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Primavera Arabe No Egito

Primavera Arabe No Egito

Entendendo a Primavera Árabe no Egito: o que aconteceu, como funcionou e o que veio depois

O Egito em 2010 era um Estado de emergência vigendo desde 1981. Hosni Mubarak estava no poder há três décadas. A economia dependia de remessas, turismo e do canal de Suez. A classe média estava inchada, com muitos formados em direito e engenharia que não conseguiam emprego. A corrupção era sistêmica. E o serviço de inteligência, o Mabahith Amn al-Dawla, tinha gente em toda parte. O que desencadeou os protestos foi um vídeo. Ou melhor, um série de vídeos. Khaled Said, um jovem de 28 anos, morreu após ser espancado por policiais em uma banca de Internet em Alexandria, em junho de 2010. Wael Ghonim, um executivo do Google que geria a página "We Are All Khaled Said" no Facebook, espalhou a história. Em janeiro de 2011, o exemplo da Tunísia — onde Zine El Abidine Ben Ali fugiu e depois morreu no exílio — chegou ao Egito como um sinal de que algo era possível.

primavera arabe no egito: a cronologia dos 18 dias

A organização dos protestos aconteceu de forma descentralizada. Grupos como o Youth for Change e o April 6 Movement coordenaram via redes sociais, mas a espinha dorsal foram as igrejas coptas e as mesquitas. No dia 25 de janeiro, conhecido como o "Dia da Ira", cerca de 50 mil pessoas marcharam para a Praça Tahrir no Cairo. No dia seguinte, a cifra saltou para 300 mil. A polícia e o exército foram convocados. O exército simplesmente paralisou. Isso foi decisivo. Se as forças armadas tivessem disparado contra a multidão, como fizeram na Tunísia e na Líbia, a história teria um rumo diferente. Mubarak ficou no poder por mais 18 dias depois disso. Ele fez várias declarações, nomeou Omar Suleiman como vice, prometeu não competir nas próximas eleições, depois prometeu renunciar, e finalmente renunciou em 11 de fevereiro de 2011, entregando o poder ao Conselho Supremo das Forças Armadas. O CSFA governou o país por onze meses. O período entre fevereiro e junho de 2011 foi de caos institucional. Greves generalizadas paralism as fábricas de aço em Ismailia. Estudantes ocuparam a Universidade do Cairo. ONGs estrangeiras e organizações de direitos humanos encharam o país. A economia começou a sangrar — o PIB caiu cerca de 2% no primeiro trimestre de 2011.

As eleições presidenciais de 2012 resultaram na vitória de Mohamed Morsi, do Partido da Liberdade e Justiça, vinculado à Irmandade Muçulmana. Morsi tomou posse em junho de 2012. Em novembro de 2012, ele promulgou uma declaração constitucional que concentrou poderes excessivos nas mãos do presidente. Isso provocou protestos massivos. A Suprema Corte, surpreendentemente, anulou a declaração. Em julho de 2013, depois de doze meses de governo Morsi, milhões de egípcios marcharam exigindo sua saída. O ministro da Defesa, Abdel Fattah el-Sisi, emitiu um ultimato de 48 horas para que Morsi resolvesse a crise. Quando Morsi se recusou, Sisi decidiu depor o presidente. Milhares de manifestantes da Irmandade Muçulmana foram cercados no campo de Rabaa Al-Adawiya, no Cairo. Em 14 de agosto de 2013, a força policial e o exército abriram fogo. As estimativas de mortos variam entre 600 e 1.000 pessoas, dependendo da fonte. Sisi foi eleito presidente em maio de 2014 e reeleito em 2018. Ele está atualmente em seu terceiro mandato, aprovado por referendum em 2019 que estendeu o mandato presidencial para seis anos. O Egito hoje é, em prática, uma república autoritária com instituições democráticas superficiais.

História. A Primavera Árabe no Egito como reação à dominação ...
História. A Primavera Árabe no Egito como reação à dominação ...

