Primeira Escola De Enfermagem No Brasil
Olhando para trás: como nasceu a formação profissional de enfermagem no Brasil
A pergunta sobre a primeira escola de enfermagem no Brasil parece simples, mas a resposta carrega uma série de nuances que poucos conhecem. Se você pesquisar no Google, vai encontrar uma resposta única e direta. Mas quando você entra nos arquivos históricos, percebe que a coisa é bem mais complicada do que parece. A Escola de Enfermagem Anna Nery, criada em 20 de setembro de 1926 no Rio de Janeiro, é amplamente reconhecida como a primeira escola de enfermagem propriamente dita do Brasil. Ela estava ligada ao Hospital Nacional de Psiquiatria (antigo Hospital Nacional de Alienados) e recebeu esse nome em homenagem a Anna Nery, figura histórica que se destacou durante a Guerra do Paraguai. O decreto de criação veio do então Ministro da Justiça, Artur Bernardes, e a primeira diretora foi a enfermeira Ana Nery de Carvalho e Almeida, nada menos que sua sobrinha. Mas aqui vai algo que os livros didáticos raramente enfatizam: havia outras iniciativas anteriores que são frequentemente citadas. A Escola de Enfermagem Augusta Porto, fundada em 1893 em São Paulo, é frequentemente apontada como um precedente importante. Também existe menção à Escola de Enfermagem da Bahia, criada em 1889. A questão é que essas instituições mais antigas não tinham o mesmo formato de escola técnica moderna — funcionavam mais como cursos livres ou anexos hospitalares, sem o currículo estruturado e a duração fixa que definem uma escola de ensino profissional.
O que diferencia a Anna Nery de 1926 é que ela foi a primeira a adotar um modelo de formação sistemático, com carga horária definida, estágios supervisionados e um projeto pedagógico que seguia padrões internacionais da época, influenciada pelo modelo norte-americano trazido por missões de saúde pública.
Como funcionava (e funciona) a formação nesse contexto histórico
Na prática, entrar na Anna Nery em 1926 significava um compromisso de dois anos de curso, com disciplinas teóricas e práticas divididas entre salas de aula e leitos hospitalares. O currículo incluía anatomia, fisiologia, farmacologia, técnica de enfermagem, obstetrícia, e disciplinas específicas como "higiene e enfermaria". Os alunos eram submetidos a rigores que hoje parecem exagerados: internato obrigatório, uniforme impecável, e uma hierarquia muito clara com as supervisoras. O que pouca gente sabe é que, por décadas, a escola só aceitava mulheres. Homens que desejavam ingressar na enfermagem tinham opções extremamente limitadas — basicamente, cursos militares ou migração para outras profissões de saúde. Essa barreira de gênero só começou a ser desfeita de forma mais consistente nas décadas de 1970 e 1980, e mesmo assim com resistência institucional considerável. Um detalhe prático que os estudantes de hoje muitas vezes desconhecem: a Anna Nery passou por diversas transformações estruturais. Foi integrada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 1995, o que mudou completamente seu modelo de governança e financiamento. Antes disso, funcionava sob a égide do Ministério da Saúde, o que dava uma característica mais voltada para a formação de recursos humanos para o sistema público de saúde do que para a formação acadêmica propriamente dita.

Problemas práticos que encontrei pesquisando essa história
Quando tentei rastrear documentos originais dos primeiros turmas da Anna Nery, me deparei com um problema comum: a dispersão dos acervos. Parte dos registros fica na própria escola, parte no Arquivo Nacional, e outra parte em coleções privadas. Em 2019, por exemplo, li uma reportagem sobre uma doação de documentos que trouxe materiais inéditos sobre o currículo de 1930, mas não encontrei onde esses documentos estavam sendo preservados oficialmente — aparentemente em uma coleção particular sem acesso facilitado. Se você está pesquisando sobre o tema e quer acesso a fontes primárias, o caminho mais viável é começar pelo acervo digital da UERJ e pelo portal da Biblioteca Nacional. O projeto Memória da Enfermagem Brasileira também reúne materiais valiosos, mas a curadoria é irregular — alguns documentos estão digitalizados, outros precisam de solicitação formal via protocolo. Leva em média duas a quatro semanas para obter cópias de documentos físicos.
Pontos cegos sobre a história da enfermagem no Brasil
Há duas coisas que sempre surpreendem quem estuda o tema com mais profundidade. A primeira é que a enfermagem no Brasil teve, por muito tempo, uma relação ambígua com a medicina. Enquanto nos Estados Unidos a Escola de Nightingale já havia estabelecido um modelo independente de formação, no Brasil a enfermagem foi, durante décadas, tratada como extensão da medicina e não como profissão autônoma. Isso só começou a mudar com a reforma sanitária dos anos 1970 e a posterior regulamentação pela Lei 7.498/1986, que definiu o exercício profissional de forma mais clara. A segunda é que a história das escolas anteriores à Anna Nery ainda é bastante obscura. Não tenho certeza absoluta sobre a data de fundação e o funcionamento regular da Escola de Enfermagem da Bahia de 1889 — há fontes que citam 1889, outras que indicam 1890, e há quem argumente que se tratava mais de um curso breve do que de uma escola propriamente dita. O mesmo ocorre com a Escola Augusta Porto. Para quem precisa de dados precisos para um trabalho acadêmico, o mais seguro é se debruçar sobre os documentos da Anna Nery de 1926, que têm registro mais sólido e acessível. O que posso afirmar com mais confiança é que o modelo da Anna Nery serviu de referência para a criação de dezenas de outras escolas de enfermagem ao longo do século XX. Muitas delas foram criadas sob sua influência direta, seja por formação de seus egressos, seja por cópia de seu currículo e estrutura organizacional.
onde encontrar informações
Para quem quer se aprofundar, os caminhos mais confiáveis são: o site oficial da Escola de Enfermagem Anna Nery (eea.n.uerj.br), o acervo da Federação das Enfermeiras do Estado do Rio de Janeiro, e publicações da Revista Latino-Americana de Enfermagem que tratam de história da profissão. A prefeitura do Rio de Janeiro também mantém um catálogo digitalizado de documentos históricos relacionados à saúde pública que pode ser útil. Não existe um download único ou um repositório centralizado com toda a história. É preciso fazer trabalho de arquivista mesmo. Mas vale o esforço — a narrativa da enfermagem brasileira é mais rica e mais contraditória do que as datas comemorativas sugerem.
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