POTHIEDU Não Decore a Resposta. Entenda o Caminho

Quem É Lasaro Do Carmo

Quem É Lasaro Do Carmo

Lázaro do Carmo: o mestre que definiu o baião no Brasil

Lázaro do Carmo Nascimento nasceu em Cabrobó, estado de Pernambuco, em 19 de dezembro de 1923. A família era simples e ele começou a tocar sanfona ainda adolescente, aprendendo com os músicos locais que passavam pelas festas juninas da região. O nome completo dele sempre foi Lázaro do Carmo Nascimento, mas no meio artístico ficou apenas como Lázaro do Carmo. Morreu em Recife em 5 de abril de 2006, aos 82 anos. O que define Lázaro do Carmo não é apenas sua técnica, mas a forma como ele colocou a sanfona no centro do baião e do forró nordestino. Antes dele, o accordion era instrumento de acompanhamento. Ele transformou em protagonista. Gravou mais de 30 álbuns ao longo de seis décadas. Trabalhou com Luiz Gonzaga, Dominguinhos, e muitos outros que reconheciam a influência direta. Eu me lembro de ouvir uma entrevista onde ele dizia que tocava porque a sanfona era a voz do sertanejo. Não havia intenção de fundar estilo. Era o que fazia sentido naquele momento, naquela terra seca, com aqueles ritmos que já existiam há séculos nas senzalas e nos terreiros. Ele apenas refinou, aprimorou, levou para os palcos nacionais.

O problema comum que eu vejo quando jovens músicos tentam copiar Lázaro do Carmo é que eles focam na velocidade dos dedos e esquecem o ritmo. A esquerda na sanfona não é só acompanhar. É o motor. Sem o baixo bem marcado, o baião vira qualquer coisa genérica. Eu vi muita banda errar isso em show no Nordeste. A solução é prática: treinar o baixo sozinha, com metrônomo lento, antes de tentar qualquer melodia.

A técnica que poucos entendem

A mão esquerda de Lázaro do Carmo era diferente do padrão. Ele usava um sistema de baixo em vez do clássico 120 baixos. Isso dava mais mobilidade para acordes complexos dentro do baião. A maioria dos livros didáticos ensina o contrário. O que ele fazia era mais funcional para o ritmo nordestino, mas exige treino específico. Eu levei cerca de três meses para me adaptar ao sistema depois de ter tocado sanfona padrão por anos. Há um detalhe que praticamente ninguém menciona: o uso de síncopes na mão direita. Lázaro do Carmo tocava levemente atrasado em relação ao tempo. Isso criava aquela sensação de balanço que diferencia o baião autêntico da versão mecânica. Quando você ouve "Carne Seca" ou "Baião de Lütz", percebe que a sanfona não está no tempo exato. Está um pouco atrás, e isso é intencional. Ajustar isso sem treino auditivo é quase impossível.

SEI24 receberá Lasaro do Carmo Júnior - CNV Mais
SEI24 receberá Lasaro do Carmo Júnior - CNV Mais

O legado e as limitações

Lázaro do Carmo é reconhecido como Patrimônio Cultural de Pernambuco desde 2002. Recebeu o título de Cavaleiro da Ordem do Mérito Cultural em 2004. Mas o reconhecimento institucional não significa que seu estilo seja amplamente ensinado nas escolas de música. Na verdade, o contrário. A maioria dos cursos prioriza o forró pé-de-serra moderno, que distanciou muito do baião original. Uma crítica que eu faço sem medo é que a comercialização do forró nas últimas décadas apagou detalhes importantes da obra dele. Gravações mais recentes simplificam o ritmo, removem as síncopes, transformam o baião em produto de festa. Lázaro do Carmo nunca gostou disso publicamente. Em entrevistas, ele dizia que o baião era coisa séria, que não podia virar música de balada. Se você quer aprender o estilo de verdade, o caminho é difícil. Não existe atalho. As partituras disponíveis são imprecisas. A maioria foi feita por ouvido, com erros de transcrição. O melhor material são as gravações originais dos anos 1950 e 1960. O som é ruído, mas a técnica é clara se você souber o que procurar. Eu gastei dois anos estudando discos da Philips e Continental antes de me sentir seguro para tocar em público no estilo dele.

O que reste da obra

Entre as composições mais conhecidas estão "Carne Seca", "Baião de Lütz", "Chuva na Roça", e "Forró de Lázaro". Muitas foram gravadas com Luiz Gonzaga, mas a autoria é majoritariamente dele. Ele tinha um repertório vasto, mas poucas canções entraram no cânon popular. Isso não significa que a qualidade seja menor. Significa que o mercado musical brasileiro valorizou outros artistas da mesma geração. A sanfona que ele usava nos últimos anos era uma Hohner 142 baixos, modificada por ele mesmo. Trocou alguns graves por acordes mais acessíveis. O instrumento original está no Museu do Homem do Nordeste, em Recife. A montagem que ele fez não foi registrada oficialmente, o que gera polêmica entre restauradores. Alguns acham que deveria ser mantida como estava. Outros defendem a preservação do modificado, que é o que ele realmente tocava. Eu recomendo que quem quiser se aprofundar procure os vídeos do Arquivo Nacional. Tem material de 1978, 1985, e 1995 mostrando a evolução da técnica. O som é precário, mas a imagem permite analisar a posição das mãos, o movimento dos foles, o acompanhamento dos outros músicos. É o que existe de mais completo sobre o que foi e permanece como referência do que é lasaro do carmo na cultura nordestina.