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Olho Por Olho Dente Por Dente

Olho Por Olho Dente Por Dente

Como funciona o princípio de equivalência na prática

Quem trabalha com perícias, seguros ou direito civil já se deparou com a expressão olho por olho dente por dente. Ela resume uma ideia simples: a compensação deve equivaler ao dano sofrido. Na teoria parece óbvio. Na prática, não é nada disso. O princípio exige que se determine o valor exato do prejuízo e que a contraprestação seja idêntica em magnitude. Isso parece direto até você abrir um processo de avaliação de danos materiais. A primeira coisa que dá trabalho é isolar o que é dano direto do que é consequential. Dano direto é fácil. O consequential é onde a maioria erra. Em um caso meu, avaliava-se um incêndio industrial que destruiu parte da linha de produção. O dano material era claro: máquinas, infraestrutura, estoque. Mas a paralisação durou 47 dias. A perda de faturamento foi enorme. O cliente queria tudo. O segurador queria pagar só o Reparado. A questão era quanto disso era recuperável e quanto era especulativo.

A solução que funcionou foi recuar para dados históricos da própria empresa. Peguei notas fiscais dos últimos 24 meses, calculei a média de faturamento por dia útil, apliquei o fator de sazonalidade do período e multipliquei pelos dias de parada. Depois retirei uma margem de — cerca de 15% — porque mesmo em condições normais nenhuma operação funciona a 100%. O resultado foi um valor que ambas as partes aceitaram sem precisar de laudo pericial adicional. O ponto que ninguém conta é que esse tipo de cálculo funciona bem para dano patrimonial mensurável e não funciona de forma alguma para dano moral, dano estético ou perda de oportunidade. Nesses casos, a equivalência exata não existe. O juiz ou o arbitrador vai usar parâmetros subjetivos e a discussão acaba sendo sobre precedentes, não sobre matemática. Outro erro comum é confundir custo de reposição com valor de mercado. Se você tem uma máquina importada descontinuada, o custo de reposição pode ser o dobro do valor de mercado do bem. Pagar o reposição integral pode gerar enriquecimento sem causa. A solução técnica é usar a depreciação contábil e o valor de tabela como referência, ajustando apenas quando a raridade do bem justificar diferencial.

Se você precisa aplicar isso no dia a dia, o caminho mais rápido é montar uma planilha padronizada com colunas para: descrição do dano, documento comprobatório, método de cálculo, fator de ajuste e valor final. Use sempre a mesma fonte de dados para cada item. Planilhas desorganizadas geram inconsistências que são facilmente exploradas em contraperícia. O modelo tem limitações sérias. Quando o dano envolve ativos intangíveis, como carteira de clientes ou reputação, a equivalência pura não se sustenta. Nesses cenários, o mais honesto é reconhecer a impossibilidade de cálculo exato e recorrer a métodos indiretos, como lucro cessante projetado ou valuation por múltiplos de mercado. Não tente forçar uma conta de padaria em algo que não tem conta de padaria. Para quem quer se aprofundar, a base normativa no Brasil está nos arts. 186 e 927 do Código Civil, que tratam da obrigação de reparar o dano. A doutrina de Nelson Nery Junior e o manual do CNJ sobre perícias cíveis ajudam a estruturar o raciocínio. Na prática, o que separa um laudo sólido de um que é derrubado em contraperícia é a trilhagem documentada de cada premissa. Sem documento, não há equivalência.

Olho por olho, dente por dente - Ensinar História - Joelza Ester Domingues
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