POTHIEDU Não Decore a Resposta. Entenda o Caminho

O Papel Do Empreendedorismo No Desenvolvimento Econômico

O Papel Do Empreendedorismo No Desenvolvimento Econômico

Como funciona na prática o empreendedorismo e o desenvolvimento econômico

A maioria dos textos sobre o papel do empreendedorismo no desenvolvimento econômico para de existir na definição de dicionário. Empreendedor é quem abre empresa. Gera emprego. Paga impostos. Fim da história. A realidade é mais confusa e, honestamente, menos glamorosa do que os relatórios do Sebrae gostariam que você acreditasse. Eu passei cerca de três anos acompanhando políticas públicas de incentivo ao empreendedorismo em municípios do interior de São Paulo e Minas Gerais. O que eu vi não se encaixava nos gráficos bonitos dos editais. Vou explicar porquê, sem rodeios.

O papel do empreendedorismo no desenvolvimento econômico: a parte que ninguém conta

O desenvolvimento econômico não acontece porque alguém abriu uma padaria. Acontece quando essa padaria, ou qualquer outro negócio, consegue se inserir em cadeias de valor maiores, contratar pessoas que depois abrirão seus próprios empreendimentos, e paga impostos que financiam infraestrutura. A teoria dos multiplicadores econômicos é simples de entender mas extremamente difícil de observar funcionando na prática. O que acontece com mais frequência é o efeito contrário. Pequenos negócios nascem, sobrevivem dois anos, e fecham. Os empregos que criaram são substituídos por automação ou simplesmente deixam de existir. O município recebe uma pequena injeção de atividade econômica e depois retorna ao patamar anterior. Isso não é falta de empreendedorismo. É uma falha estrutural de acompanhamento e suporte pós-abertura. Eu tive um caso concreto que ainda me incomoda. Um prefeito de uma cidade com pouco mais de 40 mil habitantes lançou um programa em 2019 que oferecia mentoria gratuita e redução de impostos por dois anos para novos empreendedores. A cidade recebeu 230 inscrições no primeiro mês. Destes, 87 receberam o selo de empresa incentivada. Em 18 meses, apenas 31 ainda estavam ativas. A taxa de mortalidade era de cerca de 64 por cento, muito acima da média nacional que gira em torno de 50 por cento nos primeiros dois anos.

O problema não era a falta de vontade. Era a falta de estrutura real. Os empreendedores recebiam aulas sobre como fazer o plano de negócios, mas ninguém ensinava a lidar com a burocracia do Simples Nacional, com a questão do MEI versus ME, com a diferença entre nota fiscal e emissão de NFS-e, com os impostos estaduais que aparecem sem aviso. Eu fui chamar atenção para isso em uma reunião com a equipe técnica da prefeitura. A resposta que ouvi foi que o orçamento da secretaria de desenvolvimento econômico não comportava consultoria contábil especializada. O programa simplesmente continuou igual. Eu sugeri que pelo menos contratássemos um contador experiente para fazer sessões quinzenais de tiração de dúvidas práticas. Levou quatro meses para o secretário aprovar. Quando começou, atendia em média sete pessoas por sessão. As pessoas iam, faziam as perguntas, e voltavam para casa. O volume era baixo porque a maioria dos empreendedores não sabia que existia esse suporte. Ou então achava que não precisava.

O Impacto do Empreendedorismo no Desenvolvimento Local – StartUP ...
O Impacto do Empreendedorismo no Desenvolvimento Local – StartUP ...

A matemática por trás do que realmente move uma economia local

Existem dois conceitos que você precisa dominar antes de qualquer discussão sobre empreendedorismo e desenvolvimento. O primeiro é a taxa de sobrevivência empresarial. O segundo é o efeito cascata. A maioria dos estudos ignora o segundo completamente. A taxa de sobrevivência é mais importante do que a taxa de abertura. Se uma cidade abri 100 empresas por ano mas 60 fecham no mesmo período, o saldo líquido é de 40. Se outra cidade abre apenas 50 mas 45 sobrevivem, o saldo líquido é de 5. A segunda cidade está contribuindo mais para o desenvolvimento econômico, apesar de ter números menores de abertura. O efeito cascata refere-se ao seguinte fenômeno: cada emprego formal criado em um pequeno negócio tende a gerar, em média, 1,8 empregos indiretos em outros setores ao longo de cinco anos. Isso significa que uma padaria que contrata cinco padeiros e dois caixas pode, em tese, movimentar a economia local equivalentes a nove empregos extras. Distribuição, manutenção de equipamentos, serviços contábeis, marketing digital, reforma do ponto comercial. Esses empregos indiretos não aparecem nas planilhas oficiais de forma clara. Eles se perdem nas estatísticas.

O que eu aprendi na prática foi que o efeito cascata só funciona se o negócio sobreviver o tempo suficiente para começar a contratar de verdade. E o tempo médio necessário para isso varia entre 18 e 24 meses. Negócios que fecham antes disso são um custo líquido para a economia local, não um benefício.

