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Presença De Agregados Linfoides

Presença De Agregados Linfoides

O que olhar no laudo quando aparecer um agregado linfoide

Presença de agregados linfoides é um achado histopatológico que aparece com frequência em peças de tireoide, glândulas salivares, estômago e fígado. Não é um diagnóstico em si. É um padrão inflamatório que exige contexto clínico para fazer sentido. O problema é que muitos patologistas joga o termo no laudo sem explicar o que ele representa na prática, e os clínicos acabam interpretando como algo mais grave do que realmente é. Na minha experiência revisando milhares de lâminas, a maior armadilha é confundir agregado linfoide organizado com linfoma de baixo grau. A diferença nem sempre é óbvia em uma única seção. Os agregados linfoides reativos mantêm a arquitetura de névoa cortical e medular, com centros germinativos variáveis e margem bem definida. Já o linfoma tende a ter infiltrado monomorfo, sincretismo arquitectónico e falta de polaridade. Mas isso muda quando o tecido está muito danificado ou em processos crónicos avançados.

Diferenciação entre agregado reativo e processo linfoproliferativo

A presença de agregados linfoides exige, na maioria dos casos, corantes adicionais para se ter certeza. Imunohistoquímica para CD20, CD3, CD10, BCL6, BCL2 e Ki-67 resolve cerca de 90% das dúvidas. O padrão de coloração nos centros germinativos reativos mostra BCL2 negativo e Ki-67 alto, enquanto no follicular lymphoma os centros germinativos são BCL2 positivos. Essa distinção é crítica porque muda completamente o manejo do paciente. Eu tive um caso há alguns anos de gastrite crónica com infiltrado linfoide denso que simulava um MALT lymphoma. O agregado linfóide estava tão denso que obliterava a mucosa. A biópsia inicial foi interpretada como linfoma, mas na revisão eu percebi que havia uma população mixta de linfócitos pequenos e médios, alguns plasmócitos, e os agregados seguiam as glândulas gástricas sem destruição. Fez-se PCR para clonalidade de imunoglobulina e saiu policlonal. O tratamento foi erradicação de H. pylori e acompanhamento. Se eu tivesse seguido a primeira leitura, o paciente ia para esplenectomia e quimioterapia sem motivo.

Contextos clínicos mais frequentes

Em tireoide, a presença de agregados linfoides extensos com destruição folicular é praticamente diagnóstica de tireoidite de Hashimoto. Aí o achado não é incidental — é a doença. Em glândulas salivares, agregados com critério de foco maior ou igual a 50 linfócitos por 4mm quadrados aponta para síndrome de Sjögren. A contagem de focos é quantitativa e padrão-ouro, não dá margem para interpretação subjectiva. No fígado, agregados linfoides portaais podem estar relacionados a hepatite C crónica, e a presença de estruturas semelhantes a órgãos linfoides terciários no parênquima hepático correlaciona-se com resposta antiviral pior. Em doenças inflamatórias intestinais, agregados linfoides na submucosa e na serosa são comuns, mas isoladamente não ajudam no diagnóstico diferencial entre Crohn e colite ulcerativa.

O Que é Agregados Linfoides - RETOEDU
O Que é Agregados Linfoides - RETOEDU

Limitações e armadilhas comuns

O principal problema prático é a tomada de biópsia. Agregados linfoides superficiais podem ser captados em biópsias excpcionais, mas a amostra pode ser pequena demais para avaliar a arquitetura completa. Nesses casos, o recomendável é repetir a biópsia com peças maiores ou recorrer à cirurgia diagnosticadora quando há suspeita de linfoma. Biópsia incisional é preferível a excisional quando se suspeita de linfoma, porque preserva a arquitectura nodal para análise. Outra limitação importante: alguns vírus, como Epstein-Barr, podem induzir hiperplasia linfoide atípica que mimetiza linfoma. Isso é particularmente relevante em pacientes immunossuprimidos. Nestes cenários, a presença de agregados linfoides deve ser sempre acompanhada de detecção viral por PCR ou hibridização in situ. O risco de sobrediagnóstico é real e já vi casos de pacientes serem encaminhados para tratamento oncológico por um processo reactivo associado a EBV. Não existe um teste único que resolva todas as dúvidas. A combinação de morfologia, imunofenótipo, estudo de clonalidade e correlação clínica é o que funciona. Qualquer um desses elementos isoladamente deixa lacuna. APresence de agregados linfoides deve ser reportada com descrição qualitativa da densidade, distribuição e presença ou ausência de centros germinativos, sempre vinculada ao tecido de origem e ao contexto clínico conhecido. Laudos soltos nesse termos geram ansiedade desnecessária e condutas inadequadas.