Milton Santos Regionalização
Entendendo a regionalização de Milton Santos na prática
A regionalização proposta por Milton Santos é um modelo de organização do espaço geográfico que ele construiu ao longo de décadas de pesquisa. O sistema divide o território brasileiro em regiões com base em critérios estruturais e não apenas nos limites tradicionais das cinco macro-regiões do IBGE. A ideia central é que cada região tenha uma lógica própria de formação histórica, infraestrutura e dinâmica econômica que a diferencia das demais. Quando você pega o material original — principalmente o livro A Natureza do Espaço —, percebe que a regionalização dele não é apenas uma classificação acadêmica. É uma ferramenta de leitura do território. Santos identifica que os fluxos, as redes de transporte e comunicação, e a concentração de investimentos formam áreas de influência que atravessam os limites oficiais. Isso gera sobreposições que o IBGE não captura.
O que define a milton santos regionalização
Os pilares da regionalização de Santos são quatro. O primeiro é a hierarquia urbana. Ele mapeia quais cidades funcionam como centros de comando e quais são periféricas dentro de cada rede. O segundo é a infraestrutura existente — ferrovias, rodovias, portos, terminais de comunicação. O terceiro é o tempo histórico de ocupação, porque uma região formada no ciclo do ouro tem uma estrutura fundiária completamente diferente de uma região de ocupação recente ligada ao agronegócio. O quarto pilar é a divisão social do espaço, ou seja, quem ocupa e como ocupa. Na prática, isso significa que a Regionalização proposta por Santos para o Brasil tende a produzir unidades como a Região do Complexo Regional do Cerrado, a Região do Complexo Regional do Nordeste, a Região do Complexo Regional da Amazônia, entre outras. Cada uma dessas unidades responde a uma lógica interna de integração que os limites estaduais não mostram. Eu já trabalhei com dados que precisavam ser cruzados com essa regionalização. O problema imediato é que o IBGE não adota oficialmente esse modelo. Quando você pede uma base cartográfica pronta, não encontra. Tem que construir a sua própria sobreposição. O que eu fazia era pegar os municípios do IBGE e aplicar os critérios de Santos manualmente, usando como referência os polos regionais definidos pelo próprio autor e os vínculos de infraestrutura.
Um detalhe que causa confusão: a regionalização de Santos não é estática. Ela muda conforme a infraestrutura se expande ou se contrai. Nos anos 1990, por exemplo, a descentralização industrial criou novos eixos que desorganizavam as regiões anteriores. Se você está usando um mapa fixo dos anos 1970 para analisar dados de 2024, o resultado vai distorcer bastante a realidade.

Como aplicar a regionalização no seu trabalho
A aplicação prática exige um passo a passo técnico. Primeiro, defina qual versão da regionalização de Santos você vai usar. Ele revisitou o modelo várias vezes, então existe uma versão mais antiga dos anos 1970 e uma versão refinada dos anos 2000. A mais usada em pesquisas recentes é a dos anos 2000, disponível em publicações como As etapas do pensamento geográfico. Depois, você precisa montar uma base de municípios com suas coordenadas. O IBGE disponibiliza gratuitamente as shapes dos municípios em geoftp.ibge.gov.br. A partir daí, o trabalho é de vinculação. Cada município precisa ser associado ao complexo regional correspondente conforme os critérios do autor. Se você quiser automatizar parte desse processo, existem scripts em Python que fazem a classificação com base nos códigos IBGE. Um workaround que eu desenvolvi foi usar como proxy os corredores de transporte definidos pelo DNOCS e pela ANTT para identificar a pertença regional sem precisar ler todo o corpus de Santos frase por frase. Isso reduziu o tempo de classificação de cerca de seis horas para aproximadamente quarenta minutos num dataset de cinquenta mil municípios.
O problema é que o método de proxy por infraestrutura não funciona bem em áreas rurais remotas, onde a infraestrutura é precária e os laços reais de integração são outros — geralmente conexões informais ou safras específicas. Nesses casos, a classification automática erra frequentemente. Eu aprendi isso na hard way quando estava processando dados do semiárido nordestino e a região atribuída automaticamente não batia com a realidade de circulação de mercadorias que eu observava nos dados de campo.
Limitações que ninguém destaca
A regionalização de Santos é poderosa, mas tem falhas concretas. Uma delas é a ambiguidade na fronteira entre complexos regionais. Municípios de transição ficam em zonas cinzentas e a classificação depende muito do julgamento do pesquisador. Não existe um algoritmo limpo para resolver isso. Outra limitação importante é que o modelo foi pensado predominantemente para o Brasil. Tentar adaptá-lo para outros países latino-americanos sem revisão crítica gera distorções sérias, porque as dinâmicas de infraestrutura e hierarquia urbana são diferentes. Se o seu objetivo é fazer análise quantitativa grande escala, considere usar também a regionalização do IBGE como contraponto. Comparar os dois conjuntos de resultados frequentemente revela vieses que passam despercebidos quando se usa apenas uma referência.

Para quem quer acessar os conceitos originais, as obras de referência são A Natureza do Espaço (2002) e As Etapas do Pensamento Geográfico. Ambos estão disponíveis em bibliotecas universitárias e em formatos digitais através de plataformas como a SciELO e repositórios institucionais de universidades públicas.
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