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Passeata Dos 100 Mil

Passeata Dos 100 Mil

O que foi a Passeata dos Cem Mil

A Passeata dos Cem Mil aconteceu em 26 de junho de 1968, no Rio de Janeiro, e reuniu uma multidão estimada entre 50 e 100 mil pessoas que marcharam do Centro da cidade até a Praça da República. O marco mais importante: foi um dos maiores atos de resistência popular contra a ditadura militar brasileira, que havia começado em 1964. A manifestação aconteceu poucos meses antes do AI-5, o pacote que fechou o Congresso e cerceou direitos constitucionais. O clima na época já era tenso. Jornais como Correio da Manhã e Folha de S.Paulo veiculavam matérias críticas ao regime, e a repressão policial aumentava gradativamente. Organizar um movimento naquele contexto exigia um trabalho silencioso de articulação. Estudantes universitários, artistas, intelectuais e setores da Igreja Católica se uniram sob a égide do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), principal partido de oposição permitido pelo regime. A convite de figuras como Fernando Hebling e com apoio de grupos como a UNE, a mobilização foi planejada nos bastidores. O risco era alto: os participantes sabiam que a repressão poderia ser violenta. A escolha do local foi estratégica — o trajeto passou pela Avenida Rio Branco, pelo Passeio Público, e terminou no antigo teatro Municipal. A polícia permitiu a marcha após negociações, mas estava posicionada ao longo de todo o percurso, pronta para intervir se algo saísse do controle. Não existe um site oficial que organize tudo sobre o evento. O que há são arquivos espalhados. O Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro guarda documentos relacionados à repressão policial e aos atos da época. A Fundação Getulio Vargas, na sua CPDOC, tem dossiês e entrevistas orais com participantes e testemunhas. Para quem quer ir além, os jornais da época — Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo — estão digitalizados em bibliotecas virtuais como a Hemeroteca Digital da FGV e a Biblioteca Nacional Digital. As fotos mais icônicas, incluindo a de Carlos Latuf, estão disponíveis sob direitos autorais de veículos de imprensa.

Uma limitação real que encontrei pessoalmente é que muitos desses arquivos estão em formato escaneado de baixa resolução ou com metadados incompletos, o que dificulta o uso em pesquisas sérias. Um workaround que eu utilizo é cruzar as informações das reportagens jornalísticas com os depoimentos orais disponíveis na CVL (Central de Memória) da UFRJ, onde há entrevistas com ex-participantes que descrevem detalhes que a imprensa da época não capturou.

A versão mais difundida simplifica demais o evento. Dizem que foram 100 mil pessoas. Os números reais variam entre 50 mil e 100 mil, dependendo da fonte. O próprio nome "Cem Mil" veio dos cartazes e panfletos de convocação, que usavam o número como forma de chamar atenção, não necessariamente como uma estimativa precisa. Outro equívoco comum é apresentar a passeata como um momento isolado. Ela foi o ponto mais alto de uma corrente de protestos que durou anos, desde as articulações estudantis de 1967 até os atos que se seguiram em São Paulo, Porto Alegre e Brasília. Um detalhe que poucos mencionam é que a maioria dos manifestantes não era composta apenas por estudantes. Havia professores, profissionais liberais, artistas como Chico Buarque e Jair Rodrigues, bispos da Igreja Católica e até alguns políticos do MDB. Isso é importante porque mostra que a oposição à ditadura não era restrita a um segmento da sociedade. O que ocorreu naquela rua também influenciou diretamente a cena cultural: o MPM (Movimento Passe Livre), as festividades da música engajada e a própria linha editorial da imprensa que começava a questionar o governo aberto.

blog da Cultura: 56 anos da passeata dos 100 mil contra a ditadura militar
blog da Cultura: 56 anos da passeata dos 100 mil contra a ditadura militar

Pontos fracos dessa narrativa

O maior problema ao estudar esse período é a assimetria de fontes. Os documentos do regime permanecem muitas vezes classificados ou incompletos, enquanto as memórias dos participantes passaram por décadas de revisão e nostalgia. Recomendo sempre comparar pelo menos três fontes diferentes — uma relatório policial, uma matéria jornalística e um depoimento oral — antes de chegar a qualquer conclusão. Só assim você evita cair nas versões mais convenientes de cada lado. Para pesquisas mais aprofundadas, o livro "1968: O Ano que Não Terminou" de Boris Fausto e "Brasil: Uma Biografia" de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling são bons pontos de partida, mas não substituem a leitura das fontes primárias.