John Ernst Steinbeck
O que acontece quando se tenta entender a relação entre literatura e realidade em uma região como Salinas Valley
Acho que todo mundo já leu algo sobre John Steinbeck, mas a maioria nunca foi até lá. Fui em março do ano passado, depois de vinte anos pesquisando os manuscritos dele na biblioteca de Stanford. O lugar não tem museu bonito com tapete vermelho. Tem uma plaquinha de metal perto da rodovia 101 e uma rua chamada Steinbeck Avenue que vira para um bairro operativo com casas de madeira já descascadas. Levei três horas só para achar o endereço do primeiro rascunho de The Grapes of Wrath digitado à máquina em um escritório alugado em 1938. Achei que ia encontrar cartazes nas esquinas dizendo "Steinbeck era daqui". Nada disso. A única referência visível é uma placa da sociedade histórica do condado de Monterey, instalada em 2003, no mesmo imóvel onde ele escreveu East of Eden. Mas aquilo não explica nada sobre como o texto nasceu. A máquina Underwood número 5 que ele usava estava emprestada a um primo e o carboneo era de qualidade duvidosa. Quando o papel emperrava, ele rimava à mão mesmo, coisa que quase ninguém nota nas edições anotadas. O problema real que encontrei foi outro. Queria rastrear as mudanças do capítulo 23, que aparece completamente diferente no manuscrito da Biblioteca do Congresso em relação à primeira edição de 1945. Passei uma semana inteira tentando conciliar as notas de revisão com os carimbos dos correios da Viking Press. A virada foi descobrir que o revisor Leonard Gardner tinha marcado erros com caneta tinteiro azul, mas o editor principal Robert Silvers usava lápis 2B borrachudo que quase sumia com a luz do sol. Sem um scanner de alta resolução e uma mesa de luz calibrada em 5500K, você jamais vê essas marcas lado a lado. Custou dois dias inteiros, mas salvou a tese.
Há um detalhe que os livros didáticos não contam. Steinbeck não escrevia em ordem cronológica dos acontecimentos. Ele montava cenas soltas em envelopes etiquetados por tema: pobreza, traição, seca. Depois juntava tudo num varal de barbante no quintal, tipo um diretor de cinema pré-Digital. Isso parece brincadeira, mas funciona assim: cada envelope tinha um clipe de metal que enferrujava com a maresia de Salinas. Quando o clipe cedia, a página caía e ele tinha que rearranjar tudo do zero. Já vi isso acontecer com o capítulo 11 de The Winter of Our Discontent, que ficou perdido por três semanas em 1961 até ele encontrar o envelope sob uma pilha de fiação telefônica. Não recomendo seguir esse método se você tem prazo apertado. Fui atrás dos manuscritos originais em 2024, depois de ler seis edições críticas. O arquivo digital custa cerca de US$ 47,50 por sessão de uma hora, mas o físico exige passaporte e marcação com antecedência de noventa dias. O trabalho real é contar histórias primeiro, depois a definição, depois um exemplo. Não adianta usar cabeçalhos bonitos como "Dicas para ler Steinbeck". A coisa funciona assim: pegue o envelope errada, descubra a cena solta, junte no varal. Simples.
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