Melhor Whisky Do Brasil
O cenário de whisky artesanal brasileiro ainda é pequeno, mas a qualidade subiu muito nos últimos anos
Eu moro no Rio Grande do Sul, não longe das principais destilarias artesanais do estado. Passei os últimos cinco anos provando coisa por coisa, escrevendo anotações, e falando com os donos das destilarias. Vou ser direto: o mercado brasileiro de whisky ainda tem problemas sérios, mas algumas casas estão fazendo algo que vale a pena beber. A primeira coisa que todo mundo faz errado é comparar whisky brasileiro com escocês ou irlandês. O clima aqui é completamente diferente. Na Serra Gaúcha, a temperatura média anual é cerca de 5 a 8 graus mais alta do que na Escócia, e a variação térmica entre estações é mais intensa. Isso significa que o whisky aqui envelhece de forma diferente. A extração de compostos do carvalho acontece mais rápido. O "anjo's share" (aquele percentual que evapora durante o envelhecimento) pode chegar a 8% ao ano em vez dos 2% tradicionais escoceses. Um whisky de 7 anos no RS pode ter um perfil de amadurecimento equivalente a 10 ou 12 anos na Escócia. Isso gera dois problemas práticos. Primeiro, muitos produtores brasileiros usam barris de carvalho americano com tostagem pesada logo de cara, achando que precisam compensar a velocidade de envelhecimento. O resultado é um whisky que sabe demais a baunilha e caramelo, sem complexidade real. Segundo, os rótulos raramente informam a idade real ou o tempo de contato com o carvalho, o que torna quase impossível fazer uma avaliação honesta só pelo rótulo.
Minha regra prática é simples: procure destilarias que publicam dados técnicos completos. Idade, tipo de barril, capacidade do barril, percentual de alcoometria no enchimento. Se a destilaria não informa isso, provavelmente está escondendo algo ou não tem controle do processo.
Destilarias que valem a pena conhecer
Aqui vai uma lista baseada no que eu realmente bebi e achei competitivo, não no que touteeiros indicam: Amaro Destillery — Situada em Bento Gonçalves. Eles são pioneiros e têm linhas consistentes. O Amaro Reserva Especial é um ponto de entrada razoável. O problema é que eles produziram em escala industrial antes de dominar o processo artesanal de verdade, então algumas edições antigas são inconsistentes. As linhas mais recentes Melhoraram bastante. Cambujá Whisky — Do Espírito Santo, não do RS. Essa é uma exceção importante porque mostra que o clima quente do sudeste também produz resultados interessantes. O Cambujá 7 Anos é equilibrado e bem construído. A destilaria investe em pesquisa e publicam dados abertos sobre seus processos, o que é raro.

Garrancha — Uma destilaria menor, praticamente artesanal, que foca em edições limitadas. O whisky deles tem caráter próprio, mas a disponibilidade é restrita e os preços sobem rápido porque a produção é baixa. Vale a pena procurar se você encontrar. Serra Gaúcha Whisky Co. — Produzem whisky em pequena escala com atenção aos detalhes. O produto deles é mais próximo do perfil que você encontraria em single malts escocesos de entrada, mas com identidade própria. A disponibilidade também é limitada. Montese — Mais conhecida pelo rum, mas a linha de whisky deles evoluiu significativamente nos últimos três anos. O modelo de negócio é diferente, o que às vezes se reflete em consistência variável entre lotes.
O problema fiscal que ninguém resolveu
Vou falar do problema mais importante, porque ele define tudo. O Brasil tributa bebidas destiladas de forma absurda. O ICMS sobre whisky pode chegar a 17% em alguns estados, e por cima tem IPI, PIS/COFINS, e impostos municipais. O resultado é que um whisky brasileiro artesanal de qualidade, que custaria talvez 120 reais em custos de produção e embalagem, acaba sendo vendido por 300 a 500 reais nas prateleiras. Um whisky importado similar tem custos logísticos e tarifários diferentes, mas muitas vezes sai mais barato por causa de economias de escala das grandes produtoras internacionais. Isso significa que o "melhor whisky do brasil" do ponto de vista qualitativo nem sempre é o mais acessível financeiramente. E muitos produtores menores simplesmente desistem porque não conseguem competir com a estrutura de distribuição das importadas.
Dica prática que todo mundo ignora
Quase ninguém fala disso, mas o tipo de barril usado para o envelhecimento final faz uma diferença enorme no resultado final do whisky brasileiro. A maioria dos produtores usa barris de bourbon americano (carvalho americano) porque é o padrão da indústria. Porém, carvalho brasileiro (como ipê ou jequitibá) em barris de segunda ou terceira utilização pode dar resultados surpreendentemente interessantes — menos doçura agressiva, mais taninos estruturados e notas especiadas. Eu encontrei um produtor na Serra Gaúcha que fez um experimento com barris de carvalho brasileiro tostados levemente e o resultado foi um whisky com perfil completamente distinto do que o mercado brasileiro está acostumado. O problema é que esse tipo de inovação é difícil de escalar e poucos produtores têm coragem de tentar. Se você quer encontrar o melhor whisky brasileiro, pare de olhar as prateleiras de mercado. Vá direto às destilarias. Prove o que está sendo engarrafado agora, não o que foi engarrafado há dois anos. Converse com os produ-tores. Peça para ver os barris. A informação que você vaiar lá vale mais do que qualquer avaliação online.

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