Para Separar Dois Líquidos Que Não Se Misturam Usamos A
Separando fases com funil de separação
A para separar dois líquidos que não se misturam usamos a funil de separação, também chamado de funil de decantação. Parece simples no papel, mas tem uma série de detalhes práticos que quem nunca manuseou esse equipamento no laboratório geralmente não leva em conta até errar na primeira vez. O funil de separação é basicamente um recipiente com formato de pêra ou cone invertido, equipado com uma tampa e uma torneira na base. Você despeja a mistura bifásica lá dentro, deixa em repouso até que as fases se separem completamente por densidade, e então abre a torneira para drenar a fase inferior lentamente. A fase superior fica retida no funil e pode ser recolocada depois por meio da parte superior. A lógica por trás disso é a diferença de densidade entre os dois líquidos. O mais denso desce e ocupa a parte de baixo. O menos denso flutua. Se os líquidos forem realmente imiscíveis, a interface entre as duas fases fica bem definida e a separação é limpa. Água e hexano, por exemplo, se separam quase perfeitamente.
O que as pessoas costumam não considerar é o tempo de repouso. Depende do volume, da viscosidade e de quão nítida é a interface. Em condições normais, com volumes até 250 mL e solventes orgânicos comuns, quinze minutos costuma ser suficiente. Se estiver fazendo extrações sequenciais com agitação vigorosa, as emulsões podem persistir por mais tempo. Eu já perdi meia hora num funil esperando uma interface que simplesmente não descia porque a água salgada havia estabilizado uma emulsão estável com diclorometano.
O procedimento passo a passo
Comece verificando se a torneira está fechada antes de colocar qualquer líquido. Insira a rolha ou a tampa de vidro no topo. Despeje a mistura bifásica pelo bocal. Aguarde a separação das fases até que a linha de interface fique bem visível e nítida. Se necessário, faça ventilação durante o processo. Quando há volatilização de solvente como éter ou diclorometano, a pressão interna pode aumentar rapidamente. Abra a torneira de trás para frente, apontando para uma área segura, para aliviar a pressão antes de iniciar a drenagem. Com a torneira levemente aberta, drene a fase inferior em um frasco separado. Reduza a velocidade quando a interface se aproximar da ponta do funil. Nos últimos mililitros, feche e abra a torneira de forma intermitente para evitar que a fase superior comece a sair junto. Quando a interface atingir a torneira, pare imediatamente. A pequena quantidade de fase inferior que fica retida na ponta é preferível a contaminar a fase desejada com a outra.
Remova a tampa do funil antes de drenar completamente se quiser recuperar a fase superior pela abertura. Deixe escorrer por gravidade pela parte superior do funil, usando um funil comum como guia se necessário.
Problemas comuns e como resolver
Emulsões são o principal incômodo. Às vezes a interface simplesmente não se forma. Nesses casos, algumas estratégias funcionam dependendo da situação. Adicionar uma pequena quantidade de NaCl saturado ajuda a quebrar emulsões aquosas porque aumenta a força iônica e favorece a coalescência das gotículas. Espetar a interface com um bastão de vidro também costuma funcionar de forma imediata e surpreendente. Outro problema frequente é a formação de uma terceira fase, especialmente quando se trabalha com solventes parcialmente miscíveis como etanol e éteres. Já vi uma fase gelatinosa se formar entre água e éter etílico porque havia excesso de etanol na mistura. Nesse cenário, o funil de separação simplesmente não resolve. A solução foi diluir com mais água e hexano, o que redistribuiu os componentes e permitiu a separação bifásica convencional. Temperatura também influencia. A viscosidade do solvente muda com a temperatura e isso altera o tempo de separação. Se estiver frio no laboratório, espere mais. Não adianta forçar a drenagem mais rápido porque a fase inferior mais viscosa arrasta gotículas da fase superior junto.
Quando o funil de separação não é a melhor opção
Existem situações em que usar o funil de separação é problemático ou até inviável. Se você tem volumes muito pequenos, abaixo de 10 mL, o funil padrão simplesmente não é adequado. A perda por aderência às paredes e na ponta do funil consome uma parcela significativa do produto. Nesses casos, usar micromalinhas ou centrífuga para separação de fases é mais eficiente. Se os líquidos têm densidades extremamente próximas, a separação por gravidade torna-se muito lenta e a interface fica mal definida. Líquidos com diferença de densidade menor que 0,05 g/mL geralmente apresentam esse problema. Centrífuga resolve isso em minutos, mas exige equipamento disponível. Também não funciona bem quando há surfeitede superficial elevada estabilizando emulsões persistentes, como em extrações com extratos biológicos brutos. Nesses casos, centrifugação ou adição de sal são mais eficazes do que simplesmente esperar no funil.
Dicas que economizam tempo
Marque com caneta permanente o nível da interface antes de abrir a torneira. Isso evita calcular mentalmente quanto resta para drenar quando você estiver com pressa. Anotar também qual fase é a desejada diminui o risco de perder o produto achando que está drenando a errada. Lubrifique a torneira com vaselina ou graxa específica para vidrarias antes de começar. Uma torneira mal lubrificada vaza ou trava no meio da operação, e recuperar líquidos dispersos pela bancada é mais lento do que prevenir. Use funis de capacidade adequada ao volume. Encher um funil de 500 mL com apenas 80 mL de mistura é ineficiente porque a interface fica muito perto da parte superior e a drenagem é mais difícil de controlar. O ideal é que o volume ocupe entre um terço e dois terços da capacidade do funil.
Etiquete todos os frascos imediatamente após a separação. Em rotinas intensas, é fácil confundir qual frasco contém qual fase, especialmente se ambas as fases são incolores e translúcidas. O funil de separação é uma ferramenta básica, mas seu uso eficiente depende de paciência e atenção aos detalhes. Não adianta apressar a drenagem porque o tempo economizado nos primeiros minutos é perdido Recuperando material contaminado nos minutos seguintes.