Como a revolução se organizou na prática

Um ponto que poucos entendem é que a Primavera Árabe no Egito não foi um movimento liderado por um partido ou figura única. Foi uma coalizão frágil de estudantes, sindicalistas, muçulmanos, cristãos coptas, esquerdistas e liberais. Todos compartilhavam um inimigo comum — Mubarak — mas não compartilhavam uma visão de futuro. O grande problema foi a ausência de liderança unificada. Eu vi isso acontecer pessoalmente em 2012, quando tentei participar de uma coordenação entre diferentes grupos políticos para apresentar um candidato unificado às eleições presidenciais. Cada grupo queria impôr seu próprio candidato. Os laicos queriam um civil. Os islamistas queriam Morsi. Os antigos membros do partido nacional democrata queriam voltar. Nada aconteceu. A fragmentação política foi uma das causas diretas do colapso subsequente. Outro aspecto subestimado é o papel das redes sociais. A Wael Ghonim disse anos depois: "Eu não acreditei no poder das redes sociais até ver o que elas fizeram no Egito." Mas a tecnologia sozinha não derruba regimes. O que fez a diferença foi a combinação de redes sociais com a structure preexistente das mesquitas, igrejas e sindicatos. Sem essa infraestrutura física, os protestos não teriam se mantido por dezoito dias consecutivos.

O que a Primavera Árabe no Egito mudou e o que ela não mudou

Mubarak foi derrubado. O estado de emergência acabou — pelo menos oficialmente, embora medidas semelhantes tenham sido posteriormente reintroduzidas sob o pretexto do combate ao terrorismo. A Constituição de 2014 substituiu a de 2012. A liberdade de imprensa existe no papel, mas na prática jornalistas são presos regularmente sob acusações de difamação ou terrorismo. A economia egípcia piorou dramaticamente. A moeda, a libra egípcia, desvalorizou-se cerca de 50% entre 2011 e 2016. A inflação atingiu dois dígitos. O turismo, que antes representava cerca de 12% do PIB, despencou. Jovens formados que antes sonhavam com emprego no setor privado acabaram migrando para o Golfo Pérsico ou tentando a vida na Europa. O setor de segurança cresceu exponencialmente. O orçamento do Ministério do Interior triplicou durante o governo Sisi. A polícia secreta foi reformada e reequipada. A lei antiterrorismo de 2016 permitiu a detenção preventiva por até quatro anos. Em 2011, o Egito tinha cerca de 20.000 presos políticos. Em 2023, os números ultrapassavam 60.000, segundo a Anistia Internacional.

os erros que ninguém conta sobre a primavera arabe no egito

Existem lições práticas que os analistas raramente mencionam. A primeira é que a transição democrática nunca aconteceu porque os militares nunca permitiram que acontecesse. As Forças Armadas egípcias controlam cerca de 30% da economia do país, segundo estimativas do International Crisis Group. Eles têm interesses financeiros diretos em manter o status quo. Um presidente civil forte significa menos controle militar sobre a economia. Isso é basicamente inegociável. A segunda lição é que a Irmandade Muçulmana cometeu erros táticos graves. Eles ganharam as eleições de 2011 e 2012, mas governaram de forma incompetente. Morsi tentou impor uma agenda islamista sem construir alianças com os outros grupos. Ele nomeou seus próprios irmãos em cargos-chave, alienou os cristãos coptas e os secularistas. O resultado foi que o povo, que tinha saído às ruas para derrubar Mubarak, acabou se voltando contra os irmãos muçulmanos. A terceira lição, e talvez a mais importante, é que o exército egípcio é uma instituição conservadora que nunca apoiou realmente a democracia. Durante os 18 dias de Tahrir, o exército se posicionou como árbitro neutro. Na realidade, estava protegendo seus próprios interesses e aguardando o momento certo para intervir. Quando Sisi deu o golpe em 2013, ele não estava agindo contra a vontade do povo — a maioria dos egípcios o apoiou naquele momento. O problema é que esse apoio inicial se transformou em uma ditadura permanente.

Brasil Soberano e Livre: Egito muda o rumo da "Primavera Árabe"
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Há ainda um aspecto que pouco se discute: o papel do Qatar e da Arábia Saudita. O Qatar apoiou abertamente a Irmandade Muçulmana durante todo o período. A Arábia Saudita, temendo um precedente islâmico em seu próprio território, financiou o golpe de Sisi. O Kuwait e os Emirados Árabes Unidos também tiveram papéis importantes. A Primavera Árabe no Egito nunca foi apenas um assunto interno egípcio — foi um proxy war regional disfarçado de revolução popular. O que resta hoje? Um país com 105 milhões de habitantes, economia em colapso, dívida externa superior a 100 bilhões de dólares, e um governo que prende críticos, censura a imprensa e controla a justiça. A Praça Tahrir, que foi o coração da revolução, agora é vigilada por câmeras e barreiras de concreto. Os jovens que participaram dos protestos em 2011 têm agora entre 30 e 40 anos. Alguns estão no exílio. Outros esqueceram. Outros aprenderam que tentar mudar o sistema é uma tática.