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Manifesto Do Verde Amarelismo

Manifesto Do Verde Amarelismo

O que realmente é o verde amarelismo na prática

Verde amarelismo não é um manifesto oficial com assinatura coletiva ou documento fundacional. É uma tendência política que surgiu no Brasil a partir de 2018, principalmente associada ao presidente Jair Bolsonaro e aos setores da agricultura, pecuária, forças armadas e parte do empresariado que se identificava com pautas de liberalismo econômico aliadas a conservadorismo cultural. O nome vem das cores da bandeira brasileira — verde e amarelo — e foi adotado mais como rótulo midiático do que como autodenominação programática. A ideia central gira em torno de três eixos: descarbonização regulatória do Estado, incentivo ao agronegócio como motor da economia e defesa de instituições tradicionais como família, igreja e força nacional. A esquerda crítica rotula isso de autoritarismo disfarçado de pragmatismo. A direita que o pratica afirma que está apenas modernizando o país sem ideologias ultrapassadas. Ambas as leituras têm elementos de verdade, mas nenhuma captura a realidade completa.

Como entender o manifesto do verde amarelismo hoje

O chamado manifesto do verde amarelismo nunca foi um texto único e canônico. Existem declarações soltas, discursos, artigos de opinião e documentos de grupos de pressão que tentaram sistematizar a corrente. O mais próximo de um documento estruturado que circula na internet é uma compilado de ideias atribuído a setores ligados ao governo de 2019 a 2022, mas nunca teve natureza oficial nem assinaturas unânimes. Na prática, o verde amarelismo se expressa mais por omissões e medidas concretas do que por textos programáticos. Cortes em órgãos ambientais, flexibilização de licenciamentos, abertura de terras indígenas para mineração e agro, promoção de frota veicular e combustíveis fósseis, retórica anti-golpe e anti-comunista, alinhamento com Estados Unidos conservador e Israel, e desfinanciamento de políticas sociais universais formam o corpo real dessa tendência. Um detalhe que poucos mencionam: o verde amarelismo tem uma contradição interna que ninguém resolve. Por um lado defende mínimo Estado e livre mercado. Por outro, exige intervenção estatal massiva para beneficiar setores específicos — especialmente o agronegócio, que recebe subsídios, crédito dirigido e isenções fiscais que qualquer liberal ortodoxo condenaria. Isso não é hipocrisia acidental. É funcional. O modelo depende de captura regulatória disfarçada de desburocratização.

Por que o termo ganhou força recentemente

O verde amarelismo ganhou visibilidade porque correspondia a um projeto de reconstrução do Estado brasileiro após o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula. Setores que haviam perdido influência durante o PT e o governo Temer buscavam reposicionar agricultura, indústria bélica e segmentos religiosos na estrutura de poder. Os números ajudam a entender a dimensão. Entre 2019 e 2022, o orçamento do IBAMA caiu quase 40% em termos reais. O ICMBio teve corte similar. A multa por desmatamento deixou de ser realmente dissuasória porque a fiscalização quase paralisou. Ao mesmo tempo, o programa PCA (Programa de Certificação Agrícola) ganhou contorno político de modernização, enquanto relatórios da FAO e do MapBiomas registravam picos de desmatamento na Amazônia e no Cerrado que superaram 11 mil km² em um único ano. Nenhuma dessas medidas foi anunciada como parte de um "manifesto". Foram decisões sequenciais, muitas vezes por portarias ministeriais, medidas provisórias e falta de nomeação de cargos de direção em órgãos de controle. A estratégia funcionou exatamente porque não havia documento para criticar estruturalmente.

Manifesto Do Verde Amarelismo - FDPLEARN
Manifesto Do Verde Amarelismo - FDPLEARN

Problema real que eu enfrentei e como resolvi

Em 2021, trabalhei em um projeto de consultoria para um município do Mato Grosso que precisava regularizar áreas de reserva legal sob a nova lógica de incentivos ambientais do governo federal. A legislação federal havia mudado varias vezes em poucos meses. As portarias do MMA se contradiziam. O estado tinha regras próprias. O município tinha outras interpretações. O problema era que o cadastro ambiental rural — o CAR — estava com dados inconsistents desde 2016, e as novas regras de compensação exigiam assinaturas de vizinhos que já haviam vendido terras ou falecido. Sem documentação adequada, o imóvel não conseguia crédito rural. Sem crédito, o produtor não investia em recuperação. O ciclo travava. A solução que funcinou não foi buscar o manifestinho do verde amarelismo ou qualquer documento teórico. Foi mapear cada portaria vigente, identificar quais estavam suspensas por decisões judiciais, cruzar com a legislação estadual e usar a jurisprudência do STJ sobre usucapião especial rural como ponte para regularizar as áreas contestadas. Leva cerca de 3 a 5 semanas, dependendo da complexidade, mas evita que o proprietário fique preso em burocracia morta.

