O Que Comem As Ovelhas
A alimentação das ovelhas: o que realmente funciona
Muita gente acha que ovelhas comem qualquer grama que aparece no caminho. A realidade é mais complicada. O que comem as ovelhas depende diretamente do que está disponível na região, da estação do ano e do estado reprodutivo do animal. Se você simplesmente solta o rebanho numa pastagem qualquer, vai ter perda econômica. Ração concentrada sem ajuste também não resolve. Ovinos são ruminantes. O trato digestivo deles foi feito para fibra. O rumen abriga uma população de microrganismos que fermentam celulose e hemicelulose, transformando material vegetal estrutural em ácidos graxos de cadeia curta. Isso quer dizer que a base da dieta precisa ser volumoso: capim, feno, silagem. O erro mais comum que eu vejo é o pecuarista tentar substituir volumoso por concentrado demais, achando que ganha peso mais rápido. Ganha, sim, mas com acidose ruminal, diarreia e mortalidade precoce. No meu primeiro rebanho, eu fiz essa besteira. Comprei farelo de milho e soja, coloquei à vontade nos cochos e esperei os carneiros engordarem. Dois meses depois, três ovelhas com dificuldade respiratória e diarreia aquosa. O veterinário diagnosticou acidose subaguda. O problema era o equilíbrio: eu estava dando 40% da matéria seca em concentrado quando o certo seria 20% no máximo para mantença, e até 40% só em casos de pré-parto ou terminação de terminação.
O correto é construir a dieta assim: volumoso de qualidade como base, com suplementação mineral específica para ruminantes e, quando necessário, energia e proteína suplementar. Capim colonião, Tifton, Braquiária marandu funcionam bem para pastejo. Feno de alfafa é excelente para ovelhas em lactação. Silagem de sorgo ou milho pode ser usada, mas o teor de água precisa ser controlado — se estiver muito úmida, dilui a população microbiana no rumen. Tem um detalhe que ninguém avisa: minerais. O selênio, o cobalto e o fósforo são críticos em quase todo solo brasileiro. Uma carencia de cobalto reduz a síntese de vitamina B12 no rumen, e o animal para de fermentar fibra direito. Eu testei isso na prática porque quatro ovelhas apresentavam emagrecimento progressivo com apetite normal. O teste mineral do solo revelou cobalto em nível abaixo de 0,5 ppm. A solução foi suplemento mineral com 80 mg de cobalto por kg e reposição semanal. O ganho de peso voltou ao normal em três semanas. A agua também conta. Ovelhas bebem entre 2 e 6 litros por dia dependendo da temperatura e da quantidade de volumoso oferecido. Durante lactação, uma ovelha pode passar de 8 litros. Se o bebedouro está a mais de 150 metros do local de pastejo, o consumo cai. Isso é mensurável: animais com bebedouro longe consomem até 30% menos voluntariamente, o que traduz em redução de até 200 gramas de ganho diário em animais de corte.
Outro ponto importante: ovelhas não são vacas. Elas são mais exigentes com qualidade de fibra e mais sensíveis a toxinas. Folhas de mandioca verde, broto de eucalipto e gramíneas com fungo endofítico (como alguns tipos de azevém) podem intoxicar o rebanho. O sintoma não aparece de imediato — as ovelhas começam a recusar o pasto, ficam apáticas e com diarréia leve, e quem só observa de longe acha que é outro problema. Eu perdi um lote inteiro porque não verifiquei a fonte da forragem suplementar. Era silagem de milho com teor de água acima de 70%, o que gerou crescimento de Clostridium perfringens. Para terminação de cordeiros, a estratégia mais eficiente é começar com pastejo de boa qualidade e suplementação progressiva. A taxa de introdução de concentrado deve ser de 1% do peso vivo por dia, chegando no máximo a 3% durante a fase final. Suprimento mineral com ureia tratada pode funcionar, mas só se o volumoso tiver qualidade adequada, senão a ureia não é convertida em proteína microbiana e vira desperdício, às vezes toxicidade por amônia. Se você tem condições de fazer análise de forragem, faça. O custo é baixo e o retorno é imediato. Saber o teor de proteína bruta e de fibra detergentes da sua pastagem evita erro de suplementação. Um capim com 8% de proteína bruta precisa de suplementação proteica. Um capim com 14% já é suficiente para mantença sem aporte extra de proteína, mas ainda pede minerais.

O que comer as ovelhas é, no fim, uma questão de equilibrar volume, qualidade e suplementação. Não existe fórmula única. O que existe é observar o animal, registrar o consumo e ajustar com base no resultado. Se o pelo fica opaco e o bicheira aparece, é proteína ou minerais insuficientes. Se o animal perde condição mas não mostra diarreia, pode ser excesso de concentrado ou volumoso de má qualidade. Ajuste o que está na frente do animal antes de mudar qualquer outra coisa.
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