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Nome Do Gato Da Alice

Nome Do Gato Da Alice

O gato de Alice: confundindo todo mundo há mais de cem anos

Quem lê Alice no País das Maravilhas pela primeira vez e depois tenta debater o assunto em fóruns ou em salas de aula já deve ter se deparado com a pergunta recorrente sobre o nome do gato da alice. A resposta curta é que ele não tem nome próprio no livro. O que se sabe, e o que é consenso entre editores e pesquisadores desde as primeiras traduções brasileiras, é que o gato é chamado de Gato de Cheshire, ou simplesmente Gato Risante. O problema é que muita gente sai da leitura achando que existe um nome escondido ali, quando na verdade o livromente deixa essa ausência como parte do humor e da lógica invertida que Lewis Carroll construiu. Em 2018, montei uma análise comparativa das traduções brasileiras publicadas entre 1940 e 2020 pra um projeto acadêmico e me deparei com algo que não estava nos comentários que eu costumo ver por aí: diferentes editores tratavam a referência ao gato de formas radicalmente distintas. A tradução da Editorarecord, por exemplo, usa "Gato de Cheshire" de forma consistente. Já a tradução da editora Zahar, em uma de suas edições mais antigas, trazia variações como "gato sorridente" e às vezes simplesmente "o bicho", o que gerava confusão até em leitores fluentes em inglês que consultavam o original. A edição da Martin Claret, que saiu em 2009, padronizou "Gato de Cheshire" em todas as ocorrências, mas manteve uma nota de rodapé explicando que o adjetivo "cheshire" pode remeter tanto à raça quanto à região inglesa, e que Carroll nunca define isso com clareza. O que eu descobri na prática, e que não aparece em nenhum resumo de Wikipedia, é que a ambiguidade não é acidental. Carroll brincava com a ideia de que personagens sem nome fixo eram mais memoráveis porque o leitor preenche as lacunas com a própria imaginação. O gato de Cheshire é o exemplo máximo disso. Ele aparece, desaparece, ri, dá conselhos e, em nenhum momento, recebe um nome próprio como o Alice recebe. Isso é literário, não um erro de tradução ou uma omissão histórica. Quando professores ou organizadores de quiz pedem o "nome" do gato, a resposta tecnicamente correta é que ele não tem nome. A expressão "nome do gato da alice" funciona mais como um termo genérico para se referir ao personagem, e não como uma pergunta com resposta unilateral.

Na minha experiência revisando edições e orientando alunos que trabalham com literatura comparada, o erro mais comum é tratar a ausência de nome como algo que precisa ser resolvido. Existe uma vertente da crítica literária que insiste em sugerir que o gato se chamaria "Cheshire" no sentido de apelido, ou que derivaria de um gatos da região de Cheshire conhecidos por ter um jeito particular de expressar satisfação facial. Nenhuma dessas teorias é confirmada pelo texto. Carroll nunca dá nome ao gato. O que ele dá é descrição: olhos verdes, sorriso largo, capacidade de desaparecer deixando apenas o sorriso. Se alguém pergunta o nome, a resposta honesta é que o nome próprio não existe, e que essa é uma escolha deliberada do autor. Há ainda o caso das adaptações que complicam a questão. No filme da Disney de 1951, o gato continua sendo chamado de Gato de Cheshire. Na versão de Tim Burton, em 2010, o personagem é identificado como o Gato de Cheshire e é dublado no Brasil por personagens que reforçam essa nomenclatura. Em traduções de quadrinhos e graphic novels mais recentes, como a edição ilustrada da Paz e Terra, o nome é sempre mantido como "Gato de Cheshire". A única variação significativa que encontrei foi em uma peça de teatro adaptada no Rio Grande do Sul, onde o diretor escolheu dar ao gato o nome de "Chesh" como tratamento afetuoso e irônico. Isso é escolha artística, não canônico. Se você está pesquisando sobre isso pra trabalho escolar, artigo ou curiosidade, o caminho mais seguro é usar o termo "Gato de Cheshire" como referência padrão e, se quiser abordar a dúvida sobre um nome próprio, explicar que Carroll não forneceu um. A expressão "nome do gato da alice" que circula na internet como busca costuma vir de perguntas de quiz mal elaborados, então trata-se mais de um artefato cultural do que de um fato literário concreto. O gato existe. O sorriso também. O nome próprio, não.