POTHIEDU Não Decore a Resposta. Entenda o Caminho

Os Judeu Acredita Em Deus

Os Judeu Acredita Em Deus

A questão teológica que todo mundo faz mas poucos entendem direito

A resposta curta é que sim, o judeu acredita em Deus. Mas dizer isso sem qualificativos é como chamar um elefante de animal e esperar que alguém entenda como ele funciona. A crença judaica em Deus tem camadas que vão muito além do conceito cristão ou islâmico. Eu já passei por situações em shuls onde pessoasachavam que estar do lado de fora era suficiente pra entender o que acontece ali dentro. Não é. O judeu Ortodoxo acredita num Deus único, indivisível, onipotente e criador do universo. Esse Deus não é abstrato. Ele se revelou a Abraão, negociou com Moisés, falou através dos profetas e continua presente na história. A Torá não é um livro metafórico pro judeu religioso. É a palavra divina transmitida oral e por escrito. Quando um judeu ortodoxo lê Shemá, ele não está fazendo um exercício literário. Ele está reafirmando algo que considera factual e eterno.

os judeu acredita em deus com nuances que desafiam categorias simples

Aqui entra o problema que eu enfrentei numa discussão com um colega seminarista. Eu perguntei a um rabino haredi se Deus tinha um corpo. Ele olhou pra mim como se eu tivesse feito a pergunta mais ingênua do mundo e respondeu que atribuir forma física a Deus é heresia. Aí eu virei pra outro rabino, mais cabalista, e perguntei a mesma coisa. A resposta foi completamente diferente. Pra ele, existia uma dimensão onde ashekhinah (a presença divina) podia ser descrita em termos quase corporais através da linguagem da Zohar. Eu fiquei na mão. Ninguém errou. Ambos estavam certos dentro dos seus respectivos sistemas teológicos. Isso é o que torna a pergunta "o judeu acredita em deus" tão problemática. Depende de qual judeu. Um judeu reformista pode ver Deus como uma força moral abstrata. Um judeu haredi vê Deus como o sujeito ativo de cada evento microscópico. Um judeu secular pode usar a palavra "Deus" como código cultural sem qualquer compromisso teísta real. E ainda tem a questão do livre arbítrio versus predestinação, que divide os pensadores judeus desde Rashi até Maimônides e continua até hoje. Maimônides, o Rambam, sistematizou treze princípios da fé no século doze. O primeiro e mais importante é a existência de Deus criador. Mas ele também disse que Deus não pode ser definido por atributos positivos, só por atributos negativos. Isso significa que você pode dizer o que Deus NÃO é, mas nunca o que Ele É. A maioria dos judeus comuns não manja disso. Os rabinos ensinam, mas o conhecimento fica nivelado. Eu já vi judeus praticantes repetirem que "Deus tem misericórdia" como se fosse um conceito simples, quando na verdade a teologia judaica séria complica isso enormemente.

O judaísmo também tem aquela tensão permanente entre filosofia e misticismo. O Talmude registra debates onde a lógica prevalece. A Cabalá entra num registro completamente diferente, com Sefirot, mundos espirituais, e uma cosmologia que lembra mais ficção especulativa do que teologia convencional. Um judeu pode observar todas as mitzvot perfeitamente e ainda acreditar que o mundo tem níveis de realidade que a razão sozinha não alcança. Isso confunde muita gente que tenta encaixar o judaísmo em caixinhas ocidentais. Tem ainda a questão do povo judeu como entidade teológica. Deus não criou só o universo. Ele fez uma aliança com um grupo específico de pessoas. A Torá é a constituição dessa aliança. Isso significa que acreditar em Deus no judaísmo não é só uma posição intelectual. É um compromisso coletivo. Você pode duvidar de Deus pessoalmente e ainda assim fazer parte do pacto. A história judaica tá cheia de figuras bíblicas que questionaram Deus diretamente. Jó é o exemplo óbvio, mas Moisés também discutiu com Ele várias vezes. O judaísmo não pune o questionamento. Punir a desobediência às mitzvot, sim. São coisas diferentes. Eu tive que lidar com isso praticamente quando estava escrevendo sobre liturgia judaica. Um pesquisador me perguntou se judeus ateus participavam de serviços religiosos. A resposta é complicateda. Muitos sim. Eles não creem, mas mantém a prática por tradição, identidade ou obrigação familiar. Isso gera atrito dentro da própria comunidade. Os rabinos ortodoxos veem isso como hipocrisia. Os reformistas veem como evolução natural. Os conservadores tentam encontrar um meio termo que satisfaz a ninguém. A realidade é que 40% dos judeus americanos se identificam como culturais ou afiliados, segundo pesquisas do Pew Research Center, e muitos deles mantêm práticas religiosas sem crença teísta explícita.

