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O Brasil É Um País Rico Ou Pobre

O Brasil É Um País Rico Ou Pobre

A verdade sobre o Brasil: nem rico, nem pobre — algo no meio que ninguém gosta de admitir

Eu já morei em Brasília, trabalhei em São Paulo e passei seis meses viajando pelo interior do Pará. O que eu vi não cabe numa definição binária de rico ou pobre. O Brasil é um país com riqueza natural impressionante e uma desigualdade que vergonhosa. As duas coisas existem ao mesmo tempo, e tentar escolher uma só distorce a realidade. A pergunta pede uma resposta que o país não entrega. Renda per capita em 2024 gira em torno de US$ 8.900 pelo Banco Mundial. Isso coloca o Brasil na faixa de países de renda média-baixa, bem abaixo da Coreia do Sul (US$ 33 mil) ou do Canadá (US$ 45 mil). Mas o mesmo Brasil exporta US$ 310 bilhões em commodities todo ano, é o maior produtor de ferro do mundo, e tem uma indústria aeroespacial competitiva com a Embraer. O problema é que esses dois mundos não se encontram. O dinheiro do pré-sal não chega em Boa Vista. A soja do Mato Grosso não vira emprego em Salvador. E essa geografia da riqueza explica metade do que acontece no país.

Quando eu comecei a trabalhar com análise econômica em 2018, achei que bastava olhar o PIB e pronto. Errado. O PIB cresce 2,9% num ano e parece vitória. Na prática, a inflação come 3,5%. O real valor foi negativo. Mas nas estatísticas oficiais, tudo parecer estar caminhando bem. Eu levei oito meses para desconfiar disso e aprender a usar o IPCA corrigido pela Selic, que é o único indicador que realmente mostra se a população ganhou poder de compra ou não.

O lado rico que poucas pessoas exibem

O Brasil tem um dos maiores territórios agrícolas do planeta. 300 milhões de hectares de terra arável. É mais área do que a Índia inteira. O país é o maior exportador de café, açúcar, soja e carne bovina do mundo. Só o setor agro exportou US$ 152 bilhões em 2023. Temos minérios que o mundo todo precisa. Ferro, nióbio, bauxita, manganês. O Brasil detém 98% das reservas mundiais de nióbio, mineral essencial para ligas aeroespaciais e supercondutores. Sem o nióbio brasileiro, a indústria de aviões simplesmente para. O pré-sal mudou a economia nacional. Em 2008, o Brasil importava 70% do petróleo que consumia. Em 2024, é exportador líquido. Isso gerou receita fiscal Expressiva, mas a maior parte ficou concentrada em poucos estados e em elites políticas.

O Brasil é um país rico, só que sua riqueza é muito mal distribuída ...
O Brasil é um país rico, só que sua riqueza é muito mal distribuída ...

Essa riqueza natural cria uma ilusão. As pessoas veem o Brasil na Copa do Mundo, no G20, e pensam que somos potência. Somos sim, mas potência de matéria-prima, não de tecnologia de ponta. A diferença é abissal em termos de emprego qualificado e salário.

O lado pobre que os dados não mostram sozinho

O IDH do Brasil é 0,754, posição 79 mundial. Bom para padrões latinos, mas medíocre globalmente. O que o IDH não mostra é a distribuição. O coeficiente de Gini ficou em 0,489 em 2023, o que significa que a desigualdade ainda é brutal. Os 10% mais ricos concentram 46% de toda a renda. Os 50% mais pobres dividem 16%. Isso não é pobreza relativa, é pobreza estrutural. Milhões de brasileiros vivem com menos de R$ 200 por mês, valor abaixo da linha de pobreza absoluta definida pelo BNDES. A violência também é indicador econômico. O Brasil tem 27 homicides por 100 mil habitantes. Custa ao PIB cerca de 1,2% ao ano em gastos com segurança, saúde e perda de produtividade. É mais barato para um governo investir em educação do que pagar esse boletim anual.

