Nascente Do Rio Tejo
Encontrar a nascente do rio Tejo é mais complicado do que a maioria dos mapas sugere
O rio Tejo nasce na Espanha, não em Portugal, e a sua nascente situa-se na serra de Ursaria, no município de Altube, na província de Guadalajara. O curso de água que muitos consideram o "verdadeiro início" é um pequeno regato chamado Manantiales, que surge a cerca de 1.938 metros de altitude. Já tentei chegar lá num fim de semana de inverno com um GPS portátil, e o caminho é uma trilha de pastoreio praticamente invisível durante nove meses do ano. A última vez que lá estive, o terreno estava coberto de neve fresca e tive de usar uma bússola porque o sinal do telemóvel desaparecia logo após os primeiros dois quilómetros de subida. A primeira informação que precisa de ter em conta é que o acesso à nascente exige uma permissão informal. Não há portagens, mas há agricultura privativa ao redor e os produtores da zona não apreciam visitas inesperadas de grupo grande. Na prática, funciona melhor ir entre duas e cinco pessoas, chegar ao parking próximo da ermida de Santa Barbara antes das dez da manhã, e seguir o trilho marcado por postes de madeira com fitas amarelas. O percurso tem aproximadamente 6,5 quilómetros de ida e volta, com um desnível acumulado de cerca de 380 metros. Leve botas de cano alto mesmo no verão — o solo de calcário é escorregadio quando húmido, e uma torcedura de tornozelo ali significa uma descida de 40 minutos sem sinal para chamar assistência. O erro mais comum que vejo os turistas cometerem é confundir a nascente oficial com outras fontes ao longo do vale do Alberche. Existem várias erguidas com placas turísticas que parecem autênticas, mas a única reconhecida pela Confederação Hidrográfica do Tejo como ponto zero do curso é a que está assinalada por uma pequena capela rural e por um marco de pedra com a inscrição "Nacimiento del Tajo". Cheguei a ver guias de viagem online a recomendar a fonte de San Martín de la Vega, que fica a 40 quilómetros de distância e não tem qualquer ligação com o início real do rio. Isso não é só imprecisão, é desinformação que leva pessoas a viajar horas por algo que não existe.
Como chegar lá sem perder tempo
O ponto de partida mais usado é o acesso pela estrada Nacional 320, saindo de Chinchón em direção a Sigüenza. A 30 quilómetros de Chinchón, vire à direita para a aldeia de Valverde de los Arroyos. A partir daí, a estrada asfaltada continua durante 8 quilómetros e termina num parking de terra. Se chegar depois das onze, já não encontra lugar e tem de estacionar 500 metros mais acima, o que adiciona 20 minutos de caminhada desnecessária. Eu costumo agendar a saída de casa às seis da manhã, chegar ao parking às oito e meia, e fazer o trilho com calma sem pressa de grupo atrás de mim. O equipamento mínimo que eu sempre levo são: 2 litros de água por pessoa, mesmo em dezembro, porque o vento na serra seca rapidamente; um corta-vento impermeável, já que a temperatura no cimo pode ser 8 graus inferior ao valor indicada para Cuenca; e um power bank, porque os mapas offline do Gaia GPS ou do Sygic não funcionam bem nos vales profundos da serra de Altube. A última vez que fui sem power bank, o telemóvel desligou-se a 1.400 metros e tive de voltar pelo rasto até à estrada, o que atrasou o regresso em quase uma hora.
A questão que ninguém explica
A nascente do rio Tejo não é um local icónico. Não há miradouros, nem cafés, nem bancas de artesanato. O que existe é um campo de montanha com ovelhas, alguns postes de eletricidade e um trilho que alguns troços é só uma linha de pedras empilhadas pelos pastores. As pessoas que procuram a experiência do "rio mais bonito da Península a nascer" ficam geralmente desapontadas. O que encontram é água limpa a escorrer entre pedras calcárias, com cerca de 15 centímetros de largura no ponto mais apertado. O rio só ganhavolume a uns 2 quilómetros a jusante, quando vários afluentes se juntam. Isto significa que a nascente do rio tejo vale mais pela dificuldade do acesso do que pela espectacularidade do local. Eu prefiro ir em março, quando o degelo aumenta o caudal e consigo ver claramente o trajeto inicial da água, do que em julho, quando o regato quase seca e fica apenas uma mancha húmida nas pedras. O periodo ideal vai de março a maio, e de setembro a outubro. De junho a agosto, o calor da meseta torna o percurso desgastante e a água é insuficiente para alguma fotografia digna.

O que acontece a jusante
Depois de sair da nascente, o rio Tejo percorre cerca de 140 quilómetros pela comunidade autónoma de Castela-Mancha antes de entrar em Portugal. Nas primeiras 30 quilómetros, o leito é estreito e encaixado em desfiladeiros calcários chamados Hoces del Río Tejo. Esta zona é acessível por carro até à aldeia de El Valle de la Vega de Santa María, e o percurso pede calçado adequado porque as margens são instáveis. Já vi três pessoas tropeçarem na mesma tarde, duas com fracturas leves no pulso. A zona não tem protecções e os placas de aviso são escassas. O destino final do Tejo é o estuário de Lisboa, onde desemboca no Oceano Atlântico. A extensão total é de aproximadamente 1.007 quilómetros, o que o torna o rio mais longo da Península Ibérica. Mas isso é irrelevante para quem visita a nascente. O que conta é o percurso de montaña, a solitude dos campos de Ursaria e a sensação de estar no ponto mais alto de um curso de água que atravessa três capitais europeias: Madrid, Toledo e Lisboa. Nada disso aparece nos folhetos turísticos, mas é o que torna o local genuinamente interessante.
Galeria
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A Terceira Dimensão: ESPANHA - Nascente do Rio Tejo -
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