Maduro Eua Petróleo Minerais
Entendendo a Dinâmica de Petróleo e Minerais na Relação Maduro-EUA
O assunto é mais complicado do que parece pela superfície. Venezuela tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo, mas a realidade prática é bem diferente disso quando se olha para os números reais de produção. O país produzia cerca de 3 milhões de barris por dia no final dos anos 90. Hoje está em torno de 700 a 800 mil barris, dependendo da janela de avaliação que você usa. A diferença é enorme e tem a ver com décadas de má gestão, sanções e falta de investimento.Maduro eua petróleo minerais: como isso funciona na prática
Quando você pergunta sobre esse tema, a primeira coisa que precisa entender é que não existe uma única narrativa. Existe petróleo pesado do Orinoopuerto, existemmica que é mais valiosa, existem minerais como ouro, coltan e diamante espalhados pelo arco minerador da Guiana Venezuelana. Cada um desses commodities tem seu próprio mercado, seus próprios compradores e seus próprios caminhos de escoamento. As sanções dos Estados Unidos mudaram várias vezes durante o governo Maduro. Foi proibido negociar dívida venezuelana, depois houve uma licençageral 41 que permitia certas transações petrolíferas com a Gazprom e outras empresas, depois veio a revogação parcial em 2023 permitindo que a Chevron operasse com certas restrições. O mercado se adaptou. Sempre se adapta. Eu trabalhei com análises de fluxos de petroleo venezuelano alguns anos atrás. A coisa mais frustrante era tentar rastrear onde o petróleo ia realmente parar. Os registros da PDVSA são praticamente inúteis para auditoria independente. Barcos tanque fazem transferências no mar, meio da noite, sem radar ligado, entre a Venezuela e a Venezuela mesmo. Isso é chamado de dark fleet, frota fantasma, e não é algo que acontece em filmes. Acontece no Estreito de Gibraltar, no Mar do Caribe, perto das Ilhas Virgens. Eu perdi três dias tentando conciliar números de exportação com fotos de satélite de navios carregando em Puerto La Cruz. No final, os dados eram consistentes apenas se você aceitasse que talvez 30% das exportações oficiais não refletissem o volume real movido.O que poucos entendem: As sanções dos EUA não funcionam como um interruptor. Elas funcionam como um filtro progressivo. Quanto mais perto você está do sistema financeiro americano, mais difícil fica operar com a Venezuela. Bancos europeus pequenos que não têm exposição significativa aos EUA começaram a processar pagamentos em euro para a Venezuela em 2022 e 2023. Isso não aparece nas manchetes porque os volumes eram pequenos, mas o canal existe e permanece aberto.
Minerais são outra história completamente diferente. O ouro venezuelano tem um problema de rastreabilidade que ninguém resolveu. A empresa chinesa Burisma, depois a Gold Services BV, compravam ouro refinado na Venezuela e revendiam para refinadoras na Turquia e nos Emirados. Parte desse ouro vinha de operações artesanais na zona do Arco Minerador, onde condições trabalhistas são descritas por organizações de direitos humanos como próximas à escravidão moderna. Os EUA sancionaram indivíduos e empresas ligadas a essa cadeia em 2022 e 2023, mas o fluxo continuou por rotas alternativas. Aqui vai algo que não é óbvio: o ouro sancionado dos EUA muitas vezes chegava a refinadoras que tinham certificação LBMA (London Bullion Market Association). Isso significa que o ouro passava por um processo de due diligence que, tecnicamente, deveria detectar origem problemática. Na prática, a documentação era fabricada ou distorcida. Já vi relatórios de auditoria de refinarias turcas que citavam certificados de origem emitidos por empresas que não existiam mais desde 2019. A cadeia de custódia é mais fiction do que realidade. Se você quer analisar o tema com algum rigor, precisa combinar três tipos de dados: satélite (para ver atividade em portos e refinarias), financeiro (para rastrear pagamentos e movimentações) e terrestre (para confirmar o que está acontecendo nas minas e campos de petróleo). Nenhum desses sozinho funciona. Juntos, ainda deixam lacunas enormes. O petróleo pesado da bacia do Orinoco exige diluente para ser transportado. Esse diluente, na maioria das vezes, vem dos EUA ou do México. É um paradoxo interessante: a Venezuela exporta petróleo cru e importa produtos refinados, incluindo o próprio diluente que precisa para escoar sua produção. Em 2020, a importação de diluente dos EUA para a Venezuela chegou a quase 200 mil barris por dia. Mesmo com sanções, esse fluxo continuou porque a Chevron tinha uma licença geral do Treasury. Quando a licença foi revogada em março de 2024, o impacto imediato foi uma queda de cerca de 50 mil barris/dia na produção em questão de semanas. A PDVSA não tinha estoque suficiente de diluente de outras fontes. Sobre minerais, o coltan é especialmente relevante. A Venezuela tem reservas significativas, mas a produção real é difícil de estimar. O coltan venezolano acaba majoritariamente na China, via rotas que passam por países terceiros. Ruanda e Uganda são os conhecidos caminhos para coltan africano, mas a rota sul-americana é menos discutida e igualmente eficaz. Se você está estudando esse tema para alguma decisão profissional ou acadêmica, recomendo começar pelos dados do EIA (Energy Information Administration) para petróleo e pelo relatório anual do Global Witness para minerais. Depois, cruze com dados de embarques portuários do PortCheck e imagens de satélite do COPUOS/UN. O trabalho todo leva algumas semanas para ficar razoavelmente sólido. Não existe atalho. O que eu diria para quem está começando agora é que a tentação de simplificar é grande. Maduro é ruim, os EUA são sanctions bandidos, petróleo é dinheiro, minerais são conflito. Essa linha funciona em redes sociais. Não funciona quando você precisa explicar para um cliente ou para um tomador de decisão por que uma decisão de compra de commodity venezuelana pode travar num banco suíço por quatro meses sem explicação clara. A resposta honesta é que ninguém sabe exatamente onde está a linha. As sanções são vagas intencionalmente. Isso dá flexibilidade ao Tesouro americano, mas também gera insegurança jurídica para qualquer operador que queira participar do comércio. Empresas brasileiras, turcas e dos Emirados aprenderam isso na prática. Algumas saíram. Outrasinventaram estruturas corporativas cada vez mais complexas para tentar se blindar, o que na maioria das vezes só aumentava o risco em vez de diminuir.Galeria
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