O Que Deus Criou No 5 Dia
O relato da criação do quinto dia
No livro de Gênesis, capítulo 1, versículos 20 a 23, está registrado o que aconteceu no quinto dia da criação. A narrativa descreve que Deus ordenou que as águas abundassem de seres vivos e que aves voassem sobre a terra. Ele criou os grandes animais marinhos, todos os peixes e criaturas que habitam os oceanos, rios e lagos. Também criou todas as aves em suas diversas espécies. O texto bíblico é bem direto sobre isso. A água recebeu a ordem de produzir enxames de seres vivos, e Deus criou as grandes baleias, os peixes de todos os tipos e as aves de todos os gêneros. Ele abençoou essas criaturas e disse que fossem férteis e se multiplicassem. Depois de verificar que tudo estava conforme o que havia planejado, Deus viu que aquilo era bom e encerrou o dia. O que muita gente não leva em conta é que a narrativa da criação segue uma estrutura intencional. Os três primeiros dias estabelecem ambientes — luz e escuridão, céu e mar, terra seca e vegetação — e nos três dias seguintes esses ambientes são preenchidos com seres que os habitam. O quarto dia cria o sol, a lua e as estrelas para governar o dia e a noite e marcar as estações. O quinto dia preenche o céu e o mar. O sexto dia preenche a terra com animais terrestres e, por fim, com seres humanos.
Esse arranjo tem implicação teológica relevante. A ideia de que Deus não cria nada por acaso e que cada ambiente tinha um propósito específico já era uma resposta às cosmogonias da época, que atribuíam a origem do mundo a conflitos entre deuses. No relato bíblico, a criação é ordenada, intencional e falada por decreto, não forjada através de batalhas cósmicas. Os hebreus antigos tinham um conceito diferente de "criatura marinha" do que temos hoje. O termo "reatim" (), traduzido frequentemente como "grandes monstros marinhos" ou "grandes animais marinhos", aparecia em outros textos do Antigo Oriente Próximo como referências a criaturas caóticas que precisavam ser subjugadas. No Gênesis, essas mesmas criaturas são simplesmente parte da boa criação de Deus, sem qualquer tensão ou confronto. Isso era uma afirmação deliberada de monoteísmo. A palavra "nepeš" (), traduzida como "ser vivo" ou "alma", é usada tanto para os animais marinhos quanto para as aves. O texto não faz distinção hierárquica entre eles e os animais terrestres que viriam no sexto dia. Todos recebem a bênção de frutificar e multiplicar-se.
Se você está estudando esse texto para uma aula de escola bíblica, um estudo pessoal ou uma discussão em grupo, aqui estão alguns pontos que costumam gerar confusão e que valem a pena esclarecer. Primeiro, o texto não menciona a criação de insetos, répteis ou anfíbios no quinto dia. Esses aparecem no sexto dia junto com os animais terrestres. A divisão entre criaturas marinhas e aladas é clara no texto original, mas a classificação biológica moderna é bem diferente. Peixes, mamíferos marinhos, répteis aquáticos e invertebrados marinhos estão todos agrupados sob a expressão "seres vivos que a água produziu em abundância". Segundo, há uma questão interessante sobre a ordem cronológica da criação. O texto coloca as criaturas marinhas antes das aves, o que se alinha razoavelmente bem com o registro fóssil. Vida marinha surgiu muito antes de aves. Claro que o registro fósil é muito mais complexo do que o texto sugere, mas a basicidade do arranjo não é aleatória.

Eu já tive uma discussão acalorada com alguém que argumentava que o quinto dia era puramente simbólico e não continha nenhuma informação factual. Eu concordo que o texto tem camadas teológicas profundas, mas descartar completamente qualquer referência a eventos históricos reais também é um erro. O texto foi escrito para comunicar verdades sobre Deus, a criação e o lugar do ser humano nelas, e fazer dessa comunicação algo inteiramente não-histórico é tão problemático quanto ler o texto de forma literalista demais. Outro ponto que geralmente passa despercebido é que o texto menciona especificamente os "grandes animais marinhos" como um grupo distinto. Isso pode parecer um detalhe menor, mas carrega significado. Em um contexto onde faraós e outros governantes eram frequentemente comparados a crocodilos e hipopótamos — símbolos de poder caótico —, afirmar que até as maiores criaturas do mar foram criadas por um único Deus era uma declaração política e teológica poderosa. Para quem quer aprofundar no assunto, há algumas traduções e estudos que valem a pena consultar. A Nova Versão Internacional (NVI) oferece uma tradução bastante acessível. A Bíblia de Estudo Aryo Teixeira de Azevedo traz notas explicativas úteis. E o comentário de Genesis de John H. Walton, publicado pela Zondervan, aborda detalhadamente o contexto do Antigo Oriente Próximo e como o relato gEnésico se posiciona contra as cosmogonias vizinhas.
Uma coisa que eu aprendi na prática é que quando as pessoas perguntam sobre o quinto dia da criação, muitas vezes estão tentando resolver um problema maior: como harmonizar a narrativa bíblica com a ciência moderna. A resposta honesta é que existem abordagens diferentes e cada uma tem seus pontos fortes e fracos. A visão da diaresse literária argumenta que os seis dias são uma estrutura organizacional e não um cronograma literal. A visão do dia-era defende que cada "dia" (yom) representa um período geológico longo. A visão da criação antiga coloca a narrativa como um resumo compacto de eventos que ocorreram ao longo de milhares ou milhões de anos. Cada uma tem defensores respeitáveis e críticos igualmente respeitáveis. O que eu recomendo é que você leia o texto primeiro como ele é, prestando atenção no que ele realmente diz antes de impor categorias modernas a ele. Gênesis 1:20-23 é curto. Duas páginas numa Bíblia comum. Mas a densidade de informações ali é considerável quando você para para examinar cada palavra.
Se o seu interesse é puramente devocional, o texto convida à adoração. Deus fala e o mar se enche de vida. As aves preenchem os céus. Tudo é bom. A bênção divina cobre toda a criação não-humana. É um texto sobre a generosidade de Deus e a abundância do mundo que Ele criou. Se o seu interesse é acadêmico, há um campo inteiro de estudos sobre a literatura de criação no Antigo Oriente Próximo. O Enuma Elish babilônico, o mito de Baal cananeu, os textos hititas — todos oferecem paralelos e contrastes interessantes com Gênesis 1. A diferença fundamental é que, enquanto esses textos vizinhos envolvem violência, conflito e hierarquias divinas complicadas, Gênesis apresenta um Deus único que cria por meio de sua palavra e declara que tudo é bom. Uma observação final que muitos estudos ignoram: o quinto dia termina com a fórmula "foi a tarde e foi a manhã, o quinto dia". Essa fórmula aparece em todos os seis dias da criação, exceto no sétimo. O sétimo dia não tem essa terminação porque, segundo alguns estudiosos, o templo de Deus ainda não estava completo e a presença divina ainda não havia tomado residência de forma permanente. O sétimo dia, portanto, aponta para algo além do texto — uma dimensão escatológica que muitos leitores passam batido.
Se você quer uma leitura mais aprofundada sobre esse aspecto, o trabalho de Bruce K. Waltke, "Genesis: A Commentary", é extremamente detalhado. Ele aborda questão por questão, versículo por versículo, e não economiza nas discussões acadêmicas.
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