POTHIEDU Não Decore a Resposta. Entenda o Caminho

Instrumento Usado Na Capoeira

Instrumento Usado Na Capoeira

O berimbau e o que realmente acontece dentro da roda

O berimbau é o centro musical da capoeira, e dizer que ele só toca melodia é uma simplificação que esquece como a coisa funciona na prática. O instrumento vem em três tamanhos principais: o violão (o mais grave, que marca o tempo), o gungô (o Médio, que faz a linha base da música) e a viola (o agudo, que dá os ornamentos). Existe também o reco-reco, a caixa e o agogê na bateria, mas o berimbau é quem dita o jogo. A parte que os manuais não contam é o equilíbrio entre a mão esquerda e o dedão. Você segura o cabo com a mão esquerda, um moeda ou pedra apoiada no fio para fazer a vibração, e bate com o bastão de dendê. A mão esquerda também aperta o fio contra o corpo do berimbau para mudar o tom. Isso não é apenas técnica, é coordenação que leva meses para entrar no músculo. Eu lembro de uma vez em que toquei um berimbau de arame velho num barraco no Recôncavo Baiano e o fio estava tão gastado que simplesmente não sustentava a tensão necessária pro gungô. O som ficava abafado, sem a vibração clara que todo mundo espera. A solução foi improvisar: enrolei um pedaço de couro cru em volta do arame onde ele passava pelo apoio de madeira, o que o atrito e estabilizou a vibração. Foi gambiarra, mas funcionou. Desde aí, qualquer berimbau novo que chega na minha mão, eu já inspeciono o fio antes de tocar.

Como escolher e preparar o instrumento usado na capoeira

Se você tá começando, o primeiro erro comum é comprar o instrumento mais bonito ou o mais barato. O bonito geralmente é peça de museu. O barato costuma vir com madeira mal seca e arame de ferro comum que enferruja em duas semanas. O ideal é procurar um berimbau de ipê ou jacarandá, com o cabaça (a ressonância) bem adaptada ao corpo. A cabaça deve ter um furo pequeno na parte inferior e ser fixada com corda de nylon ou embira bem apertada. A tensão do fio é o que mais determina o tom. Cada fabricante vende o berimbau com uma tensão específica, mas o ambiente importa muito. Um berimbau que soa bem numa sala seca e quente pode ficar surdo num dia chuvoso, porque a madeira expande e o fio perde tensão. Leve um alicate de ajuste sempre consigo. Eu mantenho sempre um jogo de porcas e arruelas avulsas no kit, porque as originais do fabricante costumam escorregar depois de duas horas de jogo seguido. A moeda ou pedra usada na vibração também faz diferença. Moeda de real velha funciona, mas a pedra de granito polida é o padrão dos mais antigos. Ela é mais pesada e dá uma vibração mais consistente, especialmente pro gungô. Se você usar moeda, certifique-se de que ela não tenha bordas afiadas, porque com o tempo o fio começa a desgastar o metal e a moeda pode escorregar no meio da música. O bastão de dendê precisa ter cerca de 45 centímetros. Bastão curto demais tira o controle do ritmo. Bastão longo demais limita os golpes rápidos. A espessura ideal é a de um dedo mindinho. Alguns jogadores adaptam o próprio bastão pra ficar mais fino na ponta, assim conseguem executar os floreios da viola sem perder o peso na base. Quando se trata de regência na roda, o berimbau não é só instrumento. É comando. O ritmo do viola que manda o jogo rápido (angola ou regional), o gungô que sustenta o andamento, e o violão que marca os tempos fortes. Quem não entende isso toca música bonitinha mas não consegue conduzir a roda. Já vi capoeirista com técnica impecável de berimbau ser ignorado na hora de ditar o jogo porque simplesmente não sabia a hierarquia dos ritmos. Eu já vi gente trocar o arame original por um de aço invertido de piano, o que realmente melhora a durabilidade e o brilho do som. Mas isso exige ajuste fino na tensão. Arame de aço é muito mais rígido que o de ferro comum, e se você não souber ajustar a porca de tensão, corre o risco de quebrar o suporte de madeira da cabaça. Eu já quebrei dois suportes assim antes de entender que precisava aquecer levemente a madeira com secador antes de apertar a porca. O calor amacia a fibra e ela aguenta mais força sem trincar. A limpeza também é negligenciada. Resíduo de suor no arame é corrosão acelerada. Passo um pano levemente umedecido com óleo de cozinha vegetal depois de cada uso. Não precisa muito, só o suficiente pra criar uma barreira. Se deixar acumular, o arame começa a ficar áspero e o toque perde sensibilidade, especialmente na mão que aperta o fio pra variar o tom. Outro detalhe que pouco mencionar é a altura da cabaça. Berimbau alto soa mais aberto, berimbau baixo soa mais fechado. Não tem regra, mas dependendo do espaço da roda e do tamanho dos corredores, você escolhe o que melhor preenche o som. Emsalões grandes, cabaça maior. Em rodas de rua ou espaços pequenos, cabaça menor evita que o som fique estrondoso e domine a cena.