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Pandemia Que Mais Matou

Pandemia Que Mais Matou

Entendendo quais pandemias foram as mais letais da história

Quando se fala em pandemia que mais matou, a resposta depende de como você conta os números e de qual período da história está analisando. A Peste Negra, que devastou a Eurásia entre 1347 e 1351, é frequentemente citada como a pandemia com maior número absoluto de mortes, com estimativas variando entre 75 e 200 milhões de vítimas. O problema é que a Europa inteira tinha cerca de 70 a 80 milhões de habitantes na época, então estamos falando de algo na faixa de 30% a 60% da população mourando. Os registros dessa época são imprecisos, e muita gente que morreu de causas não documentadas foi simplesmente absorvida nas estatísticas oficiais de peste. Depois da Peste Negra, outras pandemias se destacam em termos de letalidade. A Gripe Espanhola de 1918-1920 matou entre 50 e 100 milhões de pessoas em apenas dois anos, mais do que a Primeira Guerra Mundial. Uma característica importante dessa pandemia é que ela atingiu desproporcionalmente jovens adultos saudáveis, algo incomum para gripe, que normalmente mata idosos e muito jovens. Isso acontece porque o vírus desencadeou uma tempestade de citocinas — uma resposta imune excessiva que danifica os pulmões de quem tem sistema imunológico forte. O HIV/AIDS é outra resposta válida para pandemia que mais matou se considerarmos um período mais longo. Desde que o vírus foi identificado em 1981, estima-se que cerca de 40 milhões de pessoas morreram de causas relacionadas à AIDS. O diferencial aqui é a cronicidade. Não foi um surto rápido, mas uma pandemia contínua que matou lentamente ao longo de décadas. O Brasil é um dos países com maior número absoluto de casos de HIV no mundo, com mais de 700 mil pessoas vivendo com o vírus atualmente.

COVID-19 ficou entre as pandemias mais mortais do século XXI, com estimativas de 7 a 20 milhões de mortes diretas e indiretas desde 2020. O problema em comparar COVID com Peste Negra ou Gripe Espanhola é a qualidade dos dados. Países com sistemas de saúde frágeis frequentemente subnotificam mortes, enquanto nações desenvolvidas tendem a superestimar mortes por COVID como causa primária. A OMS publicou em 2023 um relatório de excesso de mortalidade que estimou 14,9 milhões de mortes excedentes globally entre março de 2020 e dezembro de 2021, números que vão muito além dos casos oficialmente reportados.

Como pesquisadores chegam a esses números

A metodologia para estimar mortes por pandemia varia drasticamente conforme a época. Para a Peste Negra, historiadores trabalham com registros parishiais, livros de enterros, crônicas municipais e documentos fiscais medievais. Um trabalho relevante feito por Mark Bailey em 2018, analisando documentos da Inglaterra rural pós-peste, sugeriu que a mortalidade pode ter chegado a 45-50% em algumas regiões, não apenas nos 30-40% que se acreditava anteriormente. O viés é óbvio: documentos sobrevivem melhor para regiões urbanas e eclesiásticas, enquanto áreas rurais pobres deixaram registros quase inexistentes. Para a Gripe Espanhola, o desafio é diferente. A maioria dos países não mantinha registro sistemático de causas de morte em 1918. O que se tem são estimativas baseadas em estudos retrospectivos de populações específicas — ilhas do Pacífico, aldeias inuit no Canadá, populações indígenas na Índia e na África. Esses estudos pontuais mostram taxas de mortalidade absurdas: em Ontong Jawa, uma atol das Ilhas Salomão, 19% da população inteira morreu em duas semanas. Em algumas comunidades inuit, a taxa foi ainda maior. No caso do HIV/AIDS, os dados são mais confiáveis porque existem sistemas de vigilância epidemiológica modernos. O UNAIDS atualiza regularmente seus relatórios globais. O problema persistente é a subnotificação em países africanos subsaarianos, onde o teste voluntário ainda tem baixa adesão em populações rurais. Muitos infectados morrem sem jamais saber que tinham HIV.

Março teve todos os 31 dias em que a covid mais matou no Brasil
Março teve todos os 31 dias em que a covid mais matou no Brasil

Um ponto que todo mundo erra

A pegadinha comum é confundir taxa de letalidade com número absoluto de mortes. A varíola tem uma taxa de letalidade de cerca de 30%, mas foi erradicada. A poliomielite paralisa cerca de 1 em 200 infectados, mas também está praticamente controlada. COVID-19 tem uma taxa de letalidade muito menor — abaixo de 1% na maioria das populações vacinadas — mas seu alto potencial de transmissão fez com que o número absoluto de mortes fosse enorme. Outro erro é olhar só para mortes confirmadas. Na Peste Negra, muitas pessoas morriam tão rápido que não eram registradas. Em cidades como Florença, onde Boccaccio escreveu o Decamerão, relatórios da época mencionam valas comuns sendo cavadas sem registro individual. A estimativa de 25 milhões de mortos na Europa em 1350 já é uma reconstrução moderna baseada em fragmentos. O número real pode ser maior ou menor, e provavelmente não sabereiemos jamais com certeza. Se você está estudando o tema, recomendo começar pelos dados do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME), que faz modelagens de carga global de doença com metodologias transparentes. O relatório Global Burden of Disease atualizado periodicamente oferece as estimativas mais completas disponíveis. Para a Peste Negra, o trabalho de Giles Gasper na Durham University e as revisões de Christopher Duncan são boas referências acadêmicas. Para COVID, o (excesso de mortalidade) publicado pela OMS e pelo Our World in Data é mais confiável que os números de casos confirmados.