Pos Graduação Em Psicanalise Infantil
O que realmente é uma pós em psicanálise infantil
A maioria dos programas se chama especialização ou MBA, mas o conteúdo varia muito de instituição para instituição. Você vai encontrar cursos que misturam psicanálise lacaniana com teoria do apego, outros que focam só em Freud e Winnicott, e alguns que praticamente viraram oficinas de terapia de jogo sem fundamentação teórica sólida. A escolha certa depende do que você quer fazer na prática, não do nome que está na ementa. Escolhi um programa específico porque acho útil falar do que eu mesma enfrentei. Minha experiência foi com uma especialização que prometia formação clínica completa em dois anos. A teoria era boa, mas o campo prático tinha um problema que ninguém avisava antes de matricular. Eu já tinha formação em psicologia e esperava começar a atender crianças ainda no segundo módulo. O que aconteceu foi que a supervisão clínico-prática só começou no último semestre, e ainda por cima em grupos de seis alunos divididos entre três supervisores. Resultado: cada caso recebia cerca de dez minutos de supervisão por encontro. Eu levei três casos clinicos para discutir e só consegui falar do meu primeiro. Os outros ficaram pra lá porque o tempo era curto demais.
Meu ajuste foi simples. Eu já estava fazendo atendimento voluntário em uma clínica-escola paralela, então resolvi levar os mesmos casos que estava estudando na pós para minha supervisão individual fora do curso. Paguei de próprio bolso uma hora mensal com um analista infantil que não tinha vínculo com a instituição. Isso custou em torno de R$ 400 por mês, mas fez diferença real na minha capacidade de escutar as crianças sem me perder nos conceitos. Se você não tem condição financeira para supervisão extra, pelo menos selecione os casos mais difíceis da prática curricular e peça para reprogramar os horários. Muitos coordenações aceitam isso se você mostrar que há necessidade clínica real. Nem sempre funciona, mas vale tentar. O que poucos cursos explicam sobre psicanálise infantil é que a técnica com crianças não é a mesma técnica com adultos transferida para menores. A transferência se constrói de outro jeito. A criança não fala de si diretamente. Ela usa o brinquedo, o desenho, a brincadeira de faz de conta como forma de comunicação. Um adulto que chega achando que vai fazer análise de criança como se fosse sessão com adolescente vai se frustrar rápido porque o paciente não vai se sentar no divã e contar seus sonhos da mesma forma.
Outro ponto cego é a questão da autorização parental. Na prática clínica real, você precisa lidar com pais que querem saber tudo o que a criança diz em sessão. Isso gera um conflito ético constante. Eu tive um caso em que a mãe exigia relatórios semanais sobre o conteúdo das sessões. O código de ética proíbe divulgar conteúdo da análise sem consentimento, mas a mãe processaria a clínica se eu não retornasse. A solução que encontrei foi estabelecer desde a primeira conversa com os responsáveis que o trabalho era de análise infantil, que o sigilo era parte do tratamento, e que o relatório seria apenas sobre evolução comportamental observável, nunca sobre o conteúdo transferencial. Esse alinhamento inicial economiza muita dor de cabeça depois. Tem também a armadilha da formação intensiva. Programas de um ano ou dois anos com carga horária enorme parecem atraentes porque promovem formação rápida. Na prática, a maioria dos alunos não consegue absorver tudo e termina o curso com uma visão fragmentada. Eu vi colegas que saíram sabendo muita teoria mas sem conseguir conduzir uma sessão com uma criança de quatro anos porque nunca haviam tido contato suficiente com a técnica de observação livre. Existem alternativas para quem não quer ou não pode fazer uma pós tradicional. A formação analítica infantil clássica passa pela experiência pessoal de análise e por uma formação teórica longa que dura anos, não meses. Se seu objetivo é se tornar analista de crianças, esse é o caminho mais sólido. Se seu objetivo é apenas ampliar sua prática como psicólogo ou terapeuta já formado, uma especialização bem escolhida com supervisão individual complementar resolve.

Outra opção que vejo funcionarem bem são os seminários de extensão universitária focados em temas específicos, como luto infantil, TEA e psicanálise, ou adolescência e transferencia. Eles não dão título de especialista, mas oferecem conteúdo qualificado sem o compromisso financeiro de uma pós completa. Eu fiz dois seminários assim enquanto cursava minha especialização e achei mais produtivo do que algumas disciplinas optativas do programa principal. O custo financeiro é outro fator que precisa ser considerado com frieza. Uma pós em psicanálise infantil no Brasil custa entre R$ 8 mil e R$ 25 mil, dependendo da instituição e da modalidade. A maioria dos cursos não oferece bolsas. Se você está começando e ainda não tem pacientes, investir esse valor pode não fazer sentido imediato. Nesse caso, é melhor acumular experiência clínica inicial em estágios e clínicas-escola e entrar num programa quando já tiver casos para consolidar a teoria. Eu também preciso mencionar que psicanálise infantil não é para todo mundo que gosta de crianças. O trabalho exige tolerância alta à ambiguidade e à lentidão dos processos. Crianças não mudam em três sessões. Às vezes não mudam em três anos. Se você espera resultados rápidos ou quer usar a psicanálise como técnica comportamental disfarçada, vai ficar insatisfeito e talvez até prejudicar o paciente.
Sobre o mercado de trabalho, a realidade é que a demanda por atendimento psicanalítico infantil cresceu, mas a remuneração não acompanhou. Consultórios particulares cobram entre R$ 120 e R$ 300 por sessão com crianças, e muitos pais não podem pagar esse valor todo mês. Clínicas públicas e conveniadas pagam ainda menos. Eu levei dois anos para montar uma agenda cheia de pacientes infantis, mesmo já tendo experiência prévia com adultos. Se você está começando agora, o conselho mais honesto que posso dar é verificar a grade curricular antes de se matricular. Procure disciplinas obrigatórias de técnica de observação livre, seminário de prática supervisionada com criança, e leitura de textos fundantes como O estudo dos sonhos das crianças de Freud, A produção símbolos de Klein, e O trabalho do analista em psicanálise de crianças de Anna Freud. Se um programa não oferecer nenhuma dessas, ele provavelmente não tem base teórica suficiente para formação clínica séria. Também pesquise onde os coordenadores formaram-se e quais credenciamentos possuem. Psicanálise infantil exige formação específica, não basta ser psicanalista geral. Um coordenador que é psicanalista de adultos e decidiu trabalhar com crianças por acaso não é a melhor referência para você.
No final, a formação em psicanálise infantil é um caminho longo e exigente. Não existe atalho real. O que existe são escolhas informadas que economizam tempo e dinheiro. Estude bastante antes de decidir, converse com ex-alunos dos programas que você está considerando, e seja realista sobre seus objetivos profissionais. Isso evita muitas frustrações depois.

Galeria
-
Pós-graduação Psicanálise Infantil: Bebês, Crianças, Adolescentes -
Pós-graduação Psicanálise Infantil: Bebês, Crianças, Adolescentes -
SEPAI - Pós-Graduação em Psicanálise