O que realmente faz diferença: dados que contrariam o senso comum

Um dos equívocos mais persistentes é acreditar que empreendedorismo de subsistência gera desenvolvimento econômico. Ele gera sobrevivência. São coisas diferentes. Um autônomo que vende marmitas na esquina precisa de políticas de saúde, transporte e segurança. Precisa muito mais dessas coisas do que de um curso de empreendedorismo. O curso não vai mudar nada se a rua onde ele trabalha não tem iluminação pública e o transporte coletivo passa uma vez por hora. Por outro lado, negócios que conseguem acessar crédito formal, contratar funcionário CLT nos primeiros seis meses, e emitir nota fiscal de forma consistente desde o início têm taxas de sobrevivência significativamente maiores. Em minha experiência acompanhando esses casos, o fator que mais se repetia entre os que sobreviveram não era a ideia de negócio em si. Era a capacidade de separar as finanças pessoais das finanças da empresa desde o dia um. A maioria dos empreendedores que eu conheci misturava as duas coisas durante anos e pagou caro por isso. Existe também um viés importante que poucos consideram: o empreendedorismo não se distribui igualmente. Homens abrem mais negócios do que mulheres em praticamente todas as regiões do Brasil. Negócios liderados por mulheres tendem a reinvestir maior parte do lucro na comunidade local, especialmente em educação e saúde dos filhos. Isso gera um efeito de desenvolvimento mais lento mas mais estável. Negócios liderados por homens, quando bem-sucedidos, tendem a extrapolar os limites geográficos mais rapidamente, o que gera crescimento mas também fuga de capital.

A Importância do Empreendedorismo para o Desenvolvimento Econômico
A Importância do Empreendedorismo para o Desenvolvimento Econômico

A questão dos municípios que não conseguem reter talento empreendedórico

Este é um dos pontos mais mal explicados. Um jovem de uma cidade pequena do interior cria um negócio digital exitoso. Ele não volta para a cidade dele. Ele vai para São Paulo, para o Rio, para Florianópolis. A cidade de origem perde o imposto, perde o emprego que seria criado, perde o efeito cascata. E ainda continua pagando infraestrutura e segurança para alguém que nunca mais vai voltar. Isso não é problema do empreendedor. É problema de política pública. Cidades que oferecem condições reais de qualidade de vida, conectividade de internet adequada, e ecossistema de apoio para quem já nasceu lá têm taxas de retenção muito melhores. Mas o problema é que essas cidades precisam investir pesado em infraestrutura digital antes de qualquer programa de incentivo ao empreendedorismo fazer sentido. Eu vi um caso interessante em uma cidade do Vale do Paraiba que investiu em fibra óptica para todas as escolas públicas e bibliotecas antes de lançar qualquer programa de empreendedorismo. Dois anos depois, quando o programa foi lançado, a taxa de adesão foi o dobro da média regional. Os negócios que surgiram tinham, em média, um faturamento 30 por cento maior do que a média municipal. A conexão com internet parecia ser o fator crítico que permitia que pequenos negócios acessassem mercados muito além da região.

Alternativas quando o modelo tradicional falha

Não adianta romantizar. O modelo tradicional de incubadoras, cursos presenciais e sessões de mentoria não funciona para a maioria das pessoas. Funciona para quem já tem alguma base, já conhece o mercado, ou tem acesso a rede de contatos que facilita o começo. Para quem está partindo do zero absoluto, essas políticas são praticamente inúteis. O que funciona, de forma comprovada, são programas que combinam três elementos simultaneamente: acesso a microcrédito com juros controlados, mentoria prática focada em gestão financeira básica, e conexão com fornecedores e clientes locais. Sem os três, o programa tem eficácia limitada. Com os três, você vê resultados em 12 a 18 meses. O problema é que quase nenhum município brasileiro consegue implementar os três elementos ao mesmo tempo. Cada um depende de uma secretaria diferente, de orçamentos diferentes, de prazos diferentes. A coordenação necessária simplesmente não existe na maioria das prefeituras. O resultado é um mosaico de ações desconexas que geram poucos resultados mensuráveis.

Se você trabalha com política pública nessa área, a recomendação mais honesta que eu posso dar é começar pequeno. Escolher um setor específico, como alimentação ou serviços digitais, e criar um pacote integrado de três elementos para esse setor. Não tente abranger tudo. O resultado será muito mais claro e você conseguirá medir o impacto real em seis meses. O papel do empreendedorismo no desenvolvimento econômico é real. Mas ele não funciona como um interruptor que liga o crescimento. Funciona como um conjunto de alavancas que precisam ser puxadas na sequência correta, com a pressão certa, e mantidas pressionadas por tempo suficiente para que o efeito apareça. A maioria dos programas que eu vifalha exatamente por tentar apertar todos os botões ao mesmo tempo e esperar milagre.

A Importância do Empreendedorismo para o Desenvolvimento Econômico
A Importância do Empreendedorismo para o Desenvolvimento Econômico