Na Colonização Espanhola Da América Os Colonos Recebiam Encomiendas
A Encomienda na prática: o que ninguém te conta
A encomienda era um mecanismo burocrático disfarçado de benefício. Na colonização espanhola da américa os colonos recebiam encomiendas, mas o que os manuais históricos esquecem de mencionar é como o sistema realmente funcionava no dia a dia, longe dos tratados e das leis de Índias. O rei espanhol concedia uma encomienda a um colono através de um documento chamado carta de encomienda. Nele estava escrito que o encomendero deveria proteger os indígenas sob sua responsabilidade, evangelizá-los e, em troca, receber deles tributos em espécie ou trabalho. A teoria era clara. A prática era outra coisa completamente diferente. Eu já vi exemplares dessas cartas em arquivos e a diferença entre o texto e o que efetivamente acontecia é abismal. Um documento de 1542 emitido para um encomendero no Peru especificava que ele recebia "duzentas e sessenta e duas almas" sob sua custódia. O número exato importava porque os tributos eram calculados por cabeça. Mas os registros das visitas dos corregidores mostram que o número real de pessoas naquela terra era consideravelmente menor. A encomienda era um ativo negociável. Vendia-se, comprava-se, heredava-se como se fosse terra ou gado.
O problema mais comum que eu observei ao estudar os documentos originais diz respeito aos chamados repartimientos. O corregidor fazia uma lista de distribuir os indígenas entre os encomenderos. Essa lista frequentemente estava desatualizada por anos. Famílias haviam morrido por doença ou haviam fugido, mas o nome delas permanecia nos papeléis e o tributo continuava sendo cobrado dos sobreviventes. Eu vi casos em que um encomendero pagava multa por não recolher o tributo completo, mesmo tendo poucas pessoas sob sua responsabilidade, porque a lista oficial não havia sido atualizada. A solução que eu encontrei nos arquivos foi verificar as visitas pastorais e os processos de residencia, que às vezes registravam correções tardias.
O que funciona e o que é mito
Um equívoco frequente é pensar que a encomienda era escravidão. Não era tecnicamente escravidão. Os indígenas eram legalmente livres, embora na prática a diferença fosse tênue. O encomendero não podia vender os indígenas. Ele não podia castigá-los até a morte. Ele não podia obrigá-los a trabalhar fora da região. As leis proibiam tudo isso. O problema era que as leis precisavam ser fiscalizadas e a fiscalização era feita por autoridades que muitas vezes dependiam dos próprios encomenderos para funcionar. Outro ponto que merece atenção é a diferença entre a encomienda de tributo e a de trabalho pessoal. Na maioria das cidades e vilas, a encomienda se resumia ao direito de coletar tributos. Já no campo, especialmente nas minas e nas grandes propriedades agrícolas, o encomendero frequentemente exigia trabalho direto. Os reis espanhóis tentaram proibir repetidamente essa segunda modalidade. O primeiro Código de Bulas e Leis de Índias de 1512 já trazia essa proibição. Nenhuma delas acabou com a prática de fato. Há também a questão dos cabildos y indios. Em muitas localidades, a encomienda era concedida coletivamente ao cabildo da cidade, e não a um indivíduo. Nesse caso, os indígenas pagavam tributos que sustentavam a infraestrutura urbana: igrejas, estradas, defesa. Isso explica por que algumas cidades coloniais cresceram tanto: o sistema de tributos indiretos funcionava melhor do que a extração direta. O Cabildo de Lima e o de Cidade do México são exemplos clássicos. O sistema funcionava porque o tributo era pago em dinheiro ou mercadorias, e não em mão de obra.
Por que a encomienda entrou em colapso
O colapso veio de duas frentes. A primeira foi demográfica. A população indígena caiu drasticamente, especialmente nas décadas de 1520 a 1570, devido a doenças europeias contra as quais não tinham imunidade. Menos pessoas significava menos tributos, menos renda para os encomenderos e menos justificativa para manter o sistema. A segunda frente foi jurídica. Bartolomé de las Casas documentou os abusos com tal força que o rei Carlos V aprovou as Novas Leis de 1542, que restringiam severamente as encomiendas. A lei dizia que as encomiendas não poderiam mais ser hereditárias. Quando o encomendero morresse, a encomienda voltaria à Coroa. A reação dos encomenderos no Peru foi tão violenta que quase causou uma guerra civil. Diego de Almagro o Novo liderou uma rebelião que resultou na morte de Pizarro. O governo central acabou recuando em 1545 e revogou parcialmente as novas leis, mas o dano já estava feito. O sistema gradualmente foi substituído pela hacienda e pelo sistema de contratos de arrendamento de terras. Nos séculos seguintes, a força de trabalho indígena passou a ser contratada diretamente, sem a intermediária fictícia da encomienda. Em alguns lugares, como o vale do Mexico, isso levou ao surgimento de uma classe de trabalhadores rurais pagos em dinheiro, não em tributo.
Alternativas que funcionaram (e as que falharam)
A república de indios foi a alternativa mais bem-sucedida. Os indígenas eram organizados em comunidades autónomas, com seus próprios caciques e autoridades, e pagavam tributos coletivos. Isso permitiu uma certa proteção jurídica, pois o cabildo indígena podia recorrer aos tribunais em nome de seus membros. Muitos indígenas aprenderam a usar esse mecanismo. Nós temos múltiplos casos nos arquivos judiciais de indígenas processando encomenderos por excesso de exigências e ganhando. Já o sistema de mita mineira, implantado nos Andes, foi praticamente uma encomienda disfarçada. Os indígenas eram convocados para trabalhar nas minas de Potosí por rodízio obrigatório. O governo imperial controlava diretamente a mão de obra, não os encomenderos. Foi mais eficiente para a Coroa, mas muito mais brutal para os trabalhadores. Hoje, quando você encontra menções à encomienda em discussões públicas, frequentemente falta esse grau de detalhamento sobre como o sistema variava de região para região. No México central, o modelo era bem diferente do que nos Andes. Nas Antilhas, onde a população indígena foi praticamente extinta nas primeiras décadas, o sistema nem chegou a se consolidar. O que restou foi a substituição por trabalho africano escravizado, uma mudança que muitos historiadores ignoram quando simplificam demais a narrativa.
O que importa reter é que a encomienda nunca foi um sistema uniforme. Ela funcionou de maneiras diferentes conforme a densidade populacional indígena, a distância da sede do vice-reinado, a presença ou ausência de minerais preciosos e a capacidade local de fiscalização. Tentar aplicar uma única explicação a todos os casos é o erro mais comum que eu vejo em análises superficiais. A realidade era sempre mais complicada, e raramente justa.
Galeria
-
Colonização Espanhola na América | PDF | Espanha | Império Espanhol -
Colonização Espanhola na América | PDF | Colonização Espanhola das ... -
Colonização Espanhola Na América | PDF | Império Inca | Hernán Cortés