Medica Geriatra O Que Faz
O que na prática é um geriatra
Muita gente acha que geriatra é clínico geral que atende idoso. Não é bem isso. O geriatra tem formação específica em geriatria, que é a especialidade que lida com as particularidades do envelhecimento: polifarmácia, síndromes geriátricas, fragilidade, perda de autonomia. O certificado de título vem do colégio de geriatria e gerontologia social, e o registro no CRM precisa ter essa qualificação. Sem isso, é só um clínico geral mesmo. O trabalho do dia a dia é muito diferente da rotina de consultório comum. Você não consulta o órgão doente, consulta a pessoa idosa como um todo. A abordagem precisa considerar múltiplas comorbidades, funções cognitivas, mobilidade, estado nutricional, suporte familiar e capacidade funcional. A consulta pode durar entre quarenta minutos e uma hora porque senão fica incompleto. E isso nem conta os plantões em UTI geriátrica ou a coordenação de equipes multiprofissionais em hospitais.
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Eu já tive um caso que não sai da cabeça. Idosa de oitenta e dois anos, internada com sepse urinária, em uso de cinco antibióticos diferentes porque cada especialista ia adding algo novo sem revisar o que já estava sendo dado. A coisa mais urgente não era o antibiótico em si, era o caos farmacoterapêutico. Eu fiz revisão completa da medicação, parei o que não tinha indicação clara, ajustei doses para função renal deteriorada e ainda identifiquei que ela tinha síndrome de imobilização instalada. A internação que deveria durar cinco dias virou doze porque ninguém tinha parado para avaliar a mobilização e a nutrição. Desde aí, toda vez que vejo uma prescrição bagunçada nesses pacientes, eu trato primeiro a desorganização terapêutica antes de qualquer outra coisa. O problema não é falta de remédio bom. É excesso de remédio errado sendo dado ao mesmo tempo. Outro ponto que os iniciantes normalmente não enxergam: a relação entre queda e medicação. Quase todo idoso que cai está tomando pelo menos um fármaco com efeito sedativo, hipotensor ou anticolinérgico que piora o risco. Betabloqueadores, benzodiazepínicos, antidepressivos tricíclicos, antipsicóticos, diuréticos em dose alta. Identificar o culpado e reduzir a dose ou substituir costuma ser mais eficaz do que colocar barra nas escadas da casa. A geriatria também lida com situações que a medicina convencional trata mal, ou simplesmente ignora. Demência com alterações comportamentais não responde bem aos tratamentos padrão e precisa de manejo ambiental e farmacológico diferenciado. Caquexia do idoso não melhora com dieta restritiva. Incontinência urinária de esforço muitas vezes resolve com fisioterapia pélvica antes de qualquer cirurgia. A abordagem é diferente porque o envelhecimento muda a fisiologia inteira.
Tem limitação séria que precisa ser dita. A geriatria exige tempo e isso não existe na maioria dos serviços públicos e nem em muitas clínicas privadas que funcionam por volume. Consulta curta gera consulta rasa. Polifarmácia não se resolve em quinze minutos. E a cobrança por procedimento em vez de tempo técnico faz com que muitos geriatras abandonem a prática clínica pura e vão para laudos ou consultório apenas particular. Se você está procurando atendimento para um idoso complexo, consulte o geriatra antes de entrar em crise. Quando o paciente já está no hospital com dez problemas simultâneos, a janela de intervenção precoce já passou. No Brasil, a rede de geriatria ainda é bastante concentrada nas grandes capitais e no sistema privado. O SUS tem serviços especializados em alguns municípios, mas a oferta é irregular. Existem diretrizes do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia que ajudam na padronização do cuidado, mas a implementação varia muito de lugar para lugar. O que eu diria para quem está começando a lidar com isso na prática: aprenda a fazer avaliação geriátrica completa antes de tudo. Fragilidade, cognição, humor, nutrição, mobilidade, polifarmácia, suporte social. Anota tudo. Na hora de decidir tratamento, comece sempre pelo que ameaça mais a autonomia. Um paciente que perde a capacidade de caminhar sozinho ou de tomar remédios por conta própria está muito mais vulnerável do que alguém com glicemia descontrolada mas funcionando bem no dia a dia. A priorização é o que separa um bom manejo geriátrico de um manejo qualquer.

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