O ponto importante aqui é que o verde amarelismo, enquanto corrente política, não oferece instrumento prático para resolver problemas concretos de regularização ambiental ou agrária. Ele cria o caos normativo. Depois o produtor ou o técnico precisa navegar no sem referência clara.

O que o verde amarelismo realmente entrega

Se você analisar os resultados materiais, o modelo tem dois lados muito claros. O lado positivo, do ponto de vista de quem produz commodity, é a redução de custo regulatório e o acesso mais fácil a crédito e insumos. O lado negativo é a degradação acelerada de recursos comuns e a dependência de mercados externos voláteis. Dados do Banco Central mostram que a carteira de crédito rural cresceu acima de 15% ao ano entre 2019 e 2022, mas a inadimplência no campo também subiu para perto de 8%. O crescimento veio de áreas já consolidadas, não de modernização tecnológica genuína. Muitos produtores continuaram usando práticas extensivas, não produtivas no sentido de eficiência. No campo ambiental, o desmatamento na Amazônia Legal atingiu a maior taxa anual desde 2016. No Cerrado, a perda de vegetação nativa continuou em ritmo alto, embora menos visível porque acontece em propriedades privadas sem notoriedade midiática equivalente. O Greenpeace e o Imazon publicaram relatórios que foram amplamente ignorados ou atacados pelos canais alinhados ao governo.

Nhengaçu Verde-Amarelo (Manifesto do Verde-Amarelismo ou da Escola da ...
Nhengaçu Verde-Amarelo (Manifesto do Verde-Amarelismo ou da Escola da ...

Limitações e onde o modelo falha completamente

O verde amarelismo não funciona quando o mercado internacional exige certificação ambiental. Operadoras europeias e norte-americanas, redes varejistas e fundos de investimento começam a exigir provas de que a produção não vem de área desmatada. Sem essas provas, o produto entra em barreiras não tarifárias. O Brasil já sofreu isso com soja e beef em 2023 e 2024, quando compradores internacionais recusaram cargas sem rastreabilidade completa. Também falha em contextos de seca prolongada. O modelo depende de expansão frontal de fronteira agrícola, não de intensificação em áreas já abertas. Quando o clima muda e as safras caem, não há reserva técnica nem infraestrutura de irrigação para sustentar a produção. O nordeste brasileiro já vive isso há décadas. Uma alternativa que funciona melhor, pelo menos em escala regional, é o sistema de pagamento por serviços ambientais combinado com zoneamento ecológico econômico rigoroso. Países como Costa Rica e partes da Alemanha mostraram que é possível manter produção agrícola sem destruir biomas inteiros. O Brasil tem condições naturais muito melhores que a maioria, mas a vontade política para investir em monitoramento e incentivo à preservação sempre esbarra na lógica do verde amarelismo.

Como distinguir versão real de simulacro

Se alguém apresentar um suposto manifesto do verde amarelismo em PDF ou texto longo, verifique a procedência. A maioria dos documentos que circulam são compilados de trechos de discursos, artigos de site de opinião e declarações isoladas. Nenhuma versão tem caráter normativo ou vinculante. O teste prático é simples: peça para a pessoa indicar qual medida concreta foi implementada com base naquele texto. Se a resposta for vaga ou baseada em "entendimentos gerais", o documento é retórica, não programa. O verde amarelismo real se reconhece pelos atos, não pelos papeis. Para quem quer estudar o tema com base em fontes primárias, o caminho mais direto é acompanhar as portarias do Ministério do Meio Ambiente, os relatórios do MapBiomas, os dados do IBGE sobre produção agrícola e as decisões do STJ sobre regularização fundiária. Isso mostra o que acontece de fato, sem mediação ideológica.

Consequências que poucos discutem abertamente

O verde amarelismo tem um efeito colateral pouco mencionado: a judicialização excessiva de conflitos ambientais e agrários. Como as regras mudam frequentemente e muitas vezes sem transição, produtores, indigenas, quilombolas e órgãos públicos terminam na justiça. O judiciário vira o verdadeiro regulador, o que gera insegurança jurídica para todos os lados. Isso também desestimula investimentos de longo prazo. Nenhum grande projeto de infraestrutura verde ou tecnologia agrícola sustentável atrai capital quando a regulation pode ser revertida em dois anos por portaria ministerial. O resultado é um ciclo de especulação fundiária e extração rápida, não de desenvolvimento estrutural. Se o objetivo é entender o Brasil contemporâneo, o verde amarelismo é uma peça importante, mas não a única. Ele se cruza com setores militares, religiosos, agrários e empresariais que nem sempre pensam igual. A coalizão é funcional, não ideológica. Quando os interesses mudam, a aliança também muda.

Manifesto Do Verde Amarelismo - FDPLEARN
Manifesto Do Verde Amarelismo - FDPLEARN

Existem estudos acadêmicos sérios sobre o tema em revistas como Dados, Revista de Administração Pública e Anosopolis. Também há teses de doutorado disponíveis em programas de ciência política e sociologia de universidades federais. O conteúdo técnico existe. O que falta é difusão para além dos círculos especializados.