Relevo Brasileiro Jurandyr Ross
Entendendo o relevo brasileiro segundo Jurandyr Ross
O trabalho do Jurandyr Ross para a classificação do relevo do Brasil mudou completamente a forma como professores e estudantes de geografia precisam encarar o assunto. Antes dele, a maioria das listas em sala de aula ainda seguia a divisão clássica do Moacyr para o ensino médio, que era simplificada e não usava dados recentes de satélite. O Ross publicou o modelo em 1989, na GEOGRAPHIA da USP, e a partir daí começou uma reformulação que ainda gera discussão. Ele introduziu a ideia de unidades morfoestruturais, que se baseiam na estrutura geológica do terreno e na forma como ela se apresenta na superfície, em vez de usar apenas os contornos visuais como faziam os modelos anteriores. O que o modelo traz de diferente é a noção de que o relevo brasileiro pode ser dividido em Planalto, Planície e Depressão, com subdivisions internas baseadas em bacias sedimentares e escudos cristalinos. Um exemplo concreto: ele separou o Planalto da Borborema como uma unidade distinta do Planalto Atlântico, algo que classificações mais antigas misturavam. Isso fez diferença prática nas provas do ENEM e nos livros didáticos que começaram a adotar a nova terminologia logo nos anos 2000. Quando eu estava trabalhando com mapas de base no início dos anos 2000, tentando cruzar imagens de satélite Landsat com a classificação do Ross, percebi um problema que poucos mencionam: a fronteira entre Planície e Depressão nem sempre é clara na prática de campo. A Depressão Periférica da Borda Leste da Bacia do Paraná, por exemplo, aparece como Planície em algumas fontes e como Depressão em outras, porque o próprio conceito de "depressão" no trabalho dele é relativo, e não absoluto em relação ao nível do mar. Eu resolvei isso consultando a publicação original da GEOGRAPHIA, volume 11, número 2, de 1989, e comparando com a versão revisada de 2005, que já tinha ajustes importantes nessa linha divisória. O resultado foi que passei a tratar essas áreas limítrofes como zonas de transição, o que evitou confusão em aulas práticas de geomorfologia.
A abordagem dele também exigiu o uso de técnicas de geoprocessamento que ainda não eram comuns em muitos cursos de graduação. O modelo depende de dados de elevação digital e de mapeamento geológico atualizado, o que significa que professores sem acesso a software como o QGIS ou o ArcGIS tendem a ter dificuldade em aplicar a classificação corretamente. Aí entra outro ponto que os manuais costumam pular: a escala do mapa importa muito. O modelo funciona bem em escala 1:1.000.000, mas em escalas maiores, como 1:250.000, as unidades morfoestruturais começam a se fragmentar de forma que exige conhecimento geológico avançado para interpretar. Eu já vi alunos tentarem aplicar a classificação do Ross em mapas urbanos e ficarem confusos, porque o modelo foi feito para escala regional, não local. Tem também a questão das depressões. O próprio Ross define depressão absoluta e depressão relativa, e essa diferença é importante, mas muitos material didático tratam como sinônimos. A depressão absoluta está abaixo do nível do mar, o que no Brasil só ocorre em trechos muito pequenos no estado do Amapá. Já a depressão relativa está acima do nível do mar, mas abaixo do terreno ao redor, o que é mais comum. Essa distinção é simples, mas essencial para não errar questões de múltipla escolha, especialmente aquelas que perguntam sobre a Depressão Sertaneja ou a Depressão Sul-Rio-Grandense. Um detalhe que poucos citam: o modelo do Ross não substituiu totalmente a classificação anterior, mas convive com ela. Muitos livros didáticos ainda misturam os dois sistemas, e isso gera confusão nas provas. O ideal é saber que o ENEM tende a cobrar o modelo revisado, mas questões mais antigas ou de vestibulares tradicionais podem usar a terminologia do Moacyr. O recomendado é consultar sempre a data da fonte e verificar qual classificação está sendo aplicada no material de referência da prova.
O trabalho do Jurandyr Ross ainda é referência principal no Brasil, mas tem limitações que precisam ser reconhecidas. Um problema real é que a classificação depende de dados geológicos atualizados, e muitas regiões do Norte e do Centro-Oeste ainda têm cobertura cartográfica insuficiente, o que gera zonas cinzentas na divisão das unidades morfoestruturais. Outra limitação é que o modelo é estático: ele não considera processos erosivos recentes ou alterações antrópicas significativas no terreno, como terraplanagem para urbanização ou mineração em larga escala. Em áreas como a Mina de Carajás ou a região metropolitana de São Paulo, o relevo real é muito diferente do representado pelo modelo original. Para quem quer acessar o material completo, o artigo de 1989 está disponível em várias bases acadêmicas, como a SciELO e a plataforma da USP. Também existe a versão revisada de 2005, que ajusta algumas subdivisões e corrige imprecisões da primeira edição. Se o objetivo for usar o modelo em aula ou em pesquisa, o caminho mais seguro é começar pela publicação revisada e, se necessário, retroceder à original para entender a evolução do conceito. O tempo de leitura da versão completa não é longo, mas a densidade técnica é alta, então recomendo ler com atenção os mapas de suporte e não apenas o texto descritivo. Um ponto adicional que vale a pena considerar: o modelo do Ross é mais adequado para ensino de graduação em geografia e para pesquisas de mapeamento regional. Para o ensino fundamental, onde a abordagem costuma ser mais simplificada, a classificação do Moacyr ainda pode fazer sentido, porque o foco ali é a noção geral de formas de relevo, e não a estrutura geológica subjacente. Misturar os dois sistemas sem critério claro só gera confusão nos alunos.

Na prática, a melhor forma de dominar o relevo brasileiro pelo método do Ross é pegar um mapa físico de grande escala, marcar as principais unidades morfoestruturais com cores diferentes e depois cruzar com imagens de satélite para verificar como cada unidade se apresenta no terreno real. Esse exercício leva cerca de duas a três horas para alunos de graduação, mas consolida o entendimento de forma muito mais eficaz do que decoreba de nomes de planaltos e depressões. O ganho é real, e a curva de aprendizado não é tão íngreme assim quando se tem acesso aos mapas corretos.
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