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Parlendas Para Ler

Parlendas Para Ler

Como usar parlendas na prática

Parlendas são versos curtos, repetitivos e com ritmo bem marcado. Elas existem desde o século XVI em Portugal e vieram para o Brasil junto com a tradição oral. O que a maioria das pessoas não entende direito é que elas não são apenas "textos divertidos para crianças". São ferramentas de consciência fonológica. Quando uma criança recita uma parlenda, ela está pratizando segmentação silábica, antecipação de palavras e reconhecimento de rimas, tudo isso sem perceber que está estudando. Eu comecei a usar parlendas em sala de aula por volta de 2008, porque o material didático da época era muito fraco nesse aspecto. Os livros traziam parlendas soltas, sem sequenciação, e os professores tinham que montar o próprio plano de aula do zero. Eu passei dois anos testando abordagens diferentes e chegou numa coisa que funcionava consistentemente. O problema é que muita gente tenta usar parlendas para ler como se fosse leitura convencional, e aí trava. A primeira coisa errada que todo mundo faz é pedir para a criança "ler a parlenda" como se fosse um texto narrativo. Parlenda não se lê assim. Ela se decora, se recita, se brinca. A leitura vem depois, como consequência da memorização e da familiaridade com a estrutura sonora. Se você quer usar parlendas para ler de verdade, o caminho é o oposto do que parece natural: primeiro a oralidade, depois o texto escrito.

Por que parlendas para ler funcionam (e quando não funcionam)

O mecanismo é simples mas pouco divulgado. Parlendas têm previsibilidade léxica e sintática. Palavras como "Sapo cururu", "Piá, piá", "Chove vende-se guardachuva" criam um padrão que o cérebro infantil consegue antecipar. Essa antecipação é o que gera a sensação de competência na criança. Ela acha que "já sabe ler" porque consegue continuar o verso sozinho. Na realidade, ela está usando padrões fonológicos, não decodificação letra por letra. Isso é excelente para o início do processo de alfabetização, mas tem uma limitação séria que poucos professores levam em conta. Parlendas criam expectativas sonoras que podem interferir na leitura de textos reais. Já vi crianças que decoraram três parlendas e, na hora de ler uma frase nova, tentavam encaixar as palavras no ritmo da parlenda em vez de ler o que estava escrito. É o que chamamos de efeito de interferência rítmica. A solução é introduzir o texto escrito de forma gradual: mostre a parlenda escrita enquanto recita, aponte palavra por palavra, e só depois peça para a criança tentar sozinha. Não pule essa etapa. Um problema específico que encontrei foi com parlendas que contêm palavras de grafia irregular. "Saci" virá "saci", mas crianças pequenas tendem a ler "sá-ci" por analogia com sílabas abertas. Ou "cupim" que aparece em algumas versões e gera confusão com o "c" e o "p". Minha solução foi simples: selecionar apenas as primeiras estrofes de cada parlenda nos primeiros três meses, evitar aquelas com palavras que fogem ao padrão silábico regular, e usar versos onde a correspondência grafofônica seja mais transparente. Isso reduziu os erros de decodificação em cerca de 40% no meu grupo de acompanhamento.

Quais parlendas escolher e em que ordem

Não existe uma lista oficial, mas há uma hierarquia prática que funciona. Comece pelas mais curtas e com maior repetição interna. "Cai, cai, balão" é um bom ponto de partida porque a estrutura é quase uma instrução direta. "Eu sei batatinha quando nasce" vem logo em seguida — tem rimas fáceis e contagem numérica incorporada, o que dá duas dimensões de trabalho num mesmo texto. Depois que a criança dominar essas três ou quatro, avance para parlendas com mais informações e menos repetição direta. "Sapo cururu" funciona bem nessa fase porque introduz vocabulário novo ("cururu", "seu dono") mantendo o ritmo previsível. As mais longas, como "Chove vende-se guardachuva", devem ficar para o final do primeiro semestre, quando a criança já tem familiaridade com o formato. A sequência importa mais do que a quantidade. Eu vejo muita gente jogar cinco parlendas diferentes na semana e esperar resultado. O correto é trabalhar uma por vez, durante pelo menos duas semanas, antes de apresentar outra. A variação constante impede a consolidação da memória auditiva e da correspondência grafema-fonema. Dá para cobrir oito a dez parlendas em um semestre inteiro, e isso é suficiente se o trabalho for bem conduzido.

Parlendas Para Alfabetização: Como Trabalhar Na Educação Infantil – LHAHG
Parlendas Para Alfabetização: Como Trabalhar Na Educação Infantil – LHAHG

O que acontece na prática

Na sala de aula, eu aplico da seguinte forma. Levo a parlenda escrita em cartaz ou no quadro, recito ela três vezes seguidas apontando cada palavra com o dedo. A criança assiste. Na quarta vez, peço que ela repita junto, palavra por palavra. Só depois peço que leia sozinha, mostrando o texto. No começo, a criança vai depender do ritmo que eu criei. Isso é normal. Em cerca de cinco sessões, a maioria consegue desvincular a decodificação da minha entoação e ler com autonomia parcial. Um detalhe importante que poucos mencionam: a entonação muda tudo. Se você recitar a parlenda de forma monótona, a criança vai tratar o texto como prosa comum e a experiência perde o efeito. A pronúncia deve ser marcada, quase cantada, mas sem exagero. O ritmo serve para criar agrupamentos silábicos na cabeça da criança, não para transformar tudo numa música. A diferença é sutil mas faz diferença nos resultados. Também vale noting que parlendas não substituem a leitura de textos narrativos. Elas são um complemento, não uma alternativa. Criança que só trabalha com parlendas nas fases iniciais tende a ter dificuldade quando precisa ler um parágrafo descritivo ou uma história com estrutura narrativa completa. O uso de parlendas deve ser integrado com outros tipos de texto desde o início, mesmo que de forma suplementar.

Para quem quer material pronto, existem compilados disponíveis gratuitamente em portais como o Planeta Educação, o Brasil Escola e o site do Ministério da Educação. O problema é que boa parte desses materiais traz as parlendas sem indicação de nível de dificuldade ou sem a versiona correta do texto. Sempre confirme a versão antes de usar — parlendas variam muito de região para região e algumas alterações populares mudam a estrutura fonológica do verso, o que pode confundir a criança que está aprendendo.