão certas dentro dos seus contextos.

História da Bossa Nova Volume 1 | Livro Caras Edição Especial Usado ...
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Outro ponto que costuma ser omitido: a gravação do primeiro disco de Tom Jobim e Vinícius, "Canção do Amor Demais" de 1959, sofreu intervenção da gravadora. Algumas faixas foram regravadas com arranjos de string e uma formação maior do que o trio original de violão, piano e voz pretendido. A versão mais pura e íntima do som só veio mesmo com o trabalho solo de João Gilberto e as produções posteriores.

A internacionalização e o colapso comercial

O álbum "Getz/Gilberto", lançado em 1963, gravado em Nova York, foi o momento em que a bossa nova explodiu globalmente. "The Girl from Ipanema" tornou-se a segunda canção mais gravada do século XX, atrás apenas de "White Christmas". Isso trouxe dinheiro, fama e exposição. Mas também trouxe imitação em série. Produtores estadunidenses começaram a contratar músicos brasileiros sem critério, gravavam sobreproduzidos com orquestras de cordas genéricas e diluíam o som até restar um cheiro de tropicalismo de supermercado. Esse fenômeno é importante porque explica grande parte do desprezo que a bossa nova sofreu a partir dos anos 70. A crítica brasileira, vendo o gênero ser reduzido a trilha sonora de comerciais e discos de elevador, rejeitou tudo que vinha associado. Muitos músicos que tinham participado do movimento original se afastaram dos palcos ou migraram para outros projetos. João Gilberto, por exemplo, gravou álbuns praticamente sozinho nos anos 70, com repertório próprio e pouca divulgação. Ninguém falava sobre ele. Era como se o Brasil tivesse vergonha do que tinha produzido. A redescoberta só veio nas décadas seguintes, através de reedições e do trabalho de produtores que perceberam o valor real daquelas gravações.

O legado e o que permanece

O que a bossa nova deixou foi principalmente uma nova relação entre harmonia e ritmo na música popular brasileira. A ideia de que um acorde pode ser estendido, que a progressão harmônica pode ser sofisticada sem perder a acessibilidade, que a voz pode ser um instrumento rítmico e não apenas melodístico — tudo isso entrou no vocabulário de gerações de músicos. MPB dos anos 70, Tropicália, a nova cena carioca dos anos 90, tudo bebeu dessa fonte de alguma forma. Se você quer começar a estudar o gênero, o conselho mais honesto que posso dar é: ouça os discos originais, não cover. A diferença entre uma execução bem feita e uma mal feita na bossa nova é brutal. Otimização técnica do violão, afinatura, dinâmica vocal. Existem documentários disponíveis em plataformas de streaming que mostram o processo. "Jobim: O Homem, o Rio e Sua Música" é um deles. Mais limitado, mas útil, é o DVD "João Gilberto — Acústico". Para quem está procurando partituras e cifras, o site do Musicnotes e o iTunes Sheet Music têm edições confiáveis, mas cuidado com fontes gratuitas não verificadas. Muitas transcrições online erram a harmonia de "Chega de Saudade" e colocam acordes que nunca foram tocados nas gravações originais. A versão em Dó sustenido menor do verso, por exemplo, costuma ser simplificada erroneamente para Lá menor em sites amadores.

O Blog do JF: A história da "Bossa Nova" em detalhes
O Blog do JF: A história da "Bossa Nova" em detalhes

Se o seu objetivo é apenas ouvir, os álbuns essenciais são "Getz/Gilberto" (1963), "O Amor, o Sorriso e a Flor" (1966), "Tom Jobim" (1967) e "João Gilberto" (1960). A playlist resultante dura cerca de três horas. É menos do que parece e muito mais do que o mainstream costuma oferecer. O gênero não precisa ser venerado nem desprezado. Ele existe como um momento específico na história musical brasileira, com qualidades reais e limitações reconhecíveis. O que vale a pena é tratar com honestidade o que foi feito, em vez de repetir o que se tornou clichê.