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Machado De Assis Biografia

Machado De Assis Biografia

Biografia de Machado de Assis: o que você realmente precisa saber

O nome completo dele é João Lisbon de Machado de Assis. Nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, que na época era uma colina periférica e pobre da cidade. O pai era um pintor decorative chamado José Gonçalves Machado, um homem negro liberto. A mãe, Maria Leopoldina Augusta Gomes de Assis, era uma morena clara mestiça. O casamento foi arranjado pela família da mãe, que tinha mais recursos. José Gonçalves tinha problemas com álcool e abandonou a casa quando Machado tinha uns quatro anos. O menino cresceu praticamente sem figura paterna, criado pela mãe e pelo padrasto, Manuel Tomás de Assis, que era comerciante de bugigangas e não tinha condições de oferecer muito. A infância dele foi marcada por pobreza. Faltava comida na mesa, faltava roupa boa. Estudou em escolas públicas precárias, e a principal limitação era a falta de recursos para continuar os estudos formais. Mesmo assim, conseguiu aprender muito por conta própria. Leu bastante, copiava textos à mão para treinar a caligrafia e a linguagem. Trabalhava como tipógrafo noateliê de um impressor chamado Joaquim Manoel de Lima Coutinho, onde aprendeu ofício gráfico e teve acesso a livros. Foi ali que a leitura virou algo sistemático, não casual.

Como montar uma machado de assis biografia confiável

Se você precisa construir uma biografia séria sobre Machado de Assis, o primeiro problema que encontra é a quantidade absurda de fonte secundária duvidosa na internet. Há dezenas de sites que repetem informações uns dos outros sem verificar nada. O caminho mais seguro é começar pelas fontes primárias: os documentos da época, correspondências, recenseamentos, e os diários publicados pela Fundação Biblioteca Nacional. A edição crítica das obras de Machado, feita pela Fundação Nacional de Arte (Funarte) e depois pela Companhia das Letras, é a referência mais sólida que existe. Cada volume traz notas explicativas que desconstroem mitos que estavam enraizados. Eu já perdi tempo procurando datas de publicação de contos em sites que colocavam valores errados só para ter conteúdo. A solução que funcionou foi cruzar as datas com o Almanak Laemmert, que era uma espécie de guia anual do Rio de Janeiro da época. As edições de 1860 a 1880 têm registros precisos de quem publicou o quê e quando. Não confie em listas de obras que aparecem em sites genéricos. Use sempre a edição crítica ou, no mínimo, o Arquivo Machado de Assis, que é o portal da Biblioteca Nacional com documentos digitalizados e verificados. Outro ponto que muita gente ignora: Machado era mulato. Isso foi escondido ou minimizado por décadas pela crítica literária brasileira, especialmente durante o Estado Novo, quando se queria criar um herói nacional branco e aristocrático. Ele próprio lidou com isso de forma interessante. Em seus cadernos de anotações, ele fazia autocríticas precisas sobre sua origem e sobre como a sociedade o via. A biografia dele só ganhou tratamento honesto a partir dos anos 1970, com trabalhos de researchers como Alziro Zarur e, mais tarde, Raimundo Naressi e Carlos Novais. Antes disso, havia uma tendência a romantizar a trajetória dele como se tivesse nascido privilegiado.

Dos fatos concretos da vida dele, os mais relevantes para entender a obra são poucos. O tétano que matou a mãe quando ele tinha quatorze anos. A surda que herdou. A cegueira progressiva que começou nos anos 1880 e o obrigou a viver isolado nos últimos anos. O casamento com Constantina Vitalina Bruno em 1869, uma mulher branca e rica, viúva com duas crianças. Esse casamento foi estratégico e real ao mesmo tempo. Machado nunca teve filhos biológicos, mas criou os filhos da esposa. A relação com Constantina foi pacífica, sem escândalos conhecidos, mas também não houve grande paixão documentada. Ela morreu em 1903, e ele nunca mais se casou. O reconhecimento público veio tarde. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1897, com cadeira de número 12, e tornou-se presidente dela por vários anos. Mas a fama como grande escritor só se consolidou plenamente após sua morte, em 29 de setembro de 1908, no Flamengo, onde morava. A causa foi câncer de pulmão, provavelmente ligado ao hábito de fumar demais, algo que ele praticava desde jovem e que piorou com os anos. Há um equívoco comum sobre a formação dele. As pessoas dizem que ele foi autodidata e pronto, como se isso fosse simples. Não era. O autodidatismo dele era extremamente disciplinado. Ele tinha uma rotina de leitura e escrita que parecia de acadêmico profissional. Leria clássicos franceses no original, traduções de obras alemãs e inglesas, e acompanharía as revistas literárias europeias para saber o que estava sendo publicado. A base cultural dele era europeia, não brasileira. Isso explica muitos traços da prosa dele: o tom clássico, a referência constante à Antiguidade, a influência de La Rochefoucauld, Montaigne e Laurence Sterne.

Biografia de Machado de Assis - eBiografia
Biografia de Machado de Assis - eBiografia

Um detalhe que quase ninguém considera é a saúde precária. Ele sofreu de várias doenças ao longo da vida. Havia crises de saúde que o deixavam semanas sem trabalhar. Os médicos da época não conseguiam diagnosticar direito. Hoje, historiadores da medicina especulam que poderia ser alguma condição neurodegenerativa, mas não há consenso. O que se sabe é que a dor crônica e o desconforto físico influenciavam o humor dos textos. Os romances da segunda fase, especialmente Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, e Quincas Borba, de 1887, têm um tom cínico e desencantado que reflete, em parte, o desgaste físico e emocional dele. Para quem quer aprofundar, os dois livros essenciais são Machado de Assis: Biografia, de José Murilo de Carvalho, e A Construção do Machado, de João Cezada Castro Souza. O primeiro é mais acessível, o segundo é mais técnico. Há também o arquivo digital completo na plataforma da Biblioteca Nacional, com cartas, manuscritos e recortes de jornal. A qualidade da digitalização é boa, mas a navegação é ruim. Recomendo usar o sistema de busca por data e palavra-chave em vez de navegar por pastas, que é confuso. A obra literária dele é extensa. Seis romances principais, coletâneas de contos, poesia em diversos volumes, peças de teatro e crônicas jornalísticas. Os contos são particularmente importantes porque ele foi um dos primeiros a tratar o gênero como forma literária séria no Brasil. A Panfletica, A Máquina de Honra, Várias Histórias e Outras Histórias são os livros de conto mais conhecidos. Neles, ele experimenta estruturas narrativas que seriam incomuns na literatura brasileira da época, com narradores não confiáveis, final abiertos e ironia refinada.

Não existe uma única biografia definitiva. Cada uma tem viés. Algumas enfatizam demais o aspecto político, outras o aspecto literário, outras a vida privada. O recomendável é ler pelo menos duas abordagens diferentes e comparar. A desconfiança saudável em relação a qualquer versão única é o que produz uma compreensão mais honesta. Machado de Assis foi um homem complexo, e reduzir a vida dele a uma narrativa linear é perder parte do que a torna relevante.