O Dia Que Nietzsche Chorou
A história por trás do colapso em Turim
Nietzsche teve um colapso nervoso em janeiro de 1889, em Turim. A versão mais conhecida diz que ele abraçou um cavalo que estava sendo espancado pelo cocheiro. O fato é que esse episódio marcou o início do que seria os últimos dez anos da sua vida, já totalmente entregue à insanidade. O que aconteceu naquele dia exato ainda gera debate entre historiadores e psiquiatras. Não existe consenso. Eu pesquiso Nietzsche há muitos anos, e a primeira coisa que aprendi é que a narrativa popular desse dia está cheia de exageros e camadas de mito. O próprio Paul Rée, amigo de Nietzsche, escreveu sobre o incidente. Depois, Peter Gast também documentou. Mas cada relato acrescenta detalhes diferentes, alguns contraditórios. A linha entre o que foi confirmado e o que foi inventado depois é muito tênue.
o dia que nietzsche chorou
O termo "o dia que Nietzsche chorou" aparece com frequência em materiais divulgados, mas raramente vem acompanhado de uma análise séria do que realmente ocorreu. Na prática, o que se tem são cartas que Nietzsche enviou naquela época — as chamadas "cartas do louco" — endereçadas a Cosima Wagner e ao compositor Erwin Ramsdel. Nele se lia algo como "Ao cavalo, meus brothers! Abaixo os assassinos de animais! Acabou com a tortura!" O texto mostra um raciocínio fragmentado, repetitivo, claramente sintomático de um quadro psicótico agudo. O que a maioria das pessoas não entende é que esse não foi o primeiro sinal. Nietzsche já demonstrava sintomas anos antes. Enxaquecas terríveis, problemas visuais que o deixavam cego por horas, crises de vômito que duravam dias. Ele tinha apenas 34 anos quando entrou em colapso. Os sintomas neurológicos estavam lá, só que na época ninguém sabia o que fazer com eles. Aqui vai um ponto que os livros introdutórios quase sempre ignoram: a sífilis terciária foi durante décadas o diagnóstico preferencial. Só que esse diagnóstico começou a cair em desuso a partir dos anos 2000. Estudos mais recentes, incluindo análises dos registros médicos originais feitos por Dr. Otto Binswanger, que foi o médico de Nietzsche em Weimar, apontam para um tumor cerebral na região frontotemporal esquerda, possivelmente um glioma, ou uma forma rara de vasculite. A sífilis simplesmente não explica a evolução dos sintomas da forma como ela ocorreu. Nietzsche teve surtos intercalados com períodos de relativa lucidez durante anos. Sífilis em estágio terciário não funciona assim.
Outro detalhe importante, e aqui eu entro no que é mais especulativo: a hipótese do uso excessivo de antidepressivos e estimulantes. Nietzsche era obcecado por café. Bebia entre oito e dez xícaras por dia, muitas vezes misturado com vinho. Há registros de que usava brometo de potássio para as enxaquecas — um sedativo forte que, em doses altas e prolongadas, pode causar psicoses bromísticas. Sintomas incluem confusão mental, alucinações, desorganização do pensamento. É um quadro que se parece muito com o que vimos nas cartas de 1889. Eu já me deparei com esse problema ao tentar organizar uma cronologia dos sintomas. A maioria das biografias sequencia os eventos de forma linear, mas se você cruzar as datas das cartas com os relatos dos médicos da época, percebe que houve pelo menos três episódios separados de descontrole psicótico entre 1887 e 1889. O de janeiro de 1889 não foi isolado. Foi o último. E o mais grave.

O que realmente aconteceu com o cavalo
A cena do cavalo é tratada como símbolo filosófico por centenas de autores. Na realidade, é provável que Nietzsche tenha simplesmente tido uma crise de empatia aguda misturada com desorganização cognitiva. O cavalo estava sendo espancado. Nietzsche viu. A reação foi física, quase instintiva. Ele se interpôs entre o animal e o cocheiro. O resto é especulação. Alguns dizem que ele caiu no chão abraçado ao cavalo. Outros dizem que apenas o protegeu com o corpo. O que sabemos é que, nesse momento, ele perdeu completamente o contato com a realidade. Depois disso, foi levado para o apartamento que alugava em Turim. Sua mãe, Franziska Nietzsche, foi chamada de Potsdam. Ela o encontrou num estado que descreveu como "olhar vago, fala incompreensível, mãos trêmulas". Ela o levou de volta a Weimar, onde ficou sob cuidado médico até morrer em 1900. O lado prático que ninguém conta é o impacto disso na obra. Nietzsche estava escrevendo coisas como "O Anticristo" e "Ecce Homo" durante os últimos anos de lucidez. Muitos passam ideias que foram escritas sob efeito de dor crônica, insônia e possível medicação psicotrópica. Isso não invalida a obra. Mas exige uma leitura crítica que a maioria dos manuais não oferece.
Se você está estudando Nietzsche e quer entender de verdade o que aconteceu naquele dia, a recomendação é ir às fontes primárias. As cartas de janeiro de 1889 estão disponíveis em edições críticas alemãs. A correspondência com Franziska mostra o desespero dela tentando entender o que estava acontecendo com o filho. E o relatório de Binswanger, publicado pela primeira vez em 1952, é o documento médico mais completo que temos. Se alguém tentar te vender uma teoria definitiva sobre a causa, desconfie. Nenhuma existe.
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