Livros João Ubaldo Ribeiro
João Ubaldo Ribeiro: por onde começar se você nunca leu nada dele
A maioria das pessoas que chega no Ubaldo Ribeiro faz isso por acidente. Algum professor de literatura do ensino médio resolveu ler um trecho de Sargento Getúlio na aula e todo mundo acabou prestando atenção. Outros chegam depois de ouvir falar que ele era o tal que escreveu Vila dos Condes e ganhou Prêmio Jabuti. O problema é que o catálogo dele não é exatamente linear. Tem gente que começa por Morangos Mofados, que é mais curto, e acaba achando que aquele é o estilo dele. Não é. A coisa muda bastante. Vila dos Condes é o livro mais ambicioso que ele escreveu. São quase mil páginas divididas em quatro partes que acompanham uma família da Bahia desde o século XVIII até os anos 1970. A estrutura lembra um épica familiar, tipo o que fazem os europeus, mas com gente que fala de um jeito que só existe no Recôncavo Baiano. O que muita gente não diz é que o livro exige paciência. Os primeiros cento e cinquenta páginas são lentas. Tem muita informação sobre linhagens, nomes de santo, relações de parentesco que se perdem em três gerações. Eu perdi o fio da meada na segunda leitura porque não anotei os nomes. Na terceira vez, fiz uma árvore genealógica simples num caderno e começou a fazer sentido. Se você vai ler, anote os personagens principais à medida que aparecem. Não confie na memória. Sargento Getúlio é outro nível. É um romance policial disfarçado, narrado por um sertanejo que conta a história de seu irmão, um delegado que investiga desaparecimentos no sertão baiano. O narrador não é confiável. Ele omite coisas, exagera, inventa trechos que nunca aconteceram. Isso é proposital. Ubaldo Ribeiro constrói a narrativa de forma que o leitor vai percebendo as lacunas aos poucos. A linguagem é pesada, cheia de vícios da fala nordestina, e isso pode afastar quem não está acostumado. Eu tive que reler três parágrafos seguidos na primeira vez porque a sintaxe estava deliberadamente embaralhada, como se o narrador estivesse tentando se explicar e não conseguisse. Depois de acostumar com o ritmo, vira uma experiência estranhamente clara.
Morangos Mofados é a obra mais acessível. É um romance de formação ambientado na Bahia dos anos 1950, seguido a infância e adolescência de um menino que cresce num ambiente familiar conturbado. O tom é mais leve, mais humorado. Muitos leitores começam por aqui e ficam na expectativa errada quando vão para os livros maiores. O humor ali existe, mas é um humor amargo, não um entretenimento fácil. O final é aberto de um jeito que algumas pessoas não gostam. Eu entendia quando li pela primeira vez e achei que era inteligente. Na segunda vez, vinte anos depois, achei que poderia ter sido mais fechada. Depende do que você espera. Confissões de Mendigo idoso é um livro-pôster. São depoimentos fictícios de velhos contando histórias, com uma estrutura quase documental. O livro funciona bem em sessões curtas. Não é feito para ser lido de uma vez só. Eu já vi gente ler capítulo por capítulo em várias semanas e ter uma experiência muito diferente de quem devora tudo de uma vez. A diferença é que, lendo devagar, as repetições temáticas ficam mais evidentes: a ideia de que a velhice é um período de revelação, de que as pessoas contam versões diferentes dos mesmos eventos, de que a memória é um arquivo defeituoso. O que pouca gente leva em conta é a obra política e ensaística dele. Ubaldo Ribeiro foi um intelectual engajado, escreveu muito sobre cultura brasileira, política, identidade nacional. Textos como Nós que Aqui Estamos por Outros Esperamos e os coletâneas de crônicas mostram um lado dele que não aparece nos romances. Se você gosta da parte mais reflexiva dos livros dele, esses textos rendem bastante. São curtos, direto ao ponto, e muitas vezes engraçados de um jeito seco.
O maior obstáculo para ler Ubaldo Ribeiro hoje em dia não é a qualidade do texto. É o custo. As edições mais recentes de Vila dos Condes e Sargento Getúlio saem em média entre cinquenta e oitenta reais cada. Morangos Mofados tem edições mais baratas, algumas abaixo de trinta reais. Se o orçamento estiver apertado, comece por Morangos Mofados ou Confissões de Mendigo idoso, que são mais fáceis de encontrar usados em bom estado. A literatura de porvir é outra opção interessante se você quer algo mais político e menos ficcional. Um detalhe prático que muitos ignoram: as edições brasileiras têm notas de rodapé diferentes dependendo da editora. A primeira edição de Sargento Getúlio, pela Editora Record nos anos 1980, tem notas diferentes das edições mais recentes. As notas mais novas às vezes explicam referências culturais que o leitor de fora do Brasil não conhece. Se você é estrangeiro ou mora fora, vale procurar uma edição com notas extensas. Eu usei uma edição portuguesa que tinha comentários úteis sobre gírias e expressões regionais que eu não reconhecia. Fez diferença. Não existe um caminho certo para entrar na obra dele. Comece pelo que conseguir primeiro. Leia devagar. Anote nomes se precisar. E não espere que todos os livros tenham o mesmo tom. Cada um deles é uma experiência diferente, e isso é o que mantém a leitura viva mesmo depois de já ter terminado tudo.
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