Os Judeus Acreditam em Jesus? - YouTube
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A diferença prática entre crença e observância

Aqui está algo que os não-judeus quase nunca captam. No judaísmo, praticar e crer são coisas separáveis. Você pode ser um judeu completamente observante e ter dúvidas profundas sobre a natureza de Deus. Ou pode acreditar em Deus sem seguir nenhuma regra. O judaísmo dá mais peso à ação do que à crença. Fazer o kidush na sexta à noite conta mais do que acreditar firmemente que Deus existiu antes da criação. Isso é radicalmente diferente do cristianismo, onde a fé correta é o requisito fundamental. No judaísmo, a fé correta é desejável, mas a ação é o que sustenta o pacto. Eu conheço um judeu que era professor universitário de física quântica e não acreditava em Deus de forma convencional. Atingia todas as mitzvot, liderava serviços, lia Torá toda semana. Quando perguntaram a opinião dele sobre teísmo, ele disse algo tipo "eu acho que Deus é o programa por trás do hardware do universo". Isso não é ateísmo. Também não é teísmo clássico. É algo que cabe dentro do judaísmo apesar de não se encaixar em nenhuma caixa teológicapadrão. O problema é que essa amplitude gera confusão externa. Quando alguém pergunta "o judeu acredita em deus", a resposta depende do contexto. Se você pergunta pra um judeu ultraortodoxo de Jerusalém, ele vai dar uma resposta firme e direta. Se você pergunta pra um judeu brasileiro do movimento massorti, a resposta provavelmente vai envolver nuances. Se você pergunta pra um judeu que mal vai à sinagoga duas vezes por ano, pode receber um "claro, né" dito com ironia ou evasiva.

Existe também a questão do Messias. Todo judeu tradicional acredita na vinda do Mashia. Mas o que isso significa varia enormemente. Alguns esperam um líder político que reunifique Israel. Outros um líder espiritual. Correntes hassídicas têm expectativas específicas baseadas em teachins de seus rebeis. O movimento sionista religioso reinterpretou a vinda do Messias como algo que já começou com o Estado de Israel. Isso gerou debates acalorados entre os setores mais traditionalistas, que veem isso como usurpação escatológica. O ponto é que a crença messiânica é um dos treze princípios de Maimônides, mas sua interpretação é um campo minado. O judaísmo também lida com o problema do sofrimento de forma única. A teodiceia cristã e islâmica tentam explicar por que Deus permite o mal. O judaísmo tem uma relação mais conflituosa com isso. Jó é o texto central, mas a tradição judaica não fornece uma resposta definitiva. Em vez disso, há uma tradição de discutir com Deus. O Talmude mesmo registra debates teológicos onde os sábios argumentam contra decisões divinas. Isso é raro em outras religiões abraâmicas. Significa que a dúvida não é um pecado no judaísmo. A desesperança de desistir do povo judeu, talvez. Quando eu fui a Israel pela primeira vez pra fazer pesquisa de campo, percebi que a pergunta "você acredita em Deus" era quase ofensiva pra muitos judeus. Não porque a resposta fosse óbvia, mas porque a pergunta em si era mal formulada. Eles entendiam que crença em Deus não era um ponto único. Era um espectro com múltiplas dimensões. A pergunta certa seria "qual é a sua relação com a tradição judaica e com o conceito de Deus dentro dela".

O papel da lei judaica nessa equação

O Halachá, a lei judaica, não trata principalmente de crença. Trata de comportamento. Isso cria uma situação onde pessoas com crenças muito diferentes podem praticar o judaísmo da mesma forma. Um judeu pode acreditar que a Torá foi ditada palavra por palavra por Deus no Sinai. Outro pode acreditar que é um texto sagrado inspirado, mas humano. Outro ainda pode ver tudo como mitologia cultural. Todos os três podem cozer, jejuar no Yom Kipur, estudar Talmud e manter uma casa kosher. A diferença está na fundamentação, não na prática. Isso incomoda tanto os tradicionalistas quanto os céticos. Os tradicionalistas acham que sem crença ortodoxa a prática perde sentido. Os céticos acham que a prática sem crença é vazia. A maioria dos judeus ocupa um espaço pragmático no meio. Eu observei isso em comunidades brasileiras onde as famílias mantêm tradições por hábitos enraizados, não por convicção teológica. Os avós acreditavam. Os pais mantêm por costume. Os netos às vezes redescobrem a fé, às vezes abandonam tudo. O padrão não é linear. A sinagoga funciona como espelho disso. Nos serviços de Shabat, você vê judeus crentes ao lado de judeus que vão porque é domingo e não têm nada melhor pra fazer. Ambos fazem as mesmas orações. Ambos levantam a Torá. Ambos partilham a refeição pós-serviço. A comunidade sustenta a prática independentemente da crença individual. Esse é talvez o aspecto mais distintivo do judaísmo. A aliança é coletiva, não individual.

Os Judeus acreditam em JESUS? e os Iraelitas quem são? - YouTube
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Existe um limite prático pra essa tolerância. Se alguém nega publicamente os princípios fundamentais, como a resurreição dos mortos ou a origem divina da Torá, a comunidade ortodoxa pode declarar essa pessoa herética. O termo é heretickim no hebraico moderno, mas o conceito remonta ao Talmude. Na prática, isso raramente resulta em expulsão formal. Resulta em isolamento social dentro da comunidade. Quem vive num gueto haredi e nega a Torá Oral simplesmente não vai mais ao study hall. A exclusão é social, não jurídica.

Conclusão sobre uma pergunta que nunca tem resposta única

O judeu acredita em Deus. A afirmação é verdadeira num nível básico e profundamente problemática num nível detalhado. A crença judaica não é monolítica. Ela abrange desde o teísmo filosófico mais rígido até o humanismo secular que mantém a cultura judaica viva sem referência divina explícita. O que une essas posições não é uma doutrina específica, mas uma tradição, uma história e um compromisso coletivo com o povo judeu. Se você quer entender o judaísmo, pare de perguntar se os judeus acreditam em Deus. Pergunte como cada judeu individual se relaciona com Deus, com a tradição e com a comunidade. A resposta vai variar. Vai ser honesta. Vai ser complicada. Vai refletir mil anos de debate interno que nenhuma religião abraâmica iguala em profundidade.