O Que É Escravo De Ganho
O sistema de escravos de ganho no Brasil colonial e imperial
Muita gente confunde escravo de ganho com uma forma leve de escravidão. Não era. Era um mecanismo de extração de renda muito eficiente que funcionava assim: o senhor alugava a pessoa escravizada para terceiros, ou permitia que ela exercesse uma profissão autônoma, e exigia o pagamento de um valor fixo por dia, por semana ou por mês. O que excedesse esse valor ficava com a pessoa escravizada, que podia acumulá-lo para alugar a própria alforria, mas a maior parte do tempo esse dinheiro simplesmente desaparecia em alimentos, roupa, remédios e outros custos de sobrevivência. Isso era comum nas cidades brasileiras entre os séculos XVIII e meados do XIX. Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Ouro Preto. Nas zonas rurais também existia, mas em escala bem menor e com características diferentes.
O que é escravo de ganho na prática histórica
A expressão aparece com frequência nos cartórios de alforrias, nos registros parochiais de batismo e óbito, e nos diários de viajantes estrangeiros. O mecanismo básico era o contrato verbal ou escrito entre o senhor e o terceiro que contratava o trabalho da pessoa escravizada. Quando era autonomia, o senhor simplesmente cobrava a quantia combinada e não se preocupava com o que acontecia depois. Um ponto que poucos entendem: o valor do ganho variava absurdamente conforme a habilidade da pessoa. Um marinheiro escravizado podia render muito mais do que um carregador de braço. Um barbeiro escravizado tinha chances reais de juntar dinheiro para a alforria. Um caseiro rural ou um trabalhador de engenho tinha muito menosMargem. A desigualdade interna desse sistema era brutal. No Rio de Janeiro, nos anos 1850, um estudo do historiador João José Reis calculou que cerca de metade da população escravizada urbana estava inserida de alguma forma nesse regime de ganhos. Em Salvador, a proporção era semelhante. Ou seja, não era exceção. Era a regra nas cidades.
O problema que eu sempre encontro quando vou investigar isso em arquivos é a fragmentação das fontes. Os livros de alforrias contam quando alguém conseguiu comprar a liberdade, mas não contam nada sobre o custo de vida, as doenças, as cobranças extras que os senhores inventavam. Eu já perdi dias procurando registros de recibos de pagamentos de ganhos em um arquivo municipal e só encontrei notas soltas de um cartório específico. A dica prática é cruzar os registros parochiais com os inventários post-mortem dos senhores. Os inventários muitas vezes listam os escravos como patrimônio e mencionam o valor mensal ou diário que cada um gerava. Isso dá uma noção muito mais realista do sistema do que apenas ler as alforrias. Outra nuance que os manuais introdutórios deixam passar: a relação entre escravo de ganho e o comércio informal de ruas. Muitas pessoas escravizadas que não tinham senhor diretamente alocado para um patrão específico trabalhavam como vendedores ambulantes, lavradores de pequenos roçados urbanos, ou prestavam serviços domésticos avulsos. O termo "ganheiro" aparece em processos criminais da época com frequência. Era uma forma de vida precária, mas também uma forma de agência limitada. Há também o aspecto jurídico. A legislação imperial não regulava detalhadamente o sistema de ganhos. Cabia ao direito privado, às relações contratuais informais e à prática dos cartórios. Isso significa que cada caso era diferente. Alguns senhores eram extremamente rigorosos com os valores. Outros negociavam. Havia casos documentados de senhores que cobravam o valor integral e simplesmente confiscavam qualquer excedente sob pretextos variados. E havia casos de pessoas escravizadas que conseguiam negociar valores menores quando estavam doentes ou idosas. Nenhuma dessas negociações tinha garantia legal. Tudo dependia da relação de força e da disposição do senhor.
:strip_icc()/s02.video.glbimg.com/x720/12062793.jpg)
O declínio do sistema começou a se acelerar depois da lei Eusébio de Queirós de 1850, que criminalizou o tráfico intercontinental de pessoas escravizadas, e principalmente após a lei do Ventre Livre de 1871. Com a redução do fluxo de pessoas recém-chegadas da África, o valor dos escravizados subiu e muitos senhores passaram a preferir cobrar fixo em vez de arriscar a autonomia dos ganhos. O sistema não acabou de uma vez. Continuou existindo de formas adaptadas até 1888, mas perdeu parte da centralidade que tinha no período anterior. Se você quer se aprofundar, o livro "Escravos e Cidadãos" do Jeffrey Fleisher é uma referência sólida, junto com os trabalhos de João José Reis sobre a revolta dos malês e a sociedade escravizada baiana. Para dados específicos sobre o Rio de Janeiro, consulte os anais da Bibliotheca Publica do Rio de Janeiro, que publicaram muito material arquivístico sobre o tema nos anos 1940 e 1950. Online, o acervo digital da Biblioteca Nacional tem imagens de documentos primários que você pode consultar gratuitamente.
Galeria
-
Escravos de Ganho -
Escravização de africanos: o que significa decisão histórica da ONU ... -
Nova Escola Box | Atividade de História: Do Reino do Ndongo ao ... -
Ensino de História em Portugal perpetua mito do 'bom colonizador' e ...