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Onde Vivem Os Guarani

Onde Vivem Os Guarani

Onde vivem os guarani: uma visão prática

A questão onde vivem os guarani parece simples à primeira vista, mas a resposta depende muito de qual grupo guarani estamos falando. O termo "guarani" não se refere a um único povo homogêneo. É um conjunto de povos que compartilham raízes linguísticas e culturais, mas que hoje se organizam em nações distintas com territórios bem específicos. No Brasil, os povos guarani estão presentes principalmente em quatro estados. No sul de São Paulo, especialmente na região metropolitana e no litoral, vivem grupos mbyá e terena. No Paraná e em Santa Catarina, há comunidades mbyá e kaiowá. No Rio Grande do Sul, os mbyá ocupam terras como a Ilha das Pedras e o Cerro do Tapes. Em Mato Grosso do Sul, a presença kaiowá e ñandeva é densa, com centenas de aldeias espalhadas pelo estado. Uma coisa que pouca gente leva em conta é que a presença guarani no sudeste brasileiro não é recente. Grupos mbyá vivem na região de São Paulo desde antes da colonização portuguesa, e muitos desses territórios têm histórico documentado que remontava ao século XVI. O problema é que a urbanização engoliu grande parte desses territórios tradicionais, então hoje as terras mbyá no estado de São Paulo são fragmentadas e circundadas por áreas metropolitanas densas. Já ouvi gente dizer que não existe Guarani em São Paulo. Ouvi isso de professores, de servidores públicos, de quase todo mundo. Não faz sentido.

Guarani no Paraguai

No Paraguai, os guarani são a maioria indígena do país e vivem principalmente nas regiões orientais, perto da fronteira com o Brasil e a Argentina. O departamento de Itapúa, Cordillera e Paraguarí concentram um número significativo de aldeias. No Paraguai, o guarani é língua oficial alongside do espanhol, então a presença cultural é visível em todo o território, não apenas em aldeias isoladas. Isso cria uma dinâmica diferente da que vemos no Brasil, onde os guarani costumam viver em terras demarcadas ou em processo de demarcação, muitas vezes sob pressão de madeireiras e produtores rurais. Na Argentina, os guarani — mais especificamente os chané e os tapé — vivem no norte, no província de Misiones. Na Bolívia, os guarani conhecidas localmente como guarayu habitam o vale amazônico e a região do Chiquitós, nos departamentos de Santa Cruz e Beni. No Uruguai, os guarani praticamente desapareceram como população distinta após o genocídio colonial, mas existem esforços recentes de reafirmação identitária em Montevidéu e no interior. Uma particularidade que merece atenção: os guarani do Paraguai e os guarani do Brasil muitas vezes se reconhecem como povos diferentes apesar da língua e da cultura compartilhadas. A fronteira política divide comunidades que historicamente se relacionavam livremente. Durante minha experiência trabalhando com documentação territorial no oeste do Paraná, encontrei famílias kaiowá que tinham parentes do outro lado da fronteira no Paraguai e que cruzavam regularmente — até que o fechamento das fronteiras durante a pandemia e as restrições de segurança fizeram esse fluxo praticamente parar. A situação melhorou parcialmente depois, mas o impacto foi real.

Grupos e subgrupos

Os principais grupos guarani contemporâneos incluem os mbyá, os kaiowá, os ñandeva, os tupiniquim, os guarayu, os chiripá e os chané. Cada um tem sua própria língua ou variante dialetal dentro do tronco guarani oriental. Os mbyá e os ñandeva são linguisticamente muito próximos, tanto que em alguns contextos são tratados como variantes de um mesmo grupo. Os kaiowá têm uma língua distinta, mas mutuamente inteligível com o guarani paraguaio. Os tupiniquim, presentes no litoral baiano e capixaba, têm uma história colonial bastante diferente dos outros grupos. Um erro comum é achar que todos os guarani vivem em aldeias rurais isoladas. Os mbyá, por exemplo, têm uma forte presença urbana. Em São Paulo, há comunidades mbyá ativas em bairros como Jaçanã e Tremembé, onde mantêm práticas culturais e religiosas apesar da distância dos territórios tradicionais. Eles fazem peregrinações, rituais e mantêm laços com as aldeias do interior. Isso é importante de entender porque políticas públicas muitas vezes negligenciam populações indígenas urbanas, tratando-as como se não existissem.

🗺 Povos Indígenas das Américas: Guarani-Kaiowá
🗺 Povos Indígenas das Américas: Guarani-Kaiowá

Fontes para consulta

Para informações atualizadas sobre terras guarani, a FUNAI publica dados regulares no seu sistema de cadastramento indígena. O ISA (Instituto Socioambiental) mantém um banco de dados detalhado sobre os povos guarani no Brasil, com mapas e notícias atualizadas. No Paraguai, a CID-G para questões territoriais e a CIOB para questões culturais são referências úteis. Para a Argentina, o CONABIP cuida dos registros oficiais.