O Desmatamento Acelera A Erosão Do Solo
O mecanismo por trás do processo
A remoção da cobertura vegetal expõe o solo diretamente à ação das gotas de chuva. Sem a Interceptação das copas, a energia cinética das gotas atinge a superfície e desagrega as partículas. Esse é o primeiro passo. O segundo é o transporte. A água que escorre superficialmente carrega essas partículas para baixo, muitas vezes em poucos minutos após uma tempestade. O que acontece na prática é que o solo perde a fração mais fina e fértil, que é justamente a que contém a maior parte da matéria orgânica e dos nutrientes. O que sobra é um resíduo mais arenoso e menos produtivo. Isso é bem documentado, mas o que eu vejo com frequência é gente subestimando a velocidade com que isso acontece em encostas com declividade acima de 15 por cento.
Por que o desmatamento acelera a erosão do solo
Existem alguns mecanismos interligados que tornam isso inevitável quando a floresta ou a vegetação nativa são removidas sem planejamento. Perda de estrutura do solo: As raízes das plantas, especialmente as das árvores de porte, criam canais que melhoram a infiltração. Quando essas raízes apodrecem depois de cortadas, esses canais ficam obstruídos ou colapsam. A água passa a escoar pela superfície em vez de infiltrar. Isso aumenta o volume e a velocidade do escoamento superficial. Exposição direta: O solo descoberto recebe impacto direto das gotas. A crosta superficial se forma rapidamente. Essa crosta reduz ainda mais a infiltração, criando um ciclo vicioso. Quanto mais erosão, mais a crosta endurece, e mais rápido o escoamento se torna.
Redução da matéria orgânica: Sem a leaf litter (serapilheira) caindo continuamente, a matéria orgânica do solo diminui. A matéria orgânica é o que mantém a agregação das partículas. Sem ela, o solo se desfaz com mais facilidade. Tudo isso acontece de forma cumulativa. Uma área desmatada pode parecer estável por um ou dois anos. Na terceira estação de chuvas, os sulcos de erosão começam a aparecer. Em cinco anos, a perda de solo pode alcançar entre 20 e 50 toneladas por hectare por ano em áreas de pastagem mal manejadas sobre terreno declivoso, dependendo do tipo de solo e da intensidade das chuvas.

Como eu lido com isso no campo
Eu trabalho com análise de solo e recuperação de áreas degradadas há bastante tempo. Um caso que marca muito foi uma propriedade no sul de Minas Gerais, onde o proprietário tinha cortado toda a vegetação de uma encosta de aproximadamente 22 por cento de declividade para plantar eucalipto. Ele achava que a sombra da floresta ajudaria a proteger o solo. Na prática, o sub-bosque era tão ralo que o solo ficava quase descoberto o ano todo. Depois de três anos, já tínhamos sulcos de erosão com mais de 40 centímetros de profundidade em alguns pontos. A solução que funcionou não foi plantar outra coisa qualquer. Nós fizemos terraceamento com barreiras vegetais usando braquiária em linha de contorno, combinado com a plantação de árvores nativas em faixas alternadas nos pontos mais críticos. O terraceamento reduziu a velocidade do escoamento. As barreiras vegetais retiveram parte do sedimento. As árvores nativas reconstruíram a estrutura do solo com suas raízes. Em cerca de dois anos, os sulcos principais pararam de se aprofundar. A recuperação total leva mais tempo, mas o controle da perda já estava efetivo. O erro mais comum que eu vejo é tentar apenas reflorestar sem controlar o escoamento primeiro. Você planta uma muda no meio de um sulco de erosão ativo e ela é levada pela água na primeira chuva forte. Nada ganho. Controle a água antes de pensar na vegetação.
Dados práticos que você precisa saber
O solo perdido por erosão não é uniforme. A fração fina, que contém argila e silte, é a que mais se move. Isso significa que o solo remanescente tende a ficar mais arenoso. A capacidade de retenção de água cai drasticamente. Um solo que originalmente tinha 40 por cento de capacidade de campo pode cair para 18 a 22 por cento em poucas estações. Em termos de fertilidade, o nitrogênio, o fósforo e o potássio são os primeiros a se esgotar. O fósforo em particular é crítico porque ele se liga fortemente aos óxidos de ferro e alumínio em solos tropicais, e essa fixação aumenta quando a matéria orgânica diminui. A correção com fosfato simples ou sobre fosfato triplo simplesmente não funciona bem se a matéria orgânica não for recuperada primeiro. Outro ponto que muita gente não considera: a compactação. O desmatamento muitas vezes vem acompanhado do tráfego de máquinas pesadas. A compactação reduz a macroporosidade do solo. Menos macroporosidade significa menos infiltração. Menos infiltração significa mais escoamento superficial. Mais escoamento significa mais erosão. É outro ciclo vicioso. A drenagem do solo precisa ser avaliada antes de qualquer decisão de manejo.
O que não funciona e o que funciona
Cobertura morta sozinha não resolve em terrenos com declividade acentuada. A palhada protege contra o impacto das gotas, sim, mas ela não segura o escoamento. Se a água passa rápido demais, ela arrasta a cobertura junto. O ideal é combinar cobertura com barreiras físicas ou vegetais que dispersem a energia da água. Semeadura direta em áreas desmatadas pode ajudar, desde que haja rotação de culturas com sistemas radiculares variados. Mas isso só funciona em terrenos planos ou suavemente ondulados. Em encostas pronunciadas, a técnica isolada não compensa a perda de estrutura causada pelo desmatamento. O plantio de florestas em faixas de preservação permanente (APPs) é obrigatório por lei e também faz sentido agronomicamente. Mas muitas vezes as APPs são plantadas com espécies exóticas de crescimento rápido, como eucalipto, que não oferecem a mesma proteção que as nativas. A serapilheira das nativas é mais abundante e se decompõe de forma mais lenta, o que contribui para uma cobertura mais duradoura.

Se o solo já estiver muito degradado e com sulcos avançados, a única opção viável é a recuperação mecânica do terreno primeiro, seguida de estabilização biológica. O custo é mais alto, mas o custo de não fazer nada é a perda definitiva da camada arável. O que você vê no campo é o resultado de decisões tomadas há décadas. A erosão não perdoa. Ela apenas espera o momento certo para mostrar o estrago.
Galeria
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O desgaste do solo: desmatamento, queimadas e erosão -
Degradação do solo: erosão e desmatamento | PPT -
O desgaste do solo: desmatamento, queimadas e erosão