Quem Eram Os Colonos
O que de fato eram os colonos no Brasil colonial
Quando se pergunta quem eram os colonos, a resposta imediata costuma ser simplista demais. Não era um grupo homogêneo. Era gente trazida por circunstâncias diferentes, com objetivos diferentes, e frequentemente vivendo em condições que variavam drasticamente de região para região e de período para período. Os colonos europeus que chegaram ao Brasil entre os séculos XVI e XVIII vinham basicamente de três origens. Portugueses, sim, mas também espanhóis, franceses e, em menor número, holandeses e ingleses. Havia também os que vieram atraídos por contratos, os que vieram forçados, e os que simplesmente desapareciam de um porto europeu e apareciam daqui. A documentação da época não diferencia bem essas categorias. Muitos registros confundem "colonos", "escravizados", "mamelucos" e "assinantes" como se fossem a mesma coisa. O problema é que a imagem popular do colono brasileiro é quase sempre a do pequeno agricultor português com sua família e seu enxado. A realidade era mais suja e mais complexa.
Quem eram os colonos na prática
Na capitania de São Vicente, por exemplo, os colonos muitas vezes eram ex-presidiários ou filhos de condenados enviados para "limpar" a terra. Em Pernambuco, os colonos do interior eram frequentemente gente sem renda fixa que conseguia uma sesmaria qualquer e tentava sobreviver dela. No Rio de Janeiro colonial, boa parte dos colonos eram marinheiros desertores ou homens solteiros sem possibilidade de voltar para a Europa. Eu li inventários de colonos no Vale do Paraíba que me deixaram sem palavra. Um sujeito morria com três peças de roupa, dois bois, uma enxada enferrujada e uma dívida de trinta mil réis com o dono do engenho mais próximo. Era isso. Esse era o colono médio do século XVIII naquelas regiões. Há também a questão dos contratos. Muitos colonos vinham sob sistema de parceria ou arrendamento. O dono da terra fornecia a semente, a ferramenta e às vezes a casa. O colono trabalhava e entregava uma porcentagem da produção. Quando a safra fracassava, a dívida aumentava. Quando funcionava, o colono raramentevia o dinheiro que deveria receber. Isso se repetia por gerações em várias regiões canavieiras.
No Sul, especialmente em São Paulo e Minas Gerais, a situação era diferente. Aqui os colonos tinham mais autonomia porque a terra era abundante e a fiscalização era fraca. Um colono podia pegar uma sesmaria, construir uma roça, criar alguns animais e viver praticamente sozinho a dezenas de léguas do próximo povoado. Essa liberdade relativa explica em parte por que o sertanismo e a entrada de bandeirantes floresceram nessa região. Outro ponto que poucos mencionam: a maioria dos colonos não eram brancos europeus. Nas regiões de mineração e nas capitanias do Nordeste, os colonos incluían muitos mestiços, africanos libertos e até indígenas que haviam adotado o modo de vida português. As autoridades coloniais tentavam distingui-los, mas na prática viviam todos misturados, compartilhando os mesmos problemas de terra, água e proteção contra as autoridades. Se você quer entender quem eram os colonos de verdade, precisa deixar de lado a ideia de "colono português pobre". A verdade é que eram pessoas de origens muito diversas, muitas vezes deslocadas, frequentemente exploradas, e quase sempre tentando encontrar algum espaço para sobreviver num sistema que raramente lhes oferecia justiça.

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