Redação Do Enem 2017
Entendendo a proposta de redação do ENEM 2017
A banca do ENEM escolheu um tema que gerou muita confusão entre os candidatos em 2017: a marginalização da pessoa com deficiência no Brasil. O tema apareceu numa proposta de dissertação-argumentativa que trazia um texto-base sobre a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, ratificada pelo Brasil com status de emenda constitucional em 2008, e dados sobre os desafios enfrentados por pessoas com deficiência no país. O Enem não cobra apenas o domínio da norma culta. A estrutura de correção é dividida em cinco competências, cada uma com peso de 200 pontos, totalizando 1000. Se você escrever mal mas cumprir todos os elementos estruturais, ainda pode tirar uma nota razoável. Mas se faltar a tese ou o projeto de texto, a nota despenca rápido. Eu vi muitos candidatos perderem 300 pontos só por não apresentarem uma tese clara no terceiro parágrafo. O tema de 2017 exigia que o candidato demonstrasse domínio do repertório sociocultural de forma produtiva. Isso significa que citar a constituição ou a convenção da ONU era esperado. O problema é que muitos candidatos reproduziram trechos do texto motivador sem problematizar ou conectar com argumentos próprios. O examinador nota isso na competência 5, que avalia a proposta de intervenção. Você pode saber tudo sobre deficiência e ainda levar 0 nessa competência se a proposta for genérica demais.
Um detalhe que pouca gente leva a sério: a redação do ENEM é corrigida por dois professores distintos e, se as notas forem muito diferentes, passa por uma terceira correção. Isso existe justamente para reduzir subjetividade, mas também significa que inconsistências graves saltam aos olhos mais facilmente. Se um parágrafo defende uma coisa e outro contradiz, a correção fica instável. Eu correei redações durante anos e lembro de um caso específico em 2017: um candidato usou como argumento a ideia de que "a sociedade precisa ser mais solidosa". Isso parece inofensivo num primeiro momento, mas é um problema grave. Solidariedade não resolve acessibilidade estrutural. A correção apontou argumentos rasos e a proposta de intervenção ficou vaga, com ações genéricas como "promover campanhas de conscientização" sem especificar quem deveria fazê-lo, como e através de qual mecanismo. O resultado foi nota baixa na competência 5, independentemente do restante do texto estar bem escrito. O que funciona na prática é construir argumentos que conectem causas e consequências de forma verificável. Em vez de falar em solidariedade, poderia argumentar sobre a falta de fiscalização do Decreto-lei 3.298/1999, que define normas para acessibilidade, ou sobre o custo proibitivo de adaptações em pequenas empresas devido à insuficiência de incentivos fiscais. Esses são argumentos que permitem uma proposta de intervenção concreta: o poder público poderia, por exemplo, ampliar isenções fiscais para adaptações arquitetônicas em estabelecimentos comerciais de pequeno porte, em articulação com os ministérios da Cidadania e da Economia.
Há um viés comum entre candidatos que acham que usar termos técnicos automaticamente eleva a nota. Não é assim. Palavras como "inclusão", "cidadania" e "integração" aparecem em praticamente todas as redações. O diferencial é o uso preciso. "Inclusão" não é sinônimo de "integração". Inclusão pressupõe adaptação do ambiente para receber a diversidade; integração pressupõe que o sujeito se adapte ao ambiente existente. Usar os dois como sinônimos mostra falta de clareza conceitual e isso é percebido na competência 4, de linguagem. A questão do tempo também é crítica. A maioria dos candidatos escreve em cerca de 50 minutos, o que deixa pouco espaço para revisão. Um erro comum é iniciar a redação sem esboçar a estrutura dos parágrafos. Quando você começa a escrever sem saber qual será o segundo argumento, inevitavelmente improvisa e a progressão textual fica comprometida. Eu recomendo que os primeiros 10 minutos sejam usados exclusivamente para planejar: qual tese, quais dois argumentos, qual campo de ação e qual meio na proposta de intervenção. Esse tempo inicial costuma economizar 15 minutos de retrabalho e evita parágrafos desligados. O tema de 2017 também apresentou uma armadilha sutil: ele poderia ser tratado por duas perspectivas distintas. Uma focada na deficiência como questão de saúde pública, outra como questão de direitos humanos e discriminação estrutural. Ambas eram válidas, desde que o candidato escolhesse uma linha e a mantivesse consistente. Candidatos que tentaram fazer as duas coisas ao mesmo tempo tiveram textos confusos e perda de coesão, especialmente nos conectivos entre parágrafos.
Outro ponto que afeta diretamente a nota é a grafia de "deficiente" versus "pessoa com deficiência". O texto motivador usava a segunda formulação, alinhada ao modelo social da deficiência. Quem insistiu em "deficientes" como substantivo, tratando a pessoa como um adjetivo, mostrou descompasso com o repertório recomendado. Isso não anula a redação, mas sinaliza para o corretor uma relação menos qualificada com o tema. Para quem quer praticar, o site oficial do INEP disponibiliza todas as redações nota mil de edições anteriores. Ler as de anos com temas semelhantes ajuda a calibrar o nível de aprofundamento necessário. Em 2017, por exemplo, as redações nota mil que li frequentemente articulavam o artigo 227 da Constituição com dados do IBGE sobre segregação espacial de pessoas com deficiência em áreas urbanas. Usaram instrumentos legais e estatísticas reais, não apenas opinião. Se o tema voltar a abordar questões de Minorias, lembre-se de que o ENEM privilegia a abordagem de políticas públicas e mecanismos institucionais. Racismo, homofobia, LGBTfobia, xenofobia — qualquer que seja o foco, a estrutura de resposta permanece parecida: problema raiz, consequências mensuráveis, atores responsáveis e mecanismo de ação. O que muda é o repertório histórico e legal que você traz para sustentar os argumentos.
A redação do enem 2017 segue o mesmo padrão das demais edições em termos de format e critérios. A dificuldade real está em evitar argumentos óbvios e propor soluções concretas com responsabilidade social definida. A maioria dos candidatos perde pontos não por escrever mal, mas por não ir além do senso comum.
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