Já Se Passou Ou Já Se Passaram
A questão de concordância com "passar" no sentido de tempo decorrido
Essa dúvida aparece com frequência em textos formais, correções de conteúdo e até em editais de concurso. A confusão é simples: o verbo "passar" acompanhado do "se" pode ser interpretado de duas formas, e cada uma delas exige um tratamento diferente de concordância verbal. Quando "passar" funciona como verbo impessoal no sentido de tempo decorrido (ou seja, "o tempo passou"), o "se" é partícula apassivadora ou índice de indeterminação do sujeito, e o verbo fica sempre no singular. A estrutura básica é: já se passou + tempo. Exemplo: "Já se passou um ano desde que começamos o projeto."
Quando você vê "já se passaram", na maioria das vezes está diante de uma construção onde o sujeito é plural — os anos, os meses, os dias. Nesse caso, o verbo concorda com o sujeito. A frase correta seria: "Já se passaram dois anos desde que começamos o projeto." O critério é este: o sujeito vem depois do verbo. Se for singular ("um ano", "uma semana"), verbo no singular. Se for plural ("três anos", "seis meses"), verbo no plural. A única exceção importante é quando o sujeito é implícito e se trata de tempo de forma genérica — aí predomina o singular. O que eu vejo com mais frequência em revisões é gente escrevendo "já se passou cinco anos" achando que está errado, quando na verdade o problema é o oposto: alguém corrigiu para o plural sem verificar se o sujeito era realmente plural.
Um caso concreto que me peguei recentemente: um texto dizia "já se passou muitos meses sem resposta". No momento da revisão, o instinto foi deixar no singular porque a construção impessoal com tempo parece puxar para lá. Mas o sujeito era "muitos meses" — plural. A correção foi para "já se passaram muitos meses". Isso acontece todo dia em corretores automáticos, que muitas vezes não distinguem entre o sentido impessoal e o de concordância com sujeito postposto. Outra nuance que poucas pessoas levam em conta: quando o complemento é uma oração ou uma quantidade imprecisa, como "muito tempo" ou "bastante tempo", o singular é a escolha natural, pois não há um substantivo plural explícito exigindo concordância. "Já se passou muito tempo desde a última atualização." Soa melhor e está gramaticalmente mais seguro do que o plural aqui. Se você está tratando de redações formais ou materiais institucionalizados, a regra prática que funciona na maioria das vezes é esta: identifique o núcleo do sujeito que vem após o verbo. Se for singular, verbo singular. Se for plural, verbo plural. E se o sujeito for algo vago como "tempo", fique com o singular.

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