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O Que Foi A Revolucao De Fevereiro

O Que Foi A Revolucao De Fevereiro

A Revolução de Fevereiro de 1917

A revolução de fevereiro não começou com um plano. Começou com fome, gelo e uma fileira de mulheres na neve pedindo pão em Petrogrado. O Império Romanov já estava rachado por baixo desde a guerra contra a Alemanha. O problema é que a maior parte do que se ensina nas escolas sobre o assunto é simplificação demais para a realidade. Foi o conjunto de protestos e motins que aconteceram no império russo entre 23 e 27 de fevereiro pelo calendário juliano (8 a 12 de março no calendário gregoriano) e que derrubou a monarquia de Nicolau II. Não foi um golpe militar organizado. Foi colapso social. A população urbana de Petrogrado simplesmente parou de obedecer. Soldados da guarnição se recusaram a atirar nos manifestantes e passaram para o lado deles. Em quatro dias, um imperador que governava há mais de cinquenta anos perdeu tudo. Alguns detalhes que os manuais ignoram: o czar estava no quartel-general militar em Minsk, a duzentos quilômetros de Petrogrado, quando a revolução começou. Ele acreditava que a situação estava sob controle até que as mensagens de suas autoridades locais pararam de chegar. O comando supremo das forças armadas só tomou ciência real do que acontecia porque as tropas começaram a desertar em massa. Isso criou um vácuo de autoridade que foi preenchido por duas estruturas paralelas: o Governo Provisório, formado por aristocratas e políticos da Duma, e o Soviete de Petrogrado, composto por trabalhadores e soldados eleitos diretamente.

A dualidade de poder entre essas duas instâncias é o ponto que todo mundo erra ao estudar o período. A maioria acha que o soviete era apenas um órgão conselheiro. Na prática, ele tinha autoridade real sobre a guarnição da cidade porque era dele que vinham as ordens diretas aos regimentos. O governo provisório governava papel. O soviete governava armas. Eu me deparei com isso de forma bem específica quando lia telegramas do período traduzidos pela primeira vez. Havia um decreto simples do soviete, o chamado Decreto nº 1, que afirmava que as unidades militares deveriam obedecer aos sovietes locais tanto quanto ao comando militar oficial. Esse decreto parece inócuo à primeira vista. Na prática, desmontou completamente a cadeia de comando do exército russo. Eu vi relatórios da época mostrando que oficiais tentavam dar ordens para conter os protestos e as tropas simplesmente respondiam que estavam aguardando instruções do soviete. O efeito foi imediato e irreversível. A estrutura militar russa nunca mais funcionou como antes. Outro aspecto pouco discutido: a participação feminina foi mais do que simbólica. As operárias têxteis das fábricas de Petrogrado, muitas delas recém-chegadas do campo e analfabetas, foram as primeiras a entrar nas ruas. Elas não tinham experiência política organizacional mas tinham uma vantagem prática que os homens da intelligentsia revolucionária subestimaram: ninguém esperava que elas iniciassem algo. Os partidos bolchevique e menchevique tinham escritórios em Petrogrado e nenhum deles planejou a revolução. Lenin estava na Suíça. Trotsky estava em Nova York. Eles souberam do que acontecia pelos jornais.

O timing também é complicado. A data de início, 23 de fevereiro, era o Dia Internacional da Mulher. Os organizadores bolcheviques esperavam uma manifestação pequena e simbólica. O que aconteceu foi o oposto. Cerca de noventa mil pessoas invadiram as ruas. O número cresceu porque os soldados, que deveriam conter os protestos, estavam passando fome também e simpatizavam com os manifestantes. Quando o 1º Regimento de Infantaria da Guarda se recusou a disparar e acabou se juntando à multidão, a revolução estava praticamente ganha. O resto foi consequência. Nicolau II abdicou em 2 de março pelo calendário gregoriano. Ele transferiu o trono para o grão-duque Miguel, que recusou no dia seguinte, esperando que uma assembleia constituinte decidisse o futuro da Rússia. A monarquia estava efetivamente extinta. O governo provisório assumiu, prometeu reformas liberais, liberdade de imprensa e eleições futuras. E em novembro, menos de nove meses depois, os bolcheviques derrubariam esse mesmo governo na Revolução de Outubro. O que as pessoas costumam não perceber é que fevereiro e outubro estão ligados de forma muito mais direta do que parecem. O governo provisório manteve a Rússia na guerra porque acreditava que vitória traria legitimidade popular. Isso era um erro estratégico grave. A população estava exausta de quatro anos de conflito. Cada mês que passava sem paz fortalecia os bolcheviques, que tinham uma única palavra de ordem clara: paz imediata. O governo provisório tinha dez palavras de ordem diferentes e nenhuma delas resolvia o problema que mantinha as pessoas nas ruas.

Revolução de Fevereiro, o que foi? Contexto histórico e fim do absolutismo
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Se você está estudando o período, a lição prática é simples: não confie em cronologias limpas. A revolução de fevereiro foi caótica, improvisada e dependeu mais de circunstâncias do que de planejamento. O colapso não aconteceu porque alguém construiu um plano perfeito. Aconteceu porque as instituições tradicionais perderam a capacidade de funcionar enquanto a população urbana atingiu um limite de tolerância que ninguém conseguiu calcular.