Milton Santos E A Globalização
Por que a gente ainda confunde a globalização com uma coisa boa
Passaram mais de duas décadas desde a morte de Milton Santos, mas é impressionante quantas pessoas ainda leem "globalização" como sinônimo de progresso uniforme ou integração natural. A primeira coisa que você precisa entender, antes de qualquer outra, é que Santos escreveu exatamente o oposto. Ele passou anos documentando como a globalização é, na prática, um mecanismo de segregação espacial. O espaço global não é o mesmo para todo mundo. Para uns, é fluído, conectável, cheio de oportunidades. Para a maioria esmagadora, continua sendo território — ou seja, chão, fronteiras, lei local, dificuldade de deslocamento. O conceito central aqui é a distinção entre território e espaço. O território é o que você herda, ocupa, pisa no dia a dia. O espaço, na visão santosiana, é o resultado da apropriação do território pela técnica e pela informação. Quando ele fala em globalização, não está falando de um vento que sopra igual em todos os lugares. Está falando de um sistema técnico-científico-informacional que se expande de forma seletiva, criando zonas de inclusão e zonas de exclusão dentro de um mesmo país, muitas vezes dentro de uma mesma cidade.
milton santos e a globalização: os conceitos que ninguém explica direito
Milton Santos formulou a ideia de que a globalização contemporânea se estrutura em torno de três elementos principais: o espaço global, o sistema técnico-científico-informacional e o território como base material. O sistema técnico-científico-informacional é o que ele chama de "topos" — uma rede de conhecimentos, tecnologias e fluxos que opera em escala planetária e é controlada por atores concentrados em metrópoles globais como Nova York, Londres e Tóquio. Esse topos não está disponível para todos. Ele exige capital, educação, acesso digital, conexão física. O território, por sua vez, continua existindo. Muito obrigado. Você mora num lugar com regras específicas, infraestrutura específica, história específica. A globalização não dissolve o território. Ela se sobrepõe a ele de forma desigual. Isso quer dizer que, quando você analisa qualquer fenômeno global — migração, fluxo de capitais, disseminação cultural, plataforma digital — o território onde ele se concretiza vai determinar quem ganha e quem perde. Não existe globalização pura. Existe globalização territorialisada. Uma coisa que muita gente erra é achar que Santos via a globalização apenas como dominação neocolonial. Não era só isso. Ele também reconhecia que a globalização cria possibilidades, que existem resistências, que o território pode ser apropriado de formas criativas pelas populações locais. O problema é que essas possibilidades são desigualmente distribuídas. E ele deixava isso bem claro quando escrevia sobre o processo de internacionalização do trabalho e como ele transforma a organização do espaço nos países periféricos.
Como aplicar esse olhar na prática
Se você está tentando usar o arcabouço de Milton Santos para analisar algo concreto — um projeto de urbanismo, uma política pública, um fluxo migratório, a instalação de uma empresa multinacional num bairro periférico — o erro mais comum é começar pela descrição dos fluxos globais e terminar no território como coadjuvante. O caminho certo, o que ele propunha, é o inverso. Comece pelo território. Entenda quem o ocupa, como se organiza, quais são suas regras de uso, quem tem acesso a quê. Só então observe onde e como os fluxos globais se inscrevem nesse território e com que intensidade. Eu já vi pesquisadores universitários fazerem exatamente o contrário. Li artigo sobre a expansão de centros logísticos no interior de São Paulo que dedicava nove páginas para falar de cadeias globais de suprimentos e meia coluna para mencionar os bairros onde os caminhões circulavam. Era como se o território fosse apenas um palco invisível. Quando você inverte essa lógica — coloca o território no centro — as coisas começam a fazer sentido. A logística global não cai do céu. Ela encontra estradas existentes, terras valorizadas, populações que precisam trabalhar naquelas condições, legislação municipal que permite ou proíbe. Tudo isso é determinante. Um exemplo prático que eu tenho em mente: analisar a instalação de um data center numa região semiurbana. A leitura convencional seria focar na conectividade global, nos cabos submarinos, na demanda por nuvem. A leitura santosiana começa perguntando quem decidiu instalar ali, quem comprou a terra, qual o impacto no uso do solo local, se há comunidade próxima, se o saneamento aguenta, se os trabalhadores que vão operar ali vêm de onde e com que deslocamento. O data center é, sim, um nó na rede global. Mas ele também é um edifício num lugar específico com consequências específicas.

