O Que É Pleonasmo Vicioso
Por que a banca cobra isso mesmo sabendo que é redundância
Quando eu comecei a correção de redações no Enem e nos vestibulares mais concorridos, logo percebi que os corretores tinham um vies particular contra o pleonasmo vicioso. Não era só uma questão estética ou de preferência estilística. A redundância ali aparece como um erro que compromete a coesão textual inteira, e isso pesa na nota. A questão prática é a seguinte: o texto pede economia verbal. Quando você repete uma informação que já está contida na estrutura gramatical da oração, você não está apenas sendo prolixo. Você está gerando ruído comunicativo, e isso se materializa em perda de pontos concretos.
O que é pleonasmo vicioso na prática
Definição rápida, sem rodeios. Pleonasmo vicioso é a repetição desnecessária de um elemento sintático que já está expresso pelo verbo ou pela estrutura da frase. O mecanismo mais comum envolve pronomes oblíquos átonos que funcionam como repetição de um sujeito ou objeto já claro no contexto. O exemplo clássico que todo mundo conhece: "subir os degraus". O verbo "subir" já carrega, em si, o sentido de movimento ascendente. Acrescentar o complemento direcional é repetir uma informação que o léxico do verbo já fornece. O mesmo ocorre com "descer as escadas", "entrar dentro", "sair de dentro", "olhar para baixo", "jogar fora os restos". O que os manuais não mostram com frequência é que esse tipo de redundância se comporta de forma diferente dependendo do nível de formalidade do texto. Em uma conversa cotidiana, "eu vi com meus próprios olhos" é aceitável como recurso enfático. Em uma dissertação argumentativa para concurso, essa mesma estrutura cai como erro de regência e redundância.
Como identificar na hora
O método mais rápido que eu desenvolvi foi testar a elibilidade do complemento. Se você retirar o complemento ou o advérbio e a frase continua gramaticalmente perfeita com o mesmo significado central, ali provavelmente existe pleonasmo vicioso. Pegue "ele desceu as escadas". Tire "as escadas". Sobra "ele desceu". A frase funciona perfeitamente e o núcleo semântico se mantém intacto. Logo, "as escadas" é redundante. Esse teste funciona na maioria dos casos comuns, mas tem uma limitação importante que os guias prescrevem com pouca clareza. Verbos como "chegar" e "atingir" carregam por padrão noções de alcance e destino. Se eu escrevo "cheguei lá em casa", o "lá" é marcador de direção que pode ser dispensado, mas "cheguei em casa" já é uma construção consolidada. A linha entre redundância aceitável e pleonasmo vicioso nesse caso é tênue, e depende muito do contexto discursivo.

Outro ponto que poucos mencionam: a diferença entre pleonasmo legítimo e vicioso. Pleonasmo legítimo existe quando a repetição cumpre função enfática ou estrutural clara. "Eu mesma fiz o trabalho" é pleonasmo pronominal legítimo, pois o "mesma" adiciona força ao sujeito. O vicioso, por outro lado, não adiciona nada ao conteúdo. Só ocupa espaço textual.
O problema que eu encontrei na correção real
Houve uma edição de prova do Enem em que um candidato escreveu "eu assisti o filme ontem". A banca considerou erro de regência, não pleonasmo. A distinção é importante porque mostra que o examinador precisa distinguir categorias gramaticais diferentes. "Assistir" no sentido de ver requer a preposição "a". Não há redundância ali, há erro de regência. Porém, em outro texto do mesmo candidato, li "nós vimos com nossos próprios olhos o acidente". Aqui sim, temos um pleonasmo vicioso estrutural. O verbo "ver" já pressupõe a percepção visual. O complemento "com nossos próprios olhos" não adiciona informação factual nova. Na correção, marquei isso como redundância e justifiquei separadamente do erro de regência anterior. O que aprendi na prática é que o erro mais frequente dos candidatos não é confundir pleonasmo vicioso com outra figura de linguagem. É a falta de sensibilidade para o nível de registro. O aluno escreve num tom coloquial e aplica essa escrita a um texto formal, e aí os pleonasmos viciosos aparecem como se fossem normas naturais da língua.
Como eliminar na produção textual
O procedimento que eu recomendo é bastante mecânico. Leia cada frase isoladamente e pergunte: esse complemento ou esse advérbio transporta informação nova? Se a resposta for não, remova. Exemplo prático com transformação direta: "O estudante subiu até o topo do morro." -> "O estudante subiu ao morro." ou simplesmente "O estudante subiu o morro."

"Ela entrou dentro da sala apressada." -> "Ela entrou na sala apressada." "Ele jogou fora os restos de comida." -> "Ele jogou os restos fora." ou "Ele descartou os restos de comida." Essa revisão geralmente corta entre 8 e 12% do volume textual original em redações típicas, o que melhora significativamente a percepção de concisão do corretor.
Quando o pleonasmo vicioso é menos grave
É honesto dizer que existem contextos onde essa redundância perde a força normativa. Em textos jornalísticos informais, em crônicas, em narrativa literária com voz marcadamente coloquial, o pleonasmo vicioso pode ser recurso estilístico. Ocorre frequentemente em falas de personagens para marcar sotaque social ou regional. O problema é que o aluno muitas vezes não identifica o registro correto. Ele aplica a redundância em texto dissertativo-argumentativo como se fosse um recurso válido, e isso compromete a avaliação. A regra prática é simples: em textos formais, em provas padronizadas, em comunicações institucionais, evite. Em textos criativos com licença poética, avalie se o efeito desejado justifica a repetição.
Dica técnica que poucos ensinam
Na revisão final de um texto, faça a leitura invertida: leia da última frase para a primeira. Isso quebra o fluxo automático da compreensão e força o cérebro a tratar cada proposição de forma isolada. A redundância passa a ser mais visível porque você não consegue mais se apoiar no contexto imediato para preencher lacunas de interpretação. Outro procedimento eficaz é ler em voz alta. O ouvido capta a repetição sonora antes dos olhos. Quando uma frase soa como um eco desnecessário, você já sabe onde intervir. O uso de ferramentas de análise textual automatizada pode ajudar nessa revisão, mas não confie cegamente nelas. Elas detectam repetições lexicalizadas, mas não distinguem com precisão entre redundância estrutural e repetição enfática legítima. A avaliação final sempre depende de julgamento humano.
Resumo sobre o que é pleonasmo vicioso para levar na hora da prova
Redundância estrutural com informação nula. Complementos e advérbios que repetem sentido já contido no verbo ou na estrutura. Elimine nos textos formais. Mantenha o senso de registro. Revise lendo de trás para frente e em voz alta. Teste a elidibilidade do complemento suspeito: se a frase sobrevive sem ele mantendo o sentido, elimine.
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