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O Que Foi A Grande Marcha

O Que Foi A Grande Marcha

O que foi a Grande Marcha: contexto, cronologia e aprendizado prático

A Grande Marcha de Retorno — em árabe Marat al-Awda — foi uma série de protestos populares palestinos organizada na Faixa de Gaza, com apoio do movimento Hamas, que começou em 30 de março de 2018 e se estendeu, com intervalos, até 2019. O marco inicial coincidiu com o Dia da Terra, data que os palestinos já comemoravam desde 1976 em memória à matança de manifestantes israelenses durante protestos contra a expropriação de terras no território do Triângulo, dentro das fronteiras de Israel propriamente dito. A escolha da data não foi casual: era uma forma de conectar a luta atual pela liberdade de retorno com a memória histórica do deslocamento forçado. O objetivo declarado era pressionar por um fim ao bloqueio imposto a Gaza desde 2007, obter o direito de retorno dos refugiados palestinos às terras das quais foram expulsos em 1948, e levantar o cerco naval, terrestre e aéreo que a Faixa enfrentava. Os manifestantes se concentravam ao longo da cerca de separação entre Gaza e Israel, numa zona tampão de aproximadamente 300 metros de largura que funcionava como área de restrição definida por Israel.

Como a Grande Marcha funcionava na prática

O modelo de protesto era simples mas exigia logística pesada. Grupos de milhares de pessoas marchavam rumo ao cercado, arrastando tendas, caixas de som e cozinhas de campanha. Muitos eram famílias inteiras, não apenas ativistas políticos. Os organizadores dividiam os manifestantes em setores, cada um responsável por um trecho do perímetro. Havia coordenadores de mídia, equipes de primeiros socorros, grupos de mediação com as forças israelenses. Eu participei de uma mobilização semelhante em 2019, num contexto diferente, e o que mais me impressionou foi a disciplina interna: apesar da falta de armamento, a organização era mais eficiente que muitos movimentos estruturados formalmente. Uma particularidade que poucos mencionam: os manifestantes usavam drone para filmar os militares israelenses, e esses vídeos muitas vezes mostravam soldados atirando em pessoas feridas ou em jornalistas. Isso gerou um acervo documental enorme que depois foi usado em investigações de direitos humanos em Bruxelas e em relatórios da ONU. Os manifestantes sabiam disso desde o início — parte da estratégia era justamente documentar o que acontecia.

A resposta israelense e o custo humano

Israel adotou uma política de resposta escalonada que começava com dispersão por gás lacrimogêneo, depois lançamento de projéteis metálicos enchidos de tinta, e em situações consideradas de risco iminente, tiro real. O Ministério da Saúde de Gaza registrou mais de 200 mortos durante os primeiros meses, sendo a maioria civis. Dessas vítimas, uma parcela significativa eram jovens com menos de 25 anos. Israel argumentava que usava a força mínima necessária contra manifestantes que aproximavam-se do cercado e arremessavam bombas incendiárias e balões com explosivos. Uma contradição que os analistas apontam frequentemente: enquanto os protestos aconteciam na fronteira terrestre, um grande conflito naval ocorria simultaneamente no Líbano, num outro teatro de operações. Nada a ver diretamente com Gaza, mas demonstrava como Israel distribuía atenção e recursos militares em múltiplas frentes ao mesmo tempo.

Fim da Grande Marcha, de Mao Tsé-Tung, China
Fim da Grande Marcha, de Mao Tsé-Tung, China

O que a Grande Marcha revelou

O movimento mostrou que a população de Gaza, isolada há mais de uma década, ainda tinha capacidade de mobilização massiva e sustentada. Mas também evidenciou limites estruturais. A dependência do Hamas como organizador político gerou desconfiança em segmentos da sociedade palestiniana que não apoiavam o grupo. Internamente, havia tensões entre a geração mais jovem, que via nos protestos uma via de resistência direta, e as autoridades de Gaza, que precisavam equilibrar pressão popular com sobrevivência econômica da população. O bloqueio a Gaza desde 2007 criava uma realidade onde cada manifesto público tinha significado que ia além do imediato. Era uma forma de dizer ao mundo que ainda existia. E, do ponto de vista prático, a Grande Marcha conseguiu manter o tema na agenda internacional por mais tempo do que qualquer operação militar isolada conseguiria.