Parte Liquida Do Sangue
O que é a parte liquida do sangue e como lidar com ela na prática
A parte liquida do sangue se chama plasma. É aquele líquido amarelo-pálido que você vê quando centrifuga uma amostra de sangue coletada com heparina ou EDTA. Cerca de 55% do volume sanguíneo total, o resto sendo hemácias, leucócitos e plaquetas. Parece simples, mas tem detalhes que gente de fora não considera e que fazem diferença real quando o laboratório tá apertado. O plasma não é só "água com coisas dissolvidas". A composição varia conforme o estado de jejum do paciente, hora da coleta, tipo de tubo e até a forma como a amostra foi manipulada antes de entrar na centrífuga. Já vi amostra de triglicerídeos ficar impossível de ler porque o paciente comeu uma pizza na véspera e o técnico coletou às 8h da manhã sem confirmar o jejum. O plasma ficou lipêmico, turvo, e todas as reações enzimáticas deram errado. Aí é só recolher.
Análise da parte liquida do sangue: o que realmente importa
Quando você vai analisar a parte liquida do sangue, o primeiro passo é entender que a escolha do tubo define o que dá pra fazer depois. Tubo com EDTA — tampa roxa — quelata cálcio e é obrigatório para hemograma. Mas se você precisa de soro, esse tubo não serve, porque o EDTA interfere em praticamente todas as reações que dependem de cálcio. Tubo com heparina — tampa verde — mantém o sangue líquido sem quelatar metais de forma agressiva, então é boa opção para gasometria e muitos testes bioquímicos. Tubo sem aditivo — tampa vermelha — vira soro depois da coagulação natural, que leva de 30 a 60 minutos em temperatura ambiente. A centrifugação é onde a maioria erra. A recomendação geral é 1.500 a 2.000 rpm por 10 minutos. Mas rpm não é unidade válida para centrifugação — o que importa é a força g. Uma centrífuga que gira a 3.000 rpm com raio de 10 cm gera cerca de 1.000 xg. Se o raio for maior, a força aumenta. A regra prática: 1.000 xg por 10 minutos é suficiente para a maioria dos testes clínicos rotineiros. Força menor que isso deixaplaquetas e fragmentos nas camadas, o que contamina o plasma e altera resultados de enzimas como LDH e potássio. Um problema que encontrei na prática e que não tem manual ensinando a resolver: plasma de pacientes em quimioterapia com alta concentração de drug metabolitos pode formar microprecipitados após 24 horas em geladeira, mesmo sem serem visíveis a olho nu. Esses precipitados entupem automaticadores. A solução que funcinou foi centrifugar duas vezes — primeira a 1.500 xg por 10 minutos, transferir o sobrenadante para outro tubo e centrifugar de novo na mesma condição. Isso remove partículas e protege o sistema. Custa 10 minutos a mais por amostra, mas evita uma parada de equipamento que pararia o laboratório inteiro por horas.
A armazenagem também merece atenção. Plasma congelado a -20°C mantém a maioria dos analitos estável por até 30 dias. Para longevosprazo, -80°C é o padrão. Mas congelar e descongelar repetidamente degrada proteínas e enzimas. Cada ciclo de congelamento-descongelamento reduz a atividade da alanina aminotransferase em cerca de 10%. Se você precisa guardar amostras para testes futuros, alíquota em tubos de 0,5 mL a 1 mL é o caminho. Nunca descongele o tubo inteiro e recongele. Outro ponto que iniciantes esquecem: a separação do plasma deve ser feita em até 2 horas após a coleta para a maioria dos testes. Após esse tempo, as hemácias continuam metabolizando glicose — o valor cai em média 5 a 7% por hora — e o potássio vaza das células, subindo gradualmente. Se o laboratório recebe amostras no final do dia e só processa na manhã seguinte, os resultados de glicose e potássio já chegam comprometidos antes mesmo de entrar no analisador. Esse é um erro sistemático que passa despercebido porque não há controle de tempo de transporte documentado na maioria dos pequenos laboratórios. A parte liquida do sangue é, essencialmente, um espelho do estado metabólico do paciente, mas só se você tratar a amostra com o rigor que ela exige. O resto é especulação.

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