O que a teoria não diz (e você precisa saber)
Um ponto que pouca gente menciona ao abordar milton santos e a globalização é a questão temporal. Santos não via a globalização como um evento abrupto. Ele a entendia como um processo de longa duração que se constrói sobre camadas históricas de organização territorial. O Brasil que ele analisou nos anos 1990 já carregava séculos de formação territorial — escravidão, latifúndio, industrialização por substituição de importações, urbanização acelerada. A globalização não apaga isso. Ela se apoia nessas estruturas pré-existentes para se materializar. Outro ponto cego: a obra de Santos foi muito citada, mas menos aplicada do que deveria. No Brasil, especialmente, continua sendo mais comum encontrar discussões sobre globalização nos moldes tradicionais — Flows, glocalização, redes — do que efetivamente trabalhar com a categoria de território como fundamento da análise. Isso gera uma espécie de globalização sem chão, que explica tudo e não explica nada. A crítica que faço, depois de revisar muita produção acadêmica e até planejamento governamental, é que a aplicação prática do método santosiano exige dados de base que raramente estão disponíveis: mapas detalhados de uso do solo, recenseamentos com variáveis socioespaciais, estudos de mobilidade. Tenho um caso específico que illustrate isso. Estava analisando a expansão de um e-commerce para o interior nordestino e precisei cruzar dados de cobertura de internet com densidade demográfica, renda média por setor censitário e disponibilidade de logística de entrega. Os dados de cobertura eram nacionais e muito genéricos. A solução foi usar camadas do IBGE no nível dos setores censitários, que atendem a uma granularidade de aproximadamente 30 a 80 domicílios por área, e cruzar com dados do Censo de 2022 sobre acesso a computadores e internet. O trabalho de preparação levou cerca de seis horas, mas o resultado foi bem mais preciso do que qualquer mapa macro de expansão logística. O problema é que grande parte das análises que circula por aí pula essa etapa e usa indicadores agregados por município, o que mascara diferenças internas enormes.
Limitações reais do enfoque
Eu não vou esconder os pontos fracos. O primeiro é que o enfoque de Milton Santos exige um trabalho empírico robusto. Se você não tem acesso a dados territoriais detalhados, a análise corre o risco de ficar no nível da afirmação geral. "A globalização atinge de forma desigual" é uma verdade bonita, mas não ajuda ninguém a tomar decisão. O segundo problema é que Santos escreveu bastante e de forma às vezes densa, o que dificulta a adaptação para análises aplicadas por quem não tem formação em geografia. O terceiro, e talvez o mais importante, é que seu arcabouço foi formulado num contexto em que a internet estava nos primeiros estágios de massificação. As plataformas digitais atuais, com algoritmos de recomendação e moderação automatizada, impõem dinâmicas que ele não pôde antecipar. Isso não invalida a teoria. Mas exige que você a combine com outras ferramentas quando necessário. Se o foco da sua análise é o comportamento do usuário em plataformas digitais, por exemplo, o conceito de território santosiano é essencial para entender onde o usuário está inserido materialmente, mas insuficiente para explicar os mecanismos de recomendação e engajamento. Nesse caso, o enfoque ganha mais força quando articulativo com teorias de mídia e tecnologia.
um guia rápido de como começar uma análise com base em santos
Se você quer aplicar de verdade, comece por quatro perguntas. A primeira é: qual é o território em análise e quais são seus limites materiais e simbólicos? A segunda: quais atores globais estão presentes nesse território e de que forma? A terceira: quais foram as decisões políticas e econômicas que permitiram essa presença? A quarta: quem ganha e quem perde com essa configuração no dia a dia das pessoas que vivem ali. Depois disso, o trabalho de campo importa. Entrevista moradores, observe a circulação, meça tempos de deslocamento. Dados secundários ajudão, mas a presença física no território revela coisas que planilha nenhuma mostra. Eu já perdi horas corrigindo análises que pareciam sólidas no papel e que desmanchavam quando você simplesmente caminhava pelo local. A diferença entre o que o mapa indica e o que o lugar efetivamente é costuma ser o ponto mais rico da análise. O que sobra de Milton Santos não é uma teoria pronta para colar em qualquer tema. É uma maneira de pensar que cobra coerência entre o conceito e a observação do real. Se você estiver disposto a fazer esse esforço, o resultado é substantivamente diferente do que se vê na maioria dos textos sobre globalização por aí. O resto, como costumo dizer depois de revisar trabalho alheio, é discurso bonitinho sem lastro.

Galeria
-
Por uma outra globalização - Milton Santos -
Globalização Milton Santos - O mundo global visto do lado de cá ... -
Globalização Perversa Milton Santos - RETOEDU