Instrumento Musical De Origem Africana
Como tocar instrumento musical de origem africana na prática
A maioria das pessoas que pega um djembe pela primeira vez já erra o básico antes de fazer o primeiro som decente. O problema não é falta de talento. É que o instrumento foi feito de uma maneira que parece contra-intuitiva para quem veio da percussão ocidental ou de qualquer outra tradição. Você senta em cima dele achando que vai dominar, e em vinte minutos já tem os pulsos doendo e nada parece certo. Vou falar do djembe, que é o mais comum no Brasil e no mundo fora do continente. Tem também a kora, o balafone, o ngoni, mas o djembe é o que você encontra em qualquer loja de instrumentos usada por cinquenta reais. Vou explicar como realmente funciona a técnica, não o que os livros de música dizem que deveria funcionar.
Por que todo instrumento musical de origem africana que você ver nas lojas tem problema de qualidade
Eu comprei meu primeiro djembe em 2011 numa loja de discos em São Paulo. Era um instrumentto musical de origem africana importado da Costa do Marfim por um cara que dizia ser especialista em ritmos tradicionais. Custou duzentos reais. Depois de três meses de uso intenso, a pele esticou demais num dos pontos e o corpo entrou em afinamento desuniforme. O bumbo central já soava abafado. A borda direita tinha um zumbido que não saía de jeito nenhum. O que eu fiz foi trocar a pele por uma de carneiro sintética importada da Alemanha, marca Remo, modelo P1, e ajustar os parafusos em padrão de estrela durante duas semanas, apertando de dois em dois milímetros por vez. Apelei para um medidor de tensão universal e deixei o tambor descansar trinta dias antes de usar com intensidade. O problema se resolveu. Mas isso é o tipo de coisa que ninguém te conta quando você compra o instrumento. A regra geral é: djembes baratos têm pele de cabra curtida em salmoura que não responde bem à umidade. Se você mora em São Paulo, Rio ou qualquer lugar com mais de sessenta por cento de umidade relativa, a pele vai crescer e afrouxar em dias. Não adianta tentar compensar apertando os parafusos com força excessiva porque a pele rasga. Use pele sintética se quiser consistência. Use pele natural se quiser o timbre correto e aceitar que vai precisar ajustar a cada duas semanas.
A técnica correta que ninguém ensina
O som base do djembe vem de três golpes: o bass, o tone e o slap. O bass é o centro, a palma da mão aberta e relaxada, dedos juntos. O tone é a borda, com os dedos levemente curvados e o pulso flexionado. O slap é o mais difícil e o mais mal compreendido. A maioria dos iniciantes soca a pele com os dedos e acha que está fazendo slap. Na verdade está apenas batendo seco e gastando os dedos em vão. O slap correto exige que os dedos batam na pele quase que por impulso, com o pulso solto e os dedos se afastando da superfície num movimento de chicote. A posição correta é com os dedos indicadores e médios tocando primeiro, seguido pelo anelar e mínimo, tudo num único movimento rápido de ida e volta. Se o som for agudo e metálico, você acertou. Se for abafado e seco, está socando. Um detalhe que pouca gente leva a sério: a posição do corpo. Você não deve sentar com as pernas cruzadas no chão. O ideal é sentar numa cadeira baixa ou banquinho, com os joelhos levemente abertos e o djembe entre as coxas, apoiado na virilha. Isso dá estabilidade e libera os pulsos. Quando eu vi pela primeira vez um mestre bambara tocando sentado no chão, com as pernas estendidas, achei que era o jeito certo. Era apenas o jeito dele. Eu me machuquei o pulso inteiro tentando imitar.

Ritmos básicos que você vai usar de verdade
Não adianta decorar vinte e quatro padrões complexos se você não domina os três primeiros. O dundunba é o ritmo base da Guiné. Ele usa uma sequência simples de bass-tone-slap que se repete em doze tempos. O kuku é de Serra Leoa e tem um padrão mais direto, bom para aquecer os dedos. O sopo é o mais lento e serve para controlar o pulso sem forçar o pulso. Eu recomendo que você grave a si mesmo tocando. Não porque precisa gravar para publicar, mas porque o djembe distorce sua percepção de tempo quando você está tocando. O que parece lento e controlado para você soa acelerado na gravação. Eu demorei seis meses para perceber que meu dundunba estava dois tempos adiantado em relação ao resto do grupo. A fita revelou. A partir daí, pratiquei com metrônomo até o padrão ficar no tempo certo.
O que funciona e o que não funciona
O djembe não funciona bem em ambientes secos. A pele resseca, perde tensão e o som fica sem corpo. Se você mora no sertão nordestino ou no interior de Mato Grosso, considere usar uma pele sintética ou manter o instrumento num ambiente com umidificador. Também não funciona bem se você tocar por mais de quarenta minutos sem pausar. Os tendões do pulso cansam e a técnica deteriora. Faço pausas de cinco minutos a cada meia hora e isso mantém a consistência do som. O principal erro que vejo em alunos é achar que slap é sinônimo de volume. Slap é sobre clareza, não sobre intensidade. Você pode fazer um slap suave que corta a mixagem sem precisar bater com força. A força vem do pulso, não do antebraço. Quando você usa o braço todo, o som fica pesado e os dedosdoem depois de dez minutos. Quando usa o pulso, o som é nítido e você toca por horas sem fadiga. Se o seu objetivo é estudar seriamente, encontre um professor que toque regularmente com grupos e não apenas vídeos na internet. Nada substitui a correção em tempo real de um praticante que já passou por isso. O resto é custo-benefício: vídeos ensinam o básico, o professor corrige o que você não vê que está errado.
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