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Personagem Da Quadrilha Junina

Personagem Da Quadrilha Junina

A quadrilha junina e os seus personagens

Todo mundo que cresce no Nordeste ou no interior do Brasil conhece a quadrilha. Mas o pessoal de fora, aquele que só vê pela TV, acha que é tudo igual. Não é. A gente que dança sabe que tem personagem, tem papel, tem regra que não aparece em nenhum manual. Eu entrei numa quadrilha em 2015, em Campina Grande, e fui escalado para fazer o Cavalheiro do Sol. Na época eu pensava que era só entrar no par e dançar. Engano meu. O diretor de quadrilha, um velho chamado Zé Luis, me puxou de lado dois dias antes do arraial e falou: "Você não é um boneco. Você é o Sol. Quando entra, entra com peso, com dignidade, senão o pessoal lá de trás acha que é brincadeira de criança." Até aí tudo bem. O problema é que o Sol é um personagem que não pode sorrir pra ninguém durante acoreografia inteira, exceto na hora da entrada e da saída. Se você sorri no meio do passo, estraga a linha dos outros quatro pares. Já vi isso acontecer. Uma quadrilha aqui da cidade perdeu o enredo porque o cara do Sol ficou rindo com a plateia na hora errada. O Zé Luis quase desistiu do arraial daquele ano.

Personagem da quadrilha junina: quem é quem

A estrutura básica, pelo menos na tradição do nordeste, tem uns doze personagens. Mas o importante é entender que cada um tem uma função que vai além de simplesmente aparecer no palco. O personagem é parte do enredo, é parte da narrativa que se desenrola durante a dança. O Cavalheiro do Sol é sempre dançado por alguém de porte mais alto, que consegue projetar a presença sem precisar gritar. Não é qualquer um que segura o par na mão do outro e faz o passo certo sem esbarrar na moça do par ao lado. Já tentei ensinar isso pra um garoto de dezoito anos que entrou num ensaio achando que o papel era só "ser bonitinho". Erro clássico. A Dama da Lua é o oposto. Ela tem que ter leveza, ter graça nos movimentos, mas sem exagero. A maioria dos diretores pega uma menina magra, que não pese tanto no chão, pra não quebrar o equilíbrio visual do par. Tem coisa que não se explica em texto: você precisa ver pra entender. Eu vi uma Dama da Lua em 2019, em Petrolina, que fazia um passo de balanço tão sincronizado com o parceiro que parecia que os dois tinham um fio invisível ligando os pulsos.

O noivo e a noiva são o centro. Sem eles, não tem quadrilha. Todo mundo já viu isso. O que pouca gente entende é que o noivo não pode ser muito rígido. Se ele ficar tenso, a noiva também fica. Aí o par todo fica duro, e a quadrilha perde o charme. Já vi noivos que entravam travados demais e acabavam esbarrando na moça o tempo todo. O Zé Luis ensinava: "Deixa o corpo folgar, deixa a cintura solta, senão você trava o par inteiro." Os padrinhos também têm um papel específico. Eles entram depois dos cavalheiros, fazem uma sequência de passos que leva ao centro, e aí o vigário entra. É umacoreografia de encadeamento que não pode falhar. Se o padrinho entra cedo demais, atrapalha a entrada do vigário. Se entra tarde, o ritmo da quadrilha desanda. O vigário é outro personagem que exige cuidado. Ele não é um padre de verdade, é um personagem cômico. Mas o humor tem que ser contido. Eu já vi vigários que exageravam nas piadas e a quadrilha virava teatro de bonecos. O Zé Luis corrigia isso na hora: "Você é o vigário, não um palhaço de circo. Entra, faz a bênção, sai. ponto."

A Magia da Quadrilha Junina – Literatura de Cordel | Mari Bigio
A Magia da Quadrilha Junina – Literatura de Cordel | Mari Bigio

A entrada e a saída: o momento que define tudo

O que muita gente não sabe é que a entrada da quadrilha é o momento mais importante. É a primeira impressão que o público tem. Se você entra desorganizado, todo o resto da dança fica comprometido. Eu já vi quadrilhas começarem bem e terminarem mal porque o primeiro par entrou fora do tempo. O resto da fila tenta compensar, acaba perdendo o ritmo, e acoreografia desanda. A saída também é crucial. A quadrilha tem que terminar com os personagens indo embora na ordem certa. Se o noivo sai antes da noiva, estraga o enredo. Já vi isso acontecer em uma competição aqui de Campina, e o juiz tirou pontos justamente por causa disso. A régua de avaliação é mais rigorosa do que parece. Tem um detalhe técnico que pouca gente menciona: o tempo da entrada. Depende do tamanho do arraial, da quantidade de pares, da música. Uma quadrilha com oito pares entra em cerca de quarenta segundos. Com doze, o tempo sobe pra cinquenta e cinco. Se você entra num ritmo errado, já começa todo o resto danado.

Os erros mais comuns que eu já vi acontecer

O primeiro erro que eu vejo todo ano é o personagem que não respeita o seu papel. O noivo entra sorrindo demais, a noiva entra séria, o vigário entra fazendo careta. Isso quebra a narrativa. Cada personagem tem uma linha emocional que precisa ser seguida. Se um sai da linha, todo o par sai junto. O segundo erro é o passo errado no momento errado. Tem passo que só pode ser dado em determinada parte dacoreografia. Se você adianta, atrasa, ou troca na hora errada, o par ao lado tropeça. Eu já vi isso acontecer com o Cavalheiro do Sol, que entrou com um passo de valsa quando deveria ser um passo de marcha. A moça do par escorregou, quase caiu. O Zé Luis mandou ele fazer refatoração dos passos depois do arraial. O terceiro erro, e esse é mais sutil, é a falta de olhar. O personagem tem que olhar pra plateia, pra direção certa, no momento certo. Eu já vi cavalheiros que olhavam pro chão durante toda acoreografia. Isso mata a presença. O público sente falta de conexão visual. Tem coisa que não se explica em palavra: é sensação.

A importância dos ensaios e da prática

Não adianta ter o melhor personagem se você não treina. Eu já vi gente ingressar numa quadrilha sem nunca ter dançado antes. No primeiro ensaio, o cara entra tropeçando nos próprios pés. Aí vem o desespero, a vergonha, a vontade de desistir. Mas o Zé Luis sempre dizia: "Quem nasce pra quadrilha não é quem dança bem, é quem aprende rápido. O resto vem com prática." Os ensaios duram em média três horas por dia, duas vezes por semana. Isso durante dois meses antes do arraial. Se você faltar, perde o encadeamento. A quadrilha é um organismo vivo, e cada peça tem que encaixar na certa. Não tem como improvisar no palco. O pessoal que tenta improvisar geralmente acaba estragando acoreografia inteira. Existe também o detalhe dos fantasias. Cada personagem tem um traje específico. O Sol usa dourado, a Lua usa prateado, o noivo usa calça branca e camisa de renda, a noiva usa vestido de chita com laço na cabeça. Se o personagem entra com a roupa errada, o público já identifica o erro. Eu já vi um noivo entrar de bermuda, achando que era permitido. O Zé Luis mandou ele trocar na hora, e o arraial começou com meia hora de atraso.

Chapu De Quadrilha Festa Junina Png Festa Junina Png Festa Junina
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O que a gente aprende com a quadrilha

Sempre digo pros caras novos: a quadrilha não é só dança. É disciplina, é respeito, é trabalho em equipe. Você entra num par e tem que confiar na pessoa do outro lado. Se ela tropeça, você segura. Se você erra, ela compensa. É uma parceria que vai além do palco. O pessoal que passa por uma quadrilha junina cresce junto. Eu vi casos de noivos e noivas que se conheceram dançando e hoje estão casados há dez anos. Tem parelha que forma dupla fixa, entra em todas as quadrilhas juntos. A gente cria laços que não se explicam em texto. Tem também a questão do respeito à tradição. A quadrilha tem história, tem raiz, tem origem que remonta ao colonialismo português trazido pro Brasil. Não é brincadeira de festas de rua, é patrimônio cultural. O Zé Luis sempre enfatizava isso nos ensaios: "Vocês não estão só dançando. Estão mantendo viva uma tradição que existe há duzentos anos aqui no nordeste."

Se você quer entrar numa quadrilha, o caminho é simples: procure o grupo mais próximo da sua cidade, vá num ensaio, pergunte qual personagem está sendo escalado, e treine. Não adianta chegar exigindo ser o noivo se nunca dançou antes. Comece pelo que o diretor mandar, aprenda o básico, e depois você sobe de nível. Eu tenho um amigo que entrou como simples figurante, fez parte do coral de fundo, e dois anos depois estava dançando como Cavalheiro do Sol. Hoje ele é diretor de quadrilha. O caminho é longo, mas o resultado vale a pena. A gente sai do arraial cansado, suado, mas satisfeito. E isso não se compra em lugar nenhum.