Eu testemunhei isso pessoalmente quando fui entrevistado em uma usina de cana no interior de São Paulo. O funcionário mais antigo ganhava R$ 1.400 líquidos, vivia num quarto alugado a R$ 450, e o transporte custava R$ 280 por mês. Sobra pouco mais de R$ 600 para alimentar família de quatro pessoas. Isso é crescimento econômico? O agro cresceu 8% naquele ano. A vida dele não mudou nada.

O Brasil é um país rico que produz... Jackson Oliveira - Pensador
O Brasil é um país rico que produz... Jackson Oliveira - Pensador

Por que o Brasil não decola economicamente

A primeira razão é custo Brasil. Produzir no Brasil custa 30% mais do que na China, segundo dados da FIESP de 2023. Impostos somados chegam a 33% do PIB. A burocracia para abrir uma empresa leva 18 dias em média, contra 4 dias em Singapore. O sistema judicial consome tempo e recurso que poderiam ser produtivos. A segunda é dependência de commodities. Quando o preço da soja cai, o real desvaloriza, a inflação sobe e o governo precisa aumentar juros. O ciclo é vicioso e se repete há décadas. O país nunca conseguiu sair da armadilha da matéria-prima. A terceira é educação. O Brasil gasta 5,8% do PIB em educação, número aparentemente bom. Mas o gasto por aluno é o menor da América do Sul. O saneamento básico atende apenas 54% dos municípios. Crianças sem saneamento não aprendem direito. Sem educação de qualidade, não há indústria de tecnologia. Sem tecnologia, não há produtividade. O círculo se fecha.

Existe ainda o problema fiscal. A dívida pública chegou a 87% do PIB em 2024. Os juros compostos comem quase 40% da receita tributária. É mais fácil o governo financiar um projeto militar do que investir em infraestrutura permanente.

O que funciona e o que não funciona

Programas de transferência de renda como o Bolsa Família realmente reduziram a extrema pobreza. Entre 2003 e 2014, o Brasil saiu do mapa da fome da ONU. Mas depois de 2016, o programa foi flexibilizado demais e a efetividade caiu. O dinheiro continua chegando, mas o acompanhamento pedagógico e profissionalizador que deveria vir junto muitas vezes não vem. Incentivos fiscais para indústria não funcionam quando não vêm com contrapartida de P&D. O Brasil já deu isenção de imposto para montadoras que não construíram nenhuma fábrica de bateria ou componente tecnológico. O resultado foi emprego precário e transferência de riqueza do Estado para multinacionais. Já o pronamp, programa de fomento à microempresa criado em 2021, teve resultados mistos. As taxas de juros eram baixas, mas 62% dos empréstimos foram para pessoas que já tinham acesso a crédito bancário. O público-alvo correto, empreendedores de baixa renda, ficou de fora por falta de garantia e burocracia.

O Brasil é um país rico? - PB AGORA
O Brasil é um país rico? - PB AGORA

A saída possível

Não existe solução rápida. Mas existem direções. A primeira é simplificar o sistema tributário. O Brasil tem 96 tributos diferentes. Um IVA único como o proposto na PEC 45/2019 reduziria custos de conformidade em 40% para empresas de pequeno porte, segundo estudo da FGV. A segunda é focar em educação básica de verdade. Não mais anos de discurso, mas fiscalização de resultado. Se uma escola não mantém taxa de aprovação acima de 70% em matemática e português por três anos consecutivos, o gestor responde administrativamente. Isso existe em Minnesota, Estados Unidos, e funciona. A terceira é parar de importar tecnologia e começar a produzir. O Brasil já tem capacidade. A Embraer mostrou. A Petrobras mostrou em offshore. O problema é escalar para outros setores. Saneamento, energia renovável, agrotech, farmacêutica. Tudo isso o Brasil pode dominar se o Estado parar de ser comprador e começar a ser investidor de longo prazo.

O Brasil não é rico nem pobre. É um país com recursos de nação rica e gestão de nação pobre. A riqueza existe. A pergunta certa não é qual rótulo colocar, mas como fazer o dinheiro da terra chegar em quem precisa sem passar por dez mãos corruptas no caminho. Eu ainda acho que o Brasil vai mudar. Não amanhã. Talvez em quinze anos. Mas a base já está sendo construída, mesmo que devagar demais.