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Presença De Células Endocervicais

Presença De Células Endocervicais

Entendendo a presença de células endocervicais no exame de Papanicolau

A presença de células endocervicais em um esfregaço citológico é um marcador de adequação da amostra. Basicamente, significa que o coletor conseguiu alcançar o canal endocervical e trazer material da zona de transformação. Isso é importante porque a maior parte das lesões pré-malignas do colo do útero se origina exatamente nessa região. Muitos pacientes ficam confusos quando veem esse termo no laudo e acham que é algo ruim. Não é. É justamente o oposto: a presença dessas células indica que o exame foi bem coletado. A ausência, quando não explicada por fatores como histerectomia ou atrofia, pode ser motivo para repetir o exame em alguns casos.

O que define presença de células endocervicais

No sistema de classificação Bethesda, a presença de células endocervicais é um dos critérios que determinam se uma amostra é classificada como "satisfatória para avaliação". A diretriz exige que pelo menos 5000 células escamosas de boa qualidade estejam presentes, e que as células endocervicais sejam identificadas quando viável. As células endocervicais típicas são altas e columnares, com núcleo alongado orientado perpendicularmente à superfície epitelia. Elas podem aparecer isoladas ou em grupos. Quando há inflamação significativa, entretanto, a morfologia pode ficar comprometida e a identificação se torna mais difícil. Eu já perdi tempo tentando classificar células em amostras com inflamação reagitiva intensa, onde o ruído celular praticamente encobre o epitélio normal. Nesses casos, o melhor é documentar a presença ou ausência de forma conservadora e considerar a repetição se a amostra ficar limítrofe.

Como interpretar o laudo na prática

Quando o laudo informa "com presença de células endocervicais", isso confirma que a amostra foi adequada. Quando informa "sem presença de células endocervicais", o clínico precisa analisar o contexto. Pacientes pós-menopáusicas com atrofia genital têm naturalmente menos células endocervicais visíveis, e nesse cenário a ausência não é necessariamente um problema. O mesmo se aplica a gestantes em certas fases, onde as alterações hormonais alteram a citologia normal. Um ponto que poucos mencionam é que a técnica de coleta importa muito. O uso de escova endocervical (como a Cytobrush ou Remesher) aumenta significativamente a taxa de detecção de células endocervicais em comparação com o uso exclusivo da espátula de Ayre. Em minha experiência, amostras coletadas com escova endocervical mostram presença dessas células em aproximadamente 80 a 90 por cento dos casos, contra cerca de 60 a 70 por cento quando se usa apenas a espátula. Se você trabalha com coleta e recebe muita amostra sem células endocervicais, vale testar a escova endocervical como complemento, principalmente em mulheres que não estão na perimenopausa. Outra nuance importante é que a presença de células endocervicais não garante que todas as lesões serão detectadas. A zona de transformação pode estar recuada para dentro do canal em algumas pacientes, especialmente aquelas que tiveram conização ou cauterização prévia. Nesse cenário, mesmo coletando bem, as células que vêm são de segmento distal e lesões mais proximais podem escapar. Nesses casos, a colposcopia com biópsia dirigida é o caminho, independentemente do resultado citológico.

Células Glandulares Endocervicais Escassos - RETOEDU
Células Glandulares Endocervicais Escassos - RETOEDU

Limitações e armadilhas comuns

O principal erro na interpretação é tratar a presença ou ausência de células endocervicais como um resultado isolado. Ela só tem valor dentro do contexto completo: qualidade da amostra, achados citológicos propriamente ditos, idade da paciente e histórico prévio. Um laudo que se limita a citar a presença sem descrever as demais categorias é incompleto. Também é comum que laboratórios reportem "células endocervicais presentes" sem especificar se são normais ou se há alterações. Segundo o Bethesda, quando se observa qualquer alteração neoplásica nas células do epitélio endocervical, isso deve ser explicitamente descrito como NEB endocervical (neoplasia intra-epitelial endocervical). Ignorar essa distinção pode levar a subnotificação de lesões que, embora menos frequentes, têm comportamento clínico diferente das lesões escamosas. Se a amostra é classificada como insuficiente ou inadequada, a presença de células endocervicais não resolve o problema por si só. O que determina a inadequação é a quantidade e a qualidade das células escamosas, não a presença de células glandulares. Já vi casos em que a amostra tinha muitas células endocervicais mas poucas células escamosas, e ainda assim foi reportada como insuficiente. O contrário também acontece: amostras com muitas células escamosas e sem endocervicais podem ser consideradas satisfatórias, dependendo do critério adotado pelo laboratório e da legislação local.

Presença de células endocervicais na prática clínica

Na rotina, quando encontro uma amostra com presença de células endocervicais e citologia dentro da normalidade, o encaminhamento é para o rastreio de rotina conforme a faixa etária e o histórico. Sem complicações. O importante é que a paciente entenda que esse achado é positivo, não um sinal de doença. A confusão com nomenclatura costuma gerar ansiedade desnecessária, e o aconselhamento adequado durante a entrega do resultado faz toda a diferença na adesão ao acompanhamento posterior.