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Quem Era Elza Soares

Quem Era Elza Soares

A figura que dominou o samba brasileiro por décadas

Elza Pereira dos Santos, mais conhecida como Elza Soares, nasceu no Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro, em 25 de outubro de 1930. Começou a cantar profissionalmente ainda adolescente e gravou sua primeira gravação comercial em 1952 pela Columbia. A carreira teve três fases distintas com mais de quarenta anos entre elas, e é importante entender cada uma separadamente para não cair na simplificação que a tornou simplesmente uma cantora de samba. A primeira fase, entre 1952 e meados dos anos 1960, foi marcada por sucessos como "Amar Demais", música de Roberto Carlos e Erasmo Carlos que ela foi uma das primeiras a gravar, e "Se Eu Perder Esse Barco". Ela lançou mais de trinta singles nesse período e chegou a se apresentar no exterior. Não havia ainda o rótulo de ícone cultural — era uma cantora de marcha e samba trabalhando no sistema de discos da época. O segundo período, entre os anos 1970 e 2000, foi praticamente de invisibilidade profissional. Gravou poucos álbuns e o mercado fonográfico brasileiro estava em mudança brusca com o surgimento da Jovem Guarda e, depois, de novos ritmos. Elza voltou a trabalhar como faxineira e empregada doméstica durante anos. Essa parte da biografia é frequentemente contada de forma dramática nas biografias, mas o fato é que ela manteve o vínculo com a comunidade da Mangueira e continuou se apresentando em bares e eventos locais sem registro discográfico relevante.

A fase de redescoberta começou em 2003 quando foi recrutada por Marcos Valle para um projeto que resultou no álbum "Elza", lançado pela Biscoito Fino. O disco foi indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira em 2004. A partir daí, ela gravou "Mais Basta" (2005), "Um Cantinho pra Esconda o Choro" (2008), "Meu Tambor" (2012) e "Vozes Meu Amor" (2017), todos bem recebidos pela crítica. Seu último trabalho, "A Mulher do Fim do Mundo", foi lançado em 2021, quando ela tinha 90 anos. Ela faleceu em 2 de dezembro de 2022, aos 92 anos, no Hospital da Lagoinha, no Rio de Janeiro. Um detalhe que poucas biografias destacam com a devida ênfase é que sua voz tinha uma qualidade timbrística rara — uma densidade média-aguda que permitia tanto a delicadeza quanto o ataque forte sem distorção. Isso significava que ela podia interpretar sambas enredo com potência e letras intimistas com controle dinâmico natural. Na prática, isso é difícil de encontrar em cantores formados fora da tradição oral do samba de escola de samba, onde o canto é aprendido na prática coletiva e não em conservatórios. Outro ponto que passa despercebido: Elza Soares teve uma vida pessoal marcada por cinco maridos, dezenas de filhos e uma história de violência doméstica que ela mesma revelou publicamente. Esse aspecto não era parte de sua imagem artística, mas influenciava diretamente as interpretações que ela fazia de músicas sobre amor, dor e resistência. Quem ouve apenas os sucessos comerciais não capta essa camada de significado nas performances mais tardias, especialmente nos álbuns produzidos por Luiz'Prà e Paulo Tartarini.

Há ainda uma nuance técnica sobre seu repertório que vale ser mencionada. Ela gravou versões de composições que depois se tornaram standard do samba, mas suas interpretações originais diferem significativamente das versões mais conhecidas. O samba "Tarde em Itapoã", por exemplo, tem uma leitura dela que é mais lenta e com rubato mais pronunciado do que as versões posteriores de Caetano Veloso ou Gal Costa. Isso reflete a tradição do samba de morro dos anos 1950, que priorizava a narrativa vocal sobre a precisão rítmica. Entre seus prêmios e reconhecimento está o título de Embaixadora da Cultura Brasileira, concedido pelo Ministério da Cultura, e a Ordem do Mérito Cultural. A Escola de Samba Mangueira, de onde era rainha de bateria e membro honorário, lhe dedicou o enredo "Elza é Toda Mulher" no carnaval de 2023. Existe um Museu do Samba que carrega seu nome e faz parte do acervo da Prefeitura do Rio de Janeiro. O que resta após toda essa informação é entender que Elza Soares foi, essencialmente, uma ponte viva entre duas eras do samba brasileiro. Ela gravou quando o disco de vinil era o formato dominante e encerrou a carreira quando streaming já era a norma. Sua existência como artista documenta a transformação completa da indústria fonográfica brasileira sem precisar de nenhum comentário teórico sobre o assunto. Era apenas uma pessoa que cantava samba desde os quinze anos até os noventa e poucos.

Elza Soares: biografia, carreira, morte - Brasil Escola
Elza Soares: biografia, carreira, morte - Brasil Escola