Quando Bater A Saudade
O que acontece quando você menos espera
Saudade não pede licença. Ela chega no meio de uma terça-feira qualquer, enquanto você está lavando louça ou dirigindo para o trabalho, e simplesmente te para. É uma sensação física que aparece do nada. Você não consegue focar em nada por uns minutos, às vezes horas, e o resto do mundo parece estar em câmera lenta. A primeira coisa que as pessoas tentam fazer é lidar com isso de forma lógica. Procuram motivo, tentam racionalizar, listam razões para não ficar assim. Isso raramente funciona. A saudade não é um problema para resolver. É um estado que você apenas atravessa. O que funciona de verdade é dar ao corpo algo concreto para fazer. Eu aprendi isso da pior forma possível, há uns três anos. Tinha acabado de terminar um relacionamento de cinco anos e uma quarta-feira à noite a saudade bateu com uma intensidade que eu nunca tinha sentido. Fiquei trancado no apartamento, tentando analisar o que havia dado errado, relendo mensagens antigas, alimentando o ciclo em vez de deixá-lo passar. Passei quatro horas parado, revirando fotos no celular, e a sensação só piorava. No dia seguinte, descobri que a única coisa que realmente cortava o processo era movimento físico. Fui correr. Não para "liberar endorfinas" como dizem os gurus, mas porque o esforço físico obrigava seu cérebro a priorizar outra coisa. A corrida durou vinte e dois minutos. Quando parei, a pressão no peito tinha diminuído pela metade.
Desde então, minha rotina básica quando isso acontece é diferente. Se for de manhã ou à tarde, faço atividade física moderada. Caminhada rápida, musculação, qualquer coisa que eleve a frequência cardíaca por pelo menos quinze minutos. Se for noite e eu estiver cansado, escrevo à mão no papel. Não digitalizado. Papel e caneta. O ato de formar as palavras manualmente ocupa aquela parte do cérebro que costuma ficarem girando em círculos. Outra coisa que ninguém fala é sobre a hora do dia. Saudade tem preferência por certos momentos. Por volta das 17h, quando a luz do dia começa a mudar, e por volta das 22h, quando as notificações do celular param e o silêncio da casa fica mais alto. Se você sabe que esse é seu horário vulnerável, pode se preparar antes. Deixar tarefas simples prontas para aquelas horas, ter um jantar pré-preparado no congelador, evitar ficar no sofá sozinho nesses horários. Não é fraqueza, é estratégia. O erro mais comum que vejo as pessoas cometerem é tentar suprimir o sentimento. Beber para entorpecer, rolar redes sociais sem parar, mergulhar em trabalho excessivo. Tudo isso funciona por quinze minutos, no máximo. Depois o sentimento volta, muitas vezes mais intenso, porque você criou uma associação negativa com ele. A saudade passa mais rápido quando você permite que ela exista sem lutar contra. Senta, sente, não faz nada produtivamente por dez minutos, e deixa ela ir embora sozinha.
Um detalhe técnico que faz diferença: a temperatura. Parece bobo, mas lavar o rosto com água bem fria ou tomar um banho morno-tecido muda o padrão respiratório e quebra o loop de pensamento em cerca de trinta segundos. É um truque fisiológico simples, não mágica, mas funciona na hora. Também é importante notar quando isso se torna recorrente de forma problemática. Se a saudade aparece todos os dias por mais de duas semanas seguidas e interfere no seu sono, no seu apetite ou na sua capacidade de trabalhar, aí o terreno mudou. Não é mais algo passageiro, é algo que precisa de acompanhamento profissional. Existem pessoas capacitadas para lidar com isso, e procurar ajuda não é exagero. A maioria das vezes, porém, é só um pico. Dura de dez minutos a umas duas horas, depende do gatilho e do seu estado geral naquele dia. Com prática, você acaba reconhecendo os sinais físicos cedo: a tensão no pescoço, a respiração ficando mais rasa, aquela sensação de peso atrás dos olhos. Quando nota a tempo, dá para atenuar bastante antes que chegue ao auge.
Cuidado com o isolamento
Pessoas tendem a se isolar quando sentem isso. Não respondem mensagens, não saem, não falam com ninguém. O problema é que o isolamento alimenta a ruminação. Você fica preso na própria cabeça e a coisa ganha proporções maiores do que merece. Não precisa ir a uma festa, mas manter pelo menos um contato humano breve, mesmo que por mensagem, ajuda a ancorar você na realidade presente. Se quiser alguma referência prática, recomendo o livro "O Corpo Nunca Minta", da Lisa Feldman Barrett. Não é sobre saudade especificamente, mas explica exatamente como emoções funcionam no cérebro e por que técnicas de regulação física funcionam melhor do que tentar pensar seu caminho para fora do sentimento. Está disponível em versão digital e física em várias livrarias. No final das contas, não existe botão de ligar e desligar para isso. Mas existe repertório. Quanto mais ferramentas você tem, mais rápido a coisa passa. E passa. Sempre passa.
Galeria
-
SAUDADES Quando a saudade bater, não... Cadu151 - Pensador -
Quando a Saudade Bater | Álbum de Julio & Jorge - LETRAS.MUS.BR -
Quando a Saudade bater, aê você vai... Idson Comunica - Pensador -
Quando a saudade bater, o que dizer... w.carvalho - Pensador