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Mervyn Peake Gormenghast

Mervyn Peake Gormenghast

Por que os livros de Gormenghast parecem impossíveis de organizar e como funcionam na prática

Os livros de mervyn peake gormenghast não seguem uma estrutura narrativa convencional. Você percebe isso nos primeiros cinquenta páginas, quando descobre que a cronologia é uma coisa que o autor trata com quase nenhuma consideração. Os acontecimentos se movem em espiral, não em linha reta. Isso significa que quem tenta resumir a trama ponto por ponto acaba se perdendo em detalhes de trajes, títulos e rituais que na verdade são irrelevantes para o que está acontecendo de verdade. O primeiro volume, titulado semplicemente "Gormenghast", introduz a família de Steerpike como uma ausência positiva. Ele não está no castelo desde o nascimento, mas a ausência dele é o que move toda a trama. Muitos leitores pulam essa observação porque acham que estão diante de um livro sobre herdeiros e successão. Na realidade, é um livro sobre burocracia, poder institucional e a forma como instituições se mantêm vivas mesmo quando todas as pessoas dentro delas estão mortas por dentro.

Entendendo mervyn peake gormenghast como experiência de leitura, não como enredo

O problema principal que encontro quando recomendo os livros é que as pessoas tentam acompanhá-los como se fossem romances tradicionais de fantasia. Elas esperam progresso, revelações, viradas de página com cliffhangers. Peake não entrega isso. Ele entrega camadas. Cada descrição de um corredor, cada menção a um prato servido no grande salão, cada ritual repetido — tudo isso é material narrativo. A diferença é que o material não está a serviço da trama. A trama está a serviço do material. Eu já tentei criar resumos dos livros para amigos. Não funcionou. A única coisa que funcionou foi ler juntos, parar depois de três capítulos e deixar o assunto morrer. Quando você volta dias depois, as impressões se reorganizam sozinhas. Isso não é um defeito do livro. É a forma como ele foi construído. Um detalhe que poucos notam: Peake escreve com uma economia de diálogos que é quase assustadora. As personagens falam pouco porque a linguagem nelas já está saturada de significado implícito. Quando Steerpike diz algo simples como "é hora", você precisa saber tudo o que aconteceu antes dele dizer isso para entender o peso real das palavras. Sem esse contexto, a cena parece seca. Com o contexto, ela é cortante.

O quarto livro da série, "Titus Groan", é onde a coisa fica mais complicada. A narração muda de perspectiva. O narrador onisciente, que nos dois primeiros livros parecia ser uma voz única e absoluta, começa a dividir espaço com vozes internas das personagens. Isso não é um recurso moderno de point of view. É algo mais antigo, mais próximo do teatro elisabetano do que do romance vitoriano. E funciona de forma estranha: às vezes a narrativa te dá acesso ao pensamento de uma personagem, às vezes te entrega uma cena completa sem nenhum acesso interno. A inconsistência é intencional. Existe um erro comum de quem está começando com a série. As pessoas acham que precisam ler tudo em ordem sequencial. Não é exatamente verdade. Os dois primeiros livros formam um todo coeso. "Gormenghast" e "House of Gormenghast" podem ser lidos em qualquer ordem relativa, desde que você esteja preparado para a mesma sensação de deslocamento. O terceiro, "Titus Groan", exige que você tenha internalizado as regras do castelo. O quarto, "Peake's Gormenghast", é onde tudo se desfaz. Você não consegue acessá-lo sem ter passado pelos anteriores, mas passar pelos anteriores sem ler os dois primeiros também cria buracos narrativos que não se preenchem depois. A série original tem quatro volumes. Peake planejou mais dois, mas nunca os escreveu. Os que existem foram completados por outros autores de formas variadamente aceptáveis. Eu li as continicações de outras mãos. Não recomendo. Elas têm o mesmo sabor que um restaurante que tenta replicar um prato famoso usando ingredientes diferentes. Funciona tecnicamente, mas algo fundamental foi perdido na tradução.

Gormenghast (1950) by Mervyn Peake - My Fukuoka University
Gormenghast (1950) by Mervyn Peake - My Fukuoka University

Outra coisa que as pessoas não percebem: os livros de mervyn peake gormenghast não são fantasia no sentido habitual. Não há magia ativa. Não há inimigos externos. O conflito é inteiramente interno ao sistema. Isso torna a leitura mais lenta, mas também mais densa. Cada gesto, cada silêncio, cada objeto descrito com detalhe excessivo carrega peso político. O castelo é uma metáfora para qualquer instituição humana que se perpetua através de rituais vazios. Se você vai ler, prepare-se para não entender muito no começo. A primeira metade do primeiro livro é intencionalmente opaca. As regras do castelo são apresentadas de forma fragmentada, e você tem que montá-las sozinho. Isso leva tempo. Depende da sua velocidade de leitura, mas geralmente leva entre seis e oito horas para o primeiro volume, considerando as pausas necessárias para processar o que leu. Não acelere. Peake não quer que você acelere. O castelo em si é uma personagem. Isso é clichê até de dizer, mas o diferencial aqui é que Peake descreve o castelo com a mesma atenção que descreve uma pessoa. Os corredores têm personalidades. Os quartos têm temperamentos. A arquitetura não é cenário. É agente. Se você está acostumado com descrições de ambientes que servem apenas para ambientação, vai levar um tempo para perceber que em Gormenghast o ambiente é o protagonista silencioso de cada cena.

Existe um problema prático com edições modernas. Muitas delas cortam notas de rodapé que Peake incluía originalmente. Essas notas não são acessórios. São explicações de termos, referências a rituais e costumes que aparecem nos livros mas nunca são explicados no texto principal. Sem as notas, partes significativas da construção do mundo ficam subentendidas e o leitor perde camadas inteiras de significado. Procure edições que mantenham as notas originais. A edição brasileira da editora Leya, por exemplo, mantém um sistema de notas completo. O que poucos entendem sobre Steerpike é que ele não é um antagonista tradicional. Ele é uma força natural dentro do sistema. O castelo o criou. Ele é o produto mais puro de Gormenghast: alguém que entende perfeitamente como as regras funcionam e usa esse conhecimento para subir na hierarquia. A tragédia não é que Steerpike destrói o castelo. A tragédia é que o castelo precisa dele para continuar existindo. Sem Steerpike, as instituições morrem de inanição. Com Steerpike, elas se corrompem. É um paradoxo que Peake explora durante toda a série sem jamais afirmar explicitamente. Se você estiver interessado em material complementar, a obra de Peake é maior que os seis livros de Gormenghast. Ele escreveu poesia, arte, ilustrações. O universo visual do castelo vem diretamente das suas pinturas. Ver as ilustrações originais ajuda muito a compreender a arquitetura descrita nos livros. A proporção dos corredores, a escuridão das escadarias, a forma como a luz entra pelas janelas altas — tudo isso está nas pinturas de forma mais clara do que no texto. Recomendo procurar uma antologia das ilustrações antes ou durante a leitura.

A série terminou de forma inconclusiva porque Peake morreu antes de terminar. Isso é factual. O que isso significa na prática é que o final que existe é um final que ele deixou em rascunho e que outros autores tentaram completar. Nenhum deles capturou o tom exato. Os livros posteriores soam diferentes, mais apressados, mais explícitos. A ambiguidade que caracterizava os volumes originais desaparece gradualmente. Se você parar de ler nos quatro livros originais, estará pareando com uma experiência mais coesa do que se continuar até o final da série expandida. Não há como resolver isso com truques de leitura. A obra de Peake funciona no seu próprio ritmo. O que funciona é aceitar que o castelo é o verdadeiro tema e que cada livro é uma exploração diferente da mesma ideia central: o que acontece quando uma instituição se torna maior do que as pessoas que a habitam. Responder a essa pergunta de forma direta seria traír o projeto inteiro. Por isso os livros não respondem. Eles circundam a pergunta.

Gormenghast: Mervyn Peake: 9780413523501: Amazon.com: Books
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