Personagens Alto Da Compadecida
Os personagens de O Auto da Compadecida: quem é quem na obra de Ariano Suassuna
Quem assiste ao filme ou lê a peça pela primeira vez costuma ficar perdido com os nomes dos personagens e suas funções na trama. O Auto da Compadecida tem um elenco denso, e muitos deles compartilham arquétipos que se repetem na literatura de cordel e no teatro popular brasileiro. Vou listar os principais, explicar o que fazem e onde a coisa fica confusa. João Grilo é o protagonista. É o pobre inteligente, o malandro nordestino que vive de enganação e astúcia. Ele não é bonzinho por natureza, mas acaba sendo protegido pela Compadecida porque, no fundo, tem seu código de honra. No filme de 2000, o desempenho de Matheus Nachtergaele transformou o personagem em ícone cultural. Na peça original, a carga cômica é muito maior, e o texto de Suassuna deixa claro que João Grilo é um trapaceiro nato que, por sorte divina, nunca leva a pior. Chicó é o companheiro de João Grilo, o medroso, o covarde, aquele que sempre quer sair correndo na primeira oportunidade. Ele existe como contraponto cômico ao João Grilo. Enquanto João Grilo resolve os problemas com inteligência, Chicó resolve fugindo. A dinâmica entre os dois é o motor de toda a obra. Sem o medo constante do Chicó, as situações não seriam tão engraçadas. É um dos pares mais clássicos do teatro brasileiro, lembrando Arlequim e Brighella da commedia dell'arte, só que com cultura nordestina.
O Padre João é o padre corrupto da cidade. Ele bebe, gosta de mulher, foge da responsabilidade eclesiástica, mas ainda assim é parte do sistema que regencia a vida espiritual da comunidade. Quando morre, ele vai ao inferno e depois ao purgatório. A crítica social aqui é direta: o clero da época não era diferente dos outros profissionais, e Suassuna mostra isso sem pudor. No julgamento final, o Padre João é defendido pela Compadecida porque, segundo ela, fez o bem que pôde. A Compadecida (a Virgem Maria) é a figura central que interfere nos destinos dos personagens. Ela representa a misericórdia divina, mas também uma justiça que não é fria e mecânica. Ela pesa os atos das pessoas e acaba perdoando muitos que mereciam castigo pior. É o ponto de virada de toda a obra. Sem ela, João Grilo e Chicó estariam perdidos de verdade. Ela aparece nos momentos mais inesperados e resolve conflitos que pareciam sem saída. Severino é o pobre que tenta salvar a esposa grávida e acaba morrendo. Sua história é um dos momentos mais dramáticos da obra, e ela contrasta com o tom predominantemente cômico. Severino representa a injustiça social e a brutalidade da vida no sertão. Ele é atacado por causa de uma briga banal e paga com a vida. Esse personagem mostra que o Auto não é só comédia, tem um lado triste e realista que muitas vezes passa despercebido em adaptações mais leves.
O Cabra (o cabra Severino) e o Cachorro são figuras importantes nas cenas do inferno. O cachorro fala, tem consciência própria, e é um dos elementos mais originais da obra. Ele acompanha os protagonistas e comenta a situação, funcionando quase como um narrador dentro da peça. A presença do animal falante remete à tradição dos autos medievais portugueses, onde até animais podiam ter papel ativo na dramaturgia. O Diabo aparece como figura burocrática e hilária, não como o monstro terrível da tradição cristã. Ele administra o inferno com regras próprias, e sua interação com o Padre João gera cenas de comédia absurda. O Diabo em Suassuna não assusta, ele irrita. É um funcionário público sobrecarregado, e isso é intencional: a sátira ao sistema administrativo se aplica tanto ao inferno quanto ao céu. Lança-perfume é a amante do Padre João, a mulher que ele abandonou quando entrou para o seminário. Ela aparece depois, cobrando justiça. É um dos personagens que mais demonstra o conflito entre desejo e religião na obra. Lancei-la na peça original tem um peso dramático maior do que no filme, onde ela é mais coadjuvante.

Dona Mena é a esposa de João Grilo. Ela não aparece em todas as versões da obra, mas quando aparece, é a voz da razão doméstica. Ela sabe que o marido é um trapaceiro, mas convive com isso porque não há alternativa. A relação deles é divertida, mas também revela como a pobreza moldava os casamentos na região nordestina. Lucrécia de Neves é a moça rica e bonita que João Grilo tenta conquistar. Ela é o objeto do desejo masculino na trama, mas também tem agency quando decide ir atrás do que quer. Seu personagem mostra que nem todos os personagens femininos são passivos na obra, algo que poucos notam de cara. Um detalhe que muita gente perde: o julgamento final não é apenas uma cena de final feliz. É o momento em que cada personagem tem seus atos analisados individualmente, e a Compadecida argumenta em favor de quase todos. Isso significa que a obra defende uma ideia de justiça compassiva, não de justiça retributiva. É um ponto teológico importante que transforma o Auto de uma simples comédia em algo com camadas filosóficas.
Se você está estudando a obra para uma aula ou produção teatral, leia o texto original antes de assistir qualquer adaptação. O filme de 2000 é excelente, mas corta linhas inteiras de diálogo e simplifica personagens como o Padre João e o Diabo, que na peça têm mais nuance. A peça tem mais de três horas de duração em algumas encenações, e isso permite que cada personagem respire. Para ler o texto completo, procure a edição da record ou da fundação casa de ariano suassuna. Ambas são fiéis ao original e incluem notas de rodapé que ajudam a entender as referências literárias e religiosas que Suassuna espalha pela obra.
Galeria
-
O Auto da Compadecida 2: veja a primeira foto dos personagens Chicó e ... -
20 anos do filme ‘O Auto da Compadecida’: relembre os personagens da ... -
O AUTO DA COMPADECIDA 2: Confira o primeiro trailer oficial com a dupla ... -
O Auto da Compadecida 2: O retorno do sucesso de Chicó e João Grilo ...