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Machado De Assis Ressurreição

Machado De Assis Ressurreição

O que é Ressurreição de Machado de Assis

Ressurreição é um romance de 1872, obra de estreia de Machado de Assis, escrita quando ele ainda tinha 23 anos. Não confunda com textos religiosos ou com obras sobre o tema da ressurreição cristã — este é um romance romântico-melancólico sobre ciúmes, órfãos e uma moça que parece ter morrido. O protagonista é João Borges, um jovem advogado que se apaixona por Virgília, uma raposa do bem que, para o personagem, está quase morta espiritualmente por ter traído sua confiança. O livro tem estrutura tradicional do romantismo brasileiro: órfãos que se amam, separação por engano, morte, retorno. Mas mesmo nessa fase inicial, já dá para perceber os traços que fariam de Machado o maior escritor brasileiro. A prosa é mais direta, mais sentimental do que nos livros maduros, mas há passagens de observação psicológica fina que surpreendem.

por dentro de machado de assis ressurreição

Li Ressurreição pela primeira vez em uma edição da Editora José Olympio dos anos 1970, capa dura, papel amarelado. Achei na época um romance qualquer, bom para o início de carreira mas sem a sutileza dos livros posteriores. Voltei a ele vinte anos depois, numa livraria de São Paulo, e percebi coisas que não tinham me chamado atenção. Por exemplo: o narrador não é confiável. Não no sentido moderno do termo, mas de um jeito muito machadiano. Ele julga Virgília com uma severidade que, relendo, parece mais projeção do próprio João Borges do que análise objetiva. Isso é interessante porque mostra como Machado já manipulava a distância entre narrador e verdade da história, mesmo num romance ainda preso às convenções do gênero. Outro detalhe que muita gente perde: a cena em que a protagonista "ressuscita" — ou seja, retorna viva após ser dada como morta — é tratada com ceticismo pelo narrador. Não há êxtase religioso, não há milagre. Há apenas o alívio dos personagens e, talvez, uma crítica disfarçada à forma como a sociedade da época encarnava mulheres que escapavam do destino trágico esperado. Virgília sobrevive, mas a reputação dela já estava manchada antes mesmo do retorno. Isso é um ponto que estudiosos como Alfredo Bosi e Luiz Costa Lima destacam nas análises mais recentes.

Contexto e recepção

Ressurreição foi publicado em fevereiro de 1872, pela Typografia Nacional. Recebeu críticas mistas. Alguns elogiaram a língua, outros acharam o enredo previsível. Machado estava construindo fama na época como cronista e poeta, e este romance era uma tentativa de consolidar seu nome também na ficção. O resultado não foi o melhor dele, mas foi suficiente para manter a carreira. Nos anos seguintes, publicaria Helena (1876), Ioiô Grande (na verdade de Graciliano Ramos, engano comum), e aí sim Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), onde encontraria sua voz definitiva. Hoje, Ressurreição é frequentemente colocado como obra menor no cânone machadiano. Isso é, em parte, justo. Mas há uma injustiça silenciosa nessa hierarquização: ao tratar o romance como mero produto juvenil, perde-se a oportunidade de ver como Machado testava ideias que só amadureceriam décadas depois. A obsessão pelo ciúme, a desconfiança em relação às aparências, a ironia fina — tudo isso está presente, ainda que de forma menos controlada.

Ressurreição PDF Machado de Assis
Ressurreição PDF Machado de Assis

Como encontrar e ler

O livro está disponível gratuitamente no domínio público. O Project Gutenberg (gutenberg.org) tem uma versão em português completa e revisada. A Biblioteca Digital Curt Nimuendajú também disponibiliza scan da edição original de 1872, útil para quem quer ver a diagramação e as marcas da época. Para leitura acadêmica, a edição da Editora Civilização Brasileira, com notas de Julio Guarany, é a mais citada em trabalhos universitários. Se você quer uma edição comentada mais acessível, a Editora Penguin-Companhia tem uma versão com introdução de Lilia Schwarcz que contextualiza bem a obra dentro da produção machadiana. Custa cerca de R$ 25,00 em livrarias online.

Por que ler hoje

Não leio Ressurreição para recomendar como a melhor obra de Machado. Recomendo para quem já leu os livros maduros e quer entender a evolução do autor. Ou para estudantes de letras que precisam analisar como o romantismo brasileiro foi sendo corroído por uma ironia nascente. E também para leitores curiosos que gostam de ver artistas em formação — igual a qualquer outro ofício, Machado precisou escrever alguns livros medianos antes de chegar onde chegou. O que mais impressiona, sinceramente, é a rapidez com que ele supera as limitações do romance romântico de segunda linha. Há passagens, sobretudo no final, em que a narrativa se afasta do melodrama e ganha um tom mais contido, mais reflexivo. Dá para sentir o autor amadurecendo entre linhas. Se você tiver paciência para o começo lento, o meio vale a pena. O final, bem, depende do que você espera de um romance de 1872.