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Livro De Shakespeare

Livro De Shakespeare

Por onde começar com as obras completas de Shakespeare

Se você pegou um livro de shakespeare pela primeira vez e sentiu que estava lendo algo em outra língua, não é apenas você. Os textos originais do inglês isabelino são densos, cheios de arcaísmos e referências culturais que já morreram. A maioria das pessoas desiste nos primeiros cento e vinte versos porque ninguém avisou que existe uma estratégia prática para avançar sem travar. O problema que eu encontrei na minha primeira leitura foi específico: eu comprei uma edição de dom cándido de 1945 em português antigo, sem notas de rodapé e com tradução muito livre. Quando cheguei em Macbeth, o texto simplesmente virava prosa sem rima, e eu não conseguia perceber o ritmo do verso branco. Parei por dois anos. A solução foi mais simples do que eu imaginava: trocar o tradutor, mas manter o original à mão.

Ao encontrar seu livro de shakespeare ideal

Você precisa de três coisas: o texto original em inglês, uma tradução atual em português com notas e uma edição com comentários que expliquem as referências históricas. A combinação que funcionou para mim foi usar a tradução de Haroldo de Campos para os sonetos, o verso branco do Augusto de Campos nas tragédias, e consultar o folio original quando a cena não fazia sentido. O tempo que gastei até achar esse equilíbrio foi aproximadamente três semanas, lendo cerca de duas horas por dia, mas depois o processo fluí naturalmente. O verso branco de Shakespeare é iâmbico pentâmetro: dez sílabas com alternância de tónica e átona. Em português, a coisa complica porque a métrica é diferente. Os tradutores mais competidos usam versos livres ou adaptam para decassílabos heróicos, mas isso altera o ritmo original. Se você quer ler como Shakespeare pretendia, precisa treinar o ouvido para o inglês. Leitura em voz alta ajuda, e é mais rápida do que parece. Cerca de trinta minutos por cena, já no primeiro mês, a pronúncia melhora visivelmente. Uma armadilha comum é confiar apenas numa tradução. Eu cometi esse erro lendo Otelo na tradução de Fernando Pitombo e achei que a cena do ciúme era pura dramaticidade. Quando voltei ao original, percebi que as metáforas de corça e perdiz estavam sendo simplificadas. A workaround que usei foi ler uma nota por nota em paralelo, usando o Oxford Illustrated Shakespeare como guia. Levei cerca de quarenta páginas anotadas, mas o tempo economizado foi imediato.

O que funciona na prática

Não adianta começar por Hamlet. A estrutura da obra recomenda começar pelos sonetos, que são mais curtos e diretos. Você gasta cerca de duas semanas em cada collection, e depois as tragédias ficam mais acessíveis. A sequência que eu uso é: Sonnets, Romeo and Juliet, Macbeth, Othello, King Lear. Cada obra leva aproximadamente quinze dias, dependendo da sua familiaridade com o verso isabelino. A edição que eu recomendo é a Arden Shakespeare Third Series. O preço é alto, cerca de oitenta libras por volume, mas as notas são precisas e atuais. Existe a Folio Society também, com edições ilustradas, mas a qualidade da papelagem é boa enquanto a informação é escassa. Para estudantes, a no Penguin Classics pode bastar, mas o nível de detalhe é inferior. Um limite importante é que Shakespeare não escrevia para ser estudado, mas para ser representado. As obras são feitas para teatro, não para biblioteca. Se você lê em silêncio, perde metade das piadas e das referências performáticas. Gravar áudio ou assistir a uma encenação antes de cada ato economiza cerca de quarenta minutos de confusão. O tempo investido vale a pena.

Livro De Hamlet Hamlet (L&PM Pocket) William Shakespeare
Livro De Hamlet Hamlet (L&PM Pocket) William Shakespeare

Outra limitação real é que muitas edições modernas alteram o texto para torná-lo mais acessível. A no Folio Original é fiel, mas pode ser intimidante. A alternativa que eu uso é a no Complete Works da Norton, com texto em inglês moderno e notas breves. O resultado é um equilíbrio entre fidelidade